Fundador da família Espírito Santo era “workaholic” e controlador

A jornalista Alexandra Ferreira estreia-se editorialmente com uma biografia de José Maria Espírito Santo Silva (1850-1915), que define como empreendedor e cujo testamento “servirá de molde para muito do que é o funcionamento da família Espírito Santo”. A obra intitulada “José Maria Espírito Santo” procurar traçar o percurso do “homem que fez nascer a única […]

A jornalista Alexandra Ferreira estreia-se editorialmente com uma biografia de José Maria Espírito Santo Silva (1850-1915), que define como empreendedor e cujo testamento “servirá de molde para muito do que é o funcionamento da família Espírito Santo”.

A obra intitulada “José Maria Espírito Santo” procurar traçar o percurso do “homem que fez nascer a única dinastia portuguesa de banqueiros”, como escreve a autora.

“José Maria Espírito Santo e Silva não confiava o negócio a ninguém, era um ‘workaholic’, obcecado com o controlo. Teria sempre dificuldades em trabalhar com mais pessoas, uma característica de um tipo de personalidade pouco habituada a conceder, a partilhar e a ouvir”, escreve a autora, citando uma das máximas do fundador do grupo: “Se queres uma coisa bem feita faz tu”.

A Espírito Santo e Silva “interessava-lhe sobretudo agarrar todas as oportunidades que surgissem para lucrar”, desde a possibilidade de venda de sardinha portuguesa, em Espanha, a “lançar-se em negócios paralelos”. Escolhia os sócios “a dedo”, que passaram para a esfera familiar, sendo padrinho dos filhos, companheiros de viagens, apesar de ter o lema “amigos, amigos, negócios à parte”, segundo a autora.

Apontado por Alexandra Ferreira como controlador, no seu testamento “obriga os filhos [legítimos] [a constituírem] uma sociedade comercial limitada”, estabelecendo “quem quer à frente do negócio”, não sendo óbvio, segundo a autora, que seja o primogénito do segundo casamento, “porque inclui os seus sócios e empregados”. “Confiaria pouco nos filhos?”, interroga-se a autora.

Nascido de pais incógnitos, no Bairro Alto, em Lisboa, foi batizado apenas com o nome de “José”, levado pela parteira, Hipolita Joanna, tendo-se tornado no “patriarca da família mais importante de Portugal, até ao início do século em que vivemos”.

A vida de José Espírito Santo e Silva tem vários mistérios, desde logo a paternidade, mas também, como escreve Alexandra Ferreira, a fonte de financiamento para se estabelecer como cambista e vendedor de lotarias, na então calçada dos Paulistas, atual calçada do Combro, em Lisboa.

“O capital para começar nunca se saberá ao certo onde foi buscá-lo”, atesta Ferreira.

“Uma coisa parece levar à outra”, afirma a autora, quanto à origem do capital inicial, que poderá ter sido dado pelo conde de Rendufe, seu suposto pai. Uma das teses, aponta-o como filho ilegítimo de uma relação do conde com uma criada, Maria Angelina Saraiva, a quem mais tarde o capitalista chamará de mãe e sepultará no jazigo de família que ergueu no cemitério do Alto de S. João, na capital. Alexandra Ferreira adverte que esta “é uma hipótese cada vez menos sustentada”.

José, todavia, ao contrário do habitual dos filhos nascidos de pais incógnitos, teve uma educação acima da média do tempo, tendo estudado na Escola de Comércio de Lisboa, facto que fortalece a especulação que, por detrás do jovem, estaria um pai endinheirado.

Quando se casou pela primeira vez, contava 19 anos, estava já estabelecido comercialmente e adquiriu a própria casa onde foi morar com Maria da Conceição, também ela filha de pais desconhecidos, que fora entregue aos cuidados da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Será por altura do casamento, em que é registado como tendo 24 anos, que terá ido buscar o apelido “Silva”, presumivelmente ao suposto pai, o conde de Rendufe, Simão da Silva Ferreira de Lima e Castro. O “Maria” tomou-o de Nossa Senhora, que foi sua madrinha de batismo, e Espírito Santo, uma referência à terceira Pessoa da Santíssima Trindade, quando recebeu o crisma católico.

Não passará os nomes “Espírito Santo” aos filhos, que só mais tarde os irão incluir no rol de apelidos.

Quanto à origem do dinheiro, apresenta a autora três teses: um possível casamento com uma cidadã brasileira rica, do qual não há registo documental, o financiamento por parte do conde de Rendufe, ou uma outra mais rocambolesca, contada por Vasco Mello, que está à frente da Casa Campião, fundada há 150 anos.

Antes de se estabelecer como cambista, José trabalhou numa das muitas casas de jogo que havia em Lisboa, na segunda metade do século XIX. “Um dia (…) terá recebido um cliente que não sabia, mas acabara de ganhar a taluda. Vinha apenas saber se teria direito a prémio, mas [José] não disse a verdade ao cliente”, amarrotou o bilhete, atirou-o para o lixo, “mas foi rapidamente recuperado mal o verdadeiro vencedor virou costas”. Nos meandros casas de jogo correu que “saiu a sorte grande ao Espírito Santo”, capital que terá aplicado no início da atividade.

José Espírito Santo Silva foi construindo o seu “império”, seguindo um do seus lemas: “Vale mais perder pouco e cedo, do que muito e tarde”. Enviuvou aos 41 anos, voltou a casar e, além dos filhos dos dois casamentos, teve vários ilegítimos, quatro dos quais nunca reconheceu, e se alguns reconheceu, deveu-se à persistência da filha mais velha, Maria Justina, que tinha um forte ascendente sobre o pai, notou a autora.

OJE/Lusa

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