Geração (Des)confiança

Para crescermos e cumprirmos um país em que as novas gerações vivam melhor do que a geração dos seus pais, é preciso confiar nas empresas e no setor privado. Nos últimos cinco anos alguém viu coisa parecida?

Os sub-30 deste país cresceram, sempre, sobre crises.

Findo o Cavaquismo, o país viveu mergulhado primeiro no pântano e depois na tanga. Veio uma maioria absoluta socialista que nos atirou para a troika. Terminada a presença desta última, veio a política da devolução de direitos e rendimentos ao Povo que, veja-se, culmina em nova crise devido a uma pandemia à escala global, dizem eles.

Como se pode verificar, a geração nascida ao longo dos anos 90 não viveu um período longo de estabilidade. Estabilidade que permitisse tomar decisões e fazer planos estruturados de vida, sem receios. A estabilidade é um ativo intangível essencial à prossecução do sucesso e da realização individual.

A estabilidade e a confiança são ativos fundamentais para o desenvolvimento das sociedades. Só a partir de um determinado patamar é que qualquer indivíduo se sente confortável a arriscar. E nada disto tem que ver com as balelas da zona de conforto. Tem apenas que ver com uma sociedade mais evoluída e preparada, fruto da literacia e, consequente, um aumento da qualidade de vida.

Sejamos francos, Portugal é um país que, pela classe política que foi tendo, adiou sempre as decisões de fundo. Só quando as reformas se tornaram inevitáveis, é que se reformou e, pasme-se, melhorou a qualidade de vida dos portugueses.

As novas gerações nunca viveram num país em que ser empreendedor fosse recomendável. Uma grande carga fiscal, acompanhada de um estigma social que menospreza  quem falha na atividade empresarial. Esta é a receita ideal para que, profissionalmente, as novas gerações vejam no trabalho por conta de outrem, e nos meios mais pequenos da administração central (direta ou indireta), uma boa resposta para a ideia de estabilidade que procuram ter.

Os problemas do emprego e da habitação não são novos. Contrariamente àquilo que se diz, a ilusão de que o elevador social funcionava para quem terminava a sua formação superior, só era possível porque o setor privado era forte. Um jovem acabava o curso, tinha emprego porque as empresas arriscavam, em função da atividade económica existente. Tinham confiança no mercado.

Há 20 anos, um jovem com 22 ou 23 anos comprava a sua primeira habitação. O setor financeiro, nomeadamente a banca, acreditava que a atividade laboral daquele jovem lhe permitiria uma vida financeira que nos 10 ou 15 anos seguintes, consolidava o pagamento do imóvel e, provavelmente, transacionava esse bem para com o produto da venda, adquirir outro mais próximo às necessidades do seu projeto familiar. Hoje, quantos jovens têm capacidade para adquirir, mesmo com crédito à habitação, um imóvel até aos 28 anos?

Seguramente dirão que a estrutura de vida dos jovens mudou e, como tal, os jovens terminam a sua formação superior mais tarde. É certo! O problema é que hoje, ao contrário do passado, os jovens demoram proporcionalmente mais tempo a arrancar os seus projetos de vida, com uma agravante: começam mais tarde, em condições mais frágeis, do que a geração anterior que é, em norma, menos qualificada que a sua.

Nos últimos 15 anos, Portugal arrefeceu o motor que apoia a iniciativa privada. Veja-se, a título de exemplo, o chumbo por parte das esquerdas de uma proposta de alteração ao Orçamento do Estado, pela JSD, que alargaria o IRS Jovem, aqueles que auferissem rendimentos da categoria B. Não é nesta categoria que estão os empresários e aqueles que prestam serviços? Ou vejamos, por exemplo, quais os incentivos que os sucessivos governos portugueses têm dado ao mercado de capitais, vulgo PSI20, nos últimos 12 anos?

Para crescermos e cumprirmos um país em que as novas gerações vivam melhor do que a geração dos seus pais, é preciso confiar nas empresas e no setor privado. Nas pessoas, nos seus sonhos e na sua capacidade de transformar o trabalho em riqueza.

Nos últimos cinco anos alguém viu coisa parecida? Portugal não tem de ser isto.

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