Geração Putin. Jovens russos com dificuldades para arranjar emprego

Os especialistas ouvidos pela “Insider” dizem que uma reviravolta política é improvável, mesmo que os russos estejam insatisfeitos. As mudanças nas universidades, com Moscovo a querer colocar fim a Bolonha, colocam ainda mais dificuldades aos jovens.

Lusa

Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, as multinacionais deixaram a Rússia em massa, e as sanções acumulam-se. Enquanto isso, estão a acontecer mudanças nas universidades russas que dificultam o acesso dos estudantes do país ao ensino superior noutros lugares. Assim, os jovens russos que estudam a nível superior e entram no mercado de trabalho estão a enfrentar dificuldades nunca vistas, segundo o “Business Insider”.

Especialistas disseram que, quatro meses depois, é impossível quantificar o impacto da guerra sobre os jovens russos, mas é certo que a geração que cresceu sob a presidência de Vladimir Putin – com início em 2012 – está a viver numa Rússia muito diferente daquela em que cresceu.

Apelidada de “Geração Putin”, o grupo de jovens — que tem entre 17 e 25 anos, segundo o Wilson Center —  cresceu a comer McDonald’s, a ver as últimas novidades de Hollywood e a postar no Instagram, uma realidade que desapareceu após a invasão da Ucrânia.

Em concreto, as saídas das multinacionais afetaram diretamente os empregos, as perspetivas de carreiras estáveis dentro e fora do país, a formação profissional e as redes de trabalho.

“Muitas corporações multinacionais prometeram boas carreiras estáveis, onde se pode avançar com base no mérito numa espécie de modelo capitalista ocidental tradicional”, disse Andrew Lohsen, membro do Programa Europa, Rússia e Eurásia no Centro de Estratégia e Estudos internacionais. “Essas oportunidades estão a acabar”.

Lohsen citou os sectores energético e tecnológico como os mais afetados.  No início deste mês, as gigantes de tecnologia americanas IBM e Microsoft demitiram centenas de funcionários na Rússia, à medida que as empresas continuam a sair do mercado. E com elas muitos funcionários de tecnologia russos.

Embora muitos tenham saído por medo de serem recrutados para a guerra, alguns disseram que foram motivados pelo impacto das sanções nos seus empregos.

Em abril, o Banco Mundial disse que a economia russa deverá contrair 11,2% em 2022, o que, a confirmar-se, seria a pior recessão económica desde o colapso da União Soviética em 1991.

Relativamente às universidades, os especialistas demonstram receio com o futuro uma vez que o país procura sair do Processo de Bolonha — no qual os governos europeus alinham padrões e qualificações educacionais — e voltar ao padrão soviético, o que torna muito difícil para qualquer tipo de universidade europeia verificar as credenciais.

“O que isso significa é que os russos que estão a pensar em obter uma educação superior na Europa – especialmente um diploma profissional ou de doutoramento – vão enfrentar mais dificuldades para tentar entrar em universidades europeias”, disse Lohsen.

Esta preocupação soma-se à crescente doutrinação no sistema académico e falta de liberdade de debate e expressão, acentuadas com a invasão. Tal tornou-se visível depois de 700 reitores terem assinado uma carta em março endossando a versão dos eventos do Kremlin, isto é, que Moscovo está a levar a cabo uma “desmilitarização e desnazificação” da Ucrânia, segundo a revista “Times Higher Education”, citando a carta, que já não está disponível ao público.

Em paralelo, foi aprovada uma lei que condena até 15 anos aqueles que divulgassem intencionalmente notícias “falsas” sobre o golpe militar.

“O que estamos a ver é a politização do sistema educacional, e isso vai de cima para baixo”, disse Lohsen. “Há uma mudança realmente acentuada na educação russa para abraçar a narrativa do Estado e excluir qualquer tipo de dúvida ou alternativa e punir aqueles que saem da linha”.

Contudo, uma reviravolta política é improvável, mesmo que os russos estejam insatisfeitos, dizem os dois especialistas à “Insider”.

Agora, Moscovo tem vindo a aumentar a propaganda nos últimos anos para promover uma estrutura de cima para baixo com o Estado, os militares e a Igreja no centro da sociedade russa, segundo Lohsen. Ademais, os media são cada vez mais controlados pelo Estado.

Muitos dos descontentes, incluindo jovens, fugiram do país após o início da invasão. Dentro da Rússia, o apoio à guerra permanece. No final de maio, uma sondagem russa independente descobriu que 60% dos russos de 18 a 24 anos apoiavam a guerra, com base numa amostra de 1.634 pessoas.

“Uma revolução é mais provável numa democracia do que numa autocracia – porque na primeira pode-se simplesmente ter uma eleição”, afirma Malik. Afinal, continua, as condições económicas na antiga União Soviética eram piores do que são agora e nada mudou durante décadas.

Recomendadas

CEO da TAP pede desculpas pelos constrangimentos no aeroporto e apela à compreensão

Christine Ourmières-Widener reconhece que a crise da aviação “não deverá melhorar nas próximas semanas”.

Estratégias de sustentabilidade nas empresas dependem da competitividade

O Portugal 2030, que será implementado através de 12 programas, terá uma dotação global superior a 23 mil milhões de euros em fundos estruturais. Que importância têm os programas de financiamento para o tecido empresarial?

“Pertinência dos apoios à capitalização acentuou-se com duplo efeito” exógeno

A emergência dos apoios à capitalização das empresas esbarra com a lentidão dos timings de decisão, o que dificulta a adaptação a um contexto de grande exigência do ponto de vista da gestão.
Comentários