Gestão bancária sofrível, ou algo mais

Um banco da dimensão do BPI terá, na melhor das hipóteses, 50 milhões de euros de disponibilidades imediatas, de acordo com gestores de topo contactados.

1. A notícia avançada pelo Público de que a empresária Isabel dos Santos transferiu 238 milhões de euros do BPI para contas pessoais em 2015, e apenas sete horas antes de ser conhecida a ordem judicial de congelamento de fundos, levanta várias questões.

A primeira é, desde logo, o acerto nos timings. É preciso saber antecipar decisões judiciais com grande precisão, o que pode ser considerado um dom. A segunda, não menos inquietante, é saber que uma grande instituição financeira tem 238 milhões de euros disponíveis num escasso período de tempo para se preparar. Um banco da dimensão do BPI terá, na melhor das hipóteses, 50 milhões de euros de disponibilidades imediatas, de acordo com gestores de topo contactados. Ter 238 milhões de euros disponíveis com tal celeridade só pode significar uma inusitada má aplicação de fundos. Poderá, inclusive, haver outros cenários, para além do ligado ao “dinheiro improdutivo”, mas sobre os quais nem sequer nos queremos pronunciar.

2. Costa considera “saboroso” o ano de 2017. Certamente que se referia às boas notícias do crescimento, do turismo, do défice, dos aumentos do rendimento disponível dos funcionários públicos ou da escolha de Mário Centeno para liderar o Eurogrupo. Mas as palavras servem essencialmente para consumo interno e, no mercado doméstico, o ano nunca poderia ser bom quando se registou mais de uma centena de mortos em incêndios, grande parte dos quais por desleixo e falta de ajuda. Revela insensibilidade e tentativa de esquecimento e é um sinal perigoso de que a política está à frente dos valores e das missões.

3. A Raríssimas passou de bestial a besta num ápice. O escândalo rebenta porque, à semelhança de outros casos falados à mesa do café, este não passou “entre os pingos da chuva”. Teve repercussão mediática na TVI e depois foi replicado. O último “a saltar do navio” parece ser o ministro da Segurança Social, não por lá ter trabalhado, mas por nada saber do local onde trabalhava, mesmo depois de ser alertado. Este é um exemplo, não apenas para as IPSS mas para todo o sistema público e privado, de que seguir rumos por “linhas tortas” não é opção. O “espanto” demonstrado por algumas personalidades que ao longo dos anos apoiaram a gestão da Raríssimas também não é de levar a sério. As denúncias existiam e eram conhecidas. Também é verdade que o mercado e as organizações estão cheias de denúncias anónimas falsas, e isso faz parte do sistema para prejudicar ou influenciar decisões políticas, daí a necessidade de ter defesas sob pena de se parar o país. A solução passa por inspeções céleres, criteriosas e absolutamente isentas. Acabar com o modelo assistencial privado não é opção. Ao Estado exige-se fiscalização e isenção.

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