Gestão de activos e a luta contra as alterações climáticas

Uma coisa é certa, todas as gestoras de activos podem usar a influência para incentivar a gestão das empresas a adoptar comportamentos mais amigos do ambiente.

As gestoras de activos (como fundos de investimento, fundos de pensão e seguradoras) têm vindo a empenhar-se na luta contra as alterações climáticas e em alinhar a actuação das empresas em que detêm participações com os objectivos do Acordo de Paris.

À data de hoje, 236 gestoras de activos, incluindo algumas muitas conhecidas dos investidores Portugueses, são signatárias da iniciativa Net Zero Asset Managers, uma iniciativa que se compromete com a meta de zero emissões de gases com efeito de estufa em todas as empresas sob gestão até (ou antes) de 2050, com o objectivo último de contribuir para evitar que o aquecimento global atinja a marca de 1,5 graus Celsius acima da média pré-industrial (a partir da qual se prevê que os efeitos daquele aquecimento se tornem drásticos).

E este compromisso por parte das gestoras de activos não tem de ser necessariamente encarado numa perspectiva altruísta. Empresas que adoptem práticas mais amigas do ambiente podem, não só, proporcionar aos investidores melhores retornos ajustados aos riscos climáticos, como têm potencial para atrair investidores mais sensíveis a estes problemas.

Dito isto, que medidas podem as gestoras de activos efectivamente tomar para honrar este compromisso e atingir a meta de zero emissões de gases com efeito de estufa em todas as empresas sob gestão até (ou antes) de 2050? Primeiro, podem, naturalmente, desinvestir em empresas pouco amigas do ambiente. Segundo, podem utilizar os direitos de voto que detêm para vetar, nas assembleias de accionistas, estratégias pouco amigas do ambiente. E, por fim, podem usar a influência (que deriva das participações que detêm) para incentivar a gestão das empresas a adoptar comportamentos mais amigos do ambiente.

Naturalmente, alguns destes tipos de medidas não estarão disponíveis para todas as gestoras de activos. Por exemplo, gestoras de índices indexados, que replicam um índice, não podem simplesmente desinvestir numa empresa constituinte do índice. Mas todas as gestoras de activos podem usar a influência para incentivar a gestão das empresas a adoptar comportamentos mais amigos do ambiente.

A questão que se coloca é se será esta influência capaz de ter algum efeito significativo na redução das emissões de gases com efeito de estufa a nível global. Esta é a questão a que os investigadores José Azar, Miguel Duro, Igor Kadach e Gaizka Ormazabal procuram responder num estudo recente, utilizando dados relativos a reuniões das três maiores gestoras de activos (BlackRock, Vanguard e State Street Global Advisors) com os gestores das empresas em que detêm participações.

Em concreto, os autores retiram três importantes conclusões. Primeiro, aquelas gestoras de activos tendem a reunir com os gestores de empresas de grande dimensão (e que, por isso, têm potencial para ter um efeito maior na redução das emissões de gases com efeito de estufa a nível global) e onde detêm uma maior participação (e que, por isso, terão mais capacidade de influenciar). Segundo, quanto maior a probabilidade de aquelas gestoras de activos reunirem com os gestores de uma empresa, menores as emissões de CO2 reportadas pela empresa no ano seguinte à reunião. Por fim, quanto maior a participação daquelas gestoras de activos na empresa, maior aquela redução de emissões de CO2.

Este estudo sugere, assim, que o compromisso das gestoras de activos é mais do que uma manobra de relações públicas e que tem, de facto, contribuído para a redução das emissões de gases com efeito de estufa a nível global.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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