Goldman Sachs prevê arrefecimento da economia global nas próximas décadas

Com os EUA a perderem gás e a Indonésia a deixar para trás o Brasil e a Rússia, as próximas décadas serão de menor crescimento da economia global – num mundo em que os velhos serão cada vez mais numerosos. É o ‘Global Economics Paper’ para 2075.

NEW YORK – APRIL 27: Financial professionals sit in the Goldman Sachs booth on the floor of the New York Stock Exchange watch a television showing market news April 27, 2010 in New York City. U.S. stocks dropped sharply April 27 after Standard & Poor’s downgraded the debt of Greece and Portugal, sending the Dow Jones industrial average down more than 200 points. (Photo by Chris Hondros/Getty Images)

Num quadro de forte incerteza em relação ao comportamento da economia em 2023, a Goldman Sachs traça uma previsão para 2075 em que identifica quatro grandes temas centrais: um crescimento global potencialmente mais lento (em média um pouco abaixo dos 3% ao ano) – alavancado por uma população cujo crescimento deverá atingir os 0% precisamente em 2075; a capacidade de convergência das economias emergentes lideradas pelas potências da Ásia – com a emergência da Indonésia em detrimento do Brasil e da Rússia; o fim de uma década de expansionismo dos Estados Unidos, “que provavelmente não se repetirá”; e menos desigualdade global, mas mais desigualdade local.

Para a Goldman Sachs, “o crescimento global desacelerou de uma média de 3,6% ao ano para 3,2% ao ano anterior à pandemia de Covid, afetando economias desenvolvidas e emergentes. Refletiu uma combinação de crescimento populacional global mais lento e crescimento mais fraco da produtividade”, num quadro de “desaceleração no ritmo da globalização”.

No ‘Global Economics Paper’ com data de 6 de dezembro, a consultora prevê “um crescimento global com uma média de 2,8% entre 2024 e 2029 e em um caminho de declínio gradual a partir daí” – o que ficará a dever-se “à demografia”: “a população global deve atingir o pico de 10 mil milhões de pessoas” numa altura em que projeções anteriores referiam 11 mil milhões”. Nem tudo é mau: “o controlo da população global é uma condição necessária de longo prazo para a sustentabilidade ambiental”. Mas há o reverso da medalha: “este ajustamento a um crescimento populacional mais fraco e ao consequente envelhecimento da população apresenta uma série de desafios económicos (principalmente de aumento dos custos com saúde e as reformas.

E a Goldman deixa um aviso: “o número de países emergentes e em desenvolvimento para os quais o envelhecimento da população representa um sério desafio económico tende a aumentar de forma constante ao longo das próximas décadas”.

 

Convergência

Por outro lado, e ainda segundo a Galdman Sachs, “a convergência das economias emergentes permanece intacta, liderada pelas potências da Ásia” – com o seu “crescimento a continuar a superar o crescimento dos países desenvolvidos. O ritmo dessa convergência desacelerou ligeiramente em relação aos anos 2000, mas é significativamente mais rápido do que nas décadas anteriores”.

A partir de 2011, recorda a consultora, “China, Índia e Indonésia tiveram um desempenho ligeiramente superior às nossas previsões 8de então], enquanto a Rússia, o Brasil e a América Latina ficaram em geral significativamente aquém dessas projeções”. Como consequência, “o PIB global deslocar-se-á ainda mais para a Ásia nos próximos 30 anos. Em 2050, as nossas projeções implicam que as cinco maiores economias do mundo serão a China, os Estados Unidos, Índia, Indonésia e Alemanha (com a Indonésia a substituir o Brasil e a Rússia entre as maiores economias emergentes”. A consultora diz ainda que “Nigéria, Paquistão e Egipto, com as políticas e instituições apropriadas, podem tornar-se algumas das maiores economias do mundo”.

 

O fim do sonho americano?

Com a ‘emergência dos emergentes’, a Goldman Sachs antecipa que os Estados Unidos serão das economias mais afetadas. “Uma década excecional norte-americana dificilmente se repetirá. “O crescimento potencial dos Estados Unidos permanece significativamente menor do que o dos grandes mercados emergentes, incluindo a China e (especialmente) a Índia. Além disso, a excecional cotação do dólar nos últimos anos” não deverá ser mantida, diz a consultora.

Neste quadro, a Goldman Sachs diz que, globalmente, “haverá menos desigualdade, mas mais desigualdade local”. “Vinte anos de desenvolvimento das economias emergentes e de convergência resultou numa distribuição mais igualitária do rendimento global”, que “tem sido um benefício da globalização nos últimos 20-25” – e tenderá a continuar. “No entanto, enquanto a desigualdade de rendimentos entre países caiu, a desigualdade dentro dos países aumentou. E, como os governos são responsáveis, isso tem sido um poderoso handicap ao fim das desigualdades. “Isto apresenta um grande desafio para o processo de globalização”, conclui a Goldman.

A consultora identifica, por outro lado, grandes riscos globais que impactarão em todos os países, sejam emergentes ou desenvolvidos: “protecionismo e mudanças climáticas”. “O futuro é incerto, especialmente a longo prazo. Dos muitos riscos que as nossas projeções identificam, vemos dois como particularmente importante para o crescimento mundial e a convergência de rendimentos”.

Numa altura em que a União Europeia se queixa de os Estados Unidos estarem a proteger a sua indústria automóvel (elétrica), a Goldman Sachs diz que “o primeiro risco é o nacionalismo populista, que leva a um maior protecionismo e a uma reversão da globalização. Nacionalistas populistas ganharam poder em vários países e as interrupções na cadeia de fornecimento durante a pandemia resultaram num maior foco no on-shoring”.

Para já, o sistema global tem aguentado: não houve uma reversão da globalização, mas apenas uma desaceleração. Mas o risco está lá: “o risco de uma reversão é claro. A globalização tem sido uma força poderosa a reduzir a desigualdade entre os países, mas, para garantir que continue a fazê-lo, são precisos maiores esforços”.

Quanto ao risco de catástrofes ambientais, a Goldman Sachs “rejeita a visão de que o crescimento económico e a sustentabilidade ambiental são incompatíveis”. Já se sabia, mas a consultora afirma que “muitos países conseguiram ‘desacoplar’ o crescimento económico da emissões de carbono, pelo que não há razão prática para que isso não seja alcançável para a economia global como um todo”. Há que duvide, principalmente porque, como todos sabem, só os países pobres, muito pobres ou paupérrimos é que não têm emissões maciças de carbono. “Alcançar o crescimento sustentável exige sacrifícios económicos e uma resposta coordenada globalmente e ambos serão politicamente difíceis de alcançar”, diz a Goldman Sachs.

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