Governar para as sondagens

O que realmente importa é ter o povo contente. E recordar que nos “anos da treva” nos “roubaram” quatro preciosos feriados.

Trabalhar para as sondagens é mais ou menos o que se segue.

DN do último sábado. Crónica de Ferreira Fernandes, ocupando toda a contracapa,  intitulada “Passos Coelho andou a dizer coisas”. Conclui com o seguinte: “Passos Coelho fala por falar”. Lá dentro, uma página inteira para uma  secretária de Estado, duas ocupadas com o líder da Juventude Socialista e um editorial essencialmente para dizer que no PSD anda “gente nervosa”. Nesse mesmo fim de semana, bica aberta para os que no PSD andam incomodados com Passos Coelho, um “teimoso” que insiste em anunciar a “catástrofe”. Todos eles, os críticos de Passos, desaparecidos nos “anos da treva” (ou seja, no tempo do “governo de direita”).

Expresso do mesmo fim de semana. Crónica económica de Nicolau Santos sobre pessoas e factos que marcaram 2016. À cabeça, o primeiro-ministro António Costa. Porquê? Porque terá evitado, na opinião do cronista, “várias catástrofes anunciadas” (por Pedro Passos Coelho, presume-se). Na capa, uma fotografia do ministro da Educação com o título “Ministério voltou a ter nos sindicatos um parceiro”. Lá dentro, a pretexto dos “rankings das escolas” mais duas páginas de entrevista com o ministro. Este diz que os bons índices, divulgados recentemente quanto à educação dos nossos jovens, são o resultado de “vários factores que foram desencadeados por vários governos”. Nem uma palavrinha, de elementar justiça, digo eu, para as políticas do seu antecessor, Nuno Crato. Tanto que  reverteu logo as políticas de Crato. Nada de exames, estudo e infelicidade nas escolas. O que se quer é alegria e acabar com as retenções.

Cereja no topo do bolo de aniversário. O Presidente dos “afectos” voltou a dar notas: quinze valores ao País (?)  e  “o Governo está no Bom” .

Entretanto, em apenas um ano de governação socialista e segundo as contas de César das Neves a dívida pública cresceu mais 14.000 milhões de euros. É irrelevante. O que interessa, como a preciosa ajuda dos plumitivos do costume  e das agências de comunicação, são as  “sondagens”. E não fosse a má fama que tais inquéritos começaram a ter, após sucessivos fiascos  e  talvez fosse de lhes dar alguma atenção.

Porque quem decididamente não dorme nessa matéria é o poder socialista. De um lado a má imprensa do líder do PSD – “fala por falar” o homem das catástrofes “que não se confirmam” – por comparação com a “boa imprensa” do Governo. Do outro a sistemática desvalorização da política do anterior executivo, mesmo contra todas as evidências, em troca de soluções “populares”. Só falta mesmo afastar esse desmancha-prazeres chamado Passos Coelho.

Ainda há dias o primeiro-ministro, numa visita não sei onde, mas com jornalistas à volta, disse  que no dia 26 de Dezembro haverá tolerância de ponto, por causa da “deslocação das famílias”. Não se sabe ao certo quantos funcionários públicos e equiparados vão passar o Natal fora da sua área de trabalho ou residência. Desconfio que muito poucos. Mas isso também não interessa. É um pretexto como outro qualquer. O que releva é ter o povo contente. E recordar que nos “anos da treva” nos “roubaram” quatro preciosos feriados.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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