Governar para as manchetes  

Em vez de proclamações açucaradas em louvor da “felicidade” escolar, faria bem melhor a esquerda governativa em desenvolver uma política de equidade do livro escolar, virada para a defesa dos utentes e não para os interesses das editoras. A opinião do gestor Mauro Xavier.


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O primeiro sinal que o novo Governo socialista apoiado pela esquerda radical transmitiu aos portugueses não podia ter sido mais errado: abolir os exames no ensino básico.

É um sinal errado por remar no sentido oposto ao das sociedades mais dinâmicas do mundo contemporâneo, nomeadamente na Europa e na América do Norte. Sociedades que estimulam o mérito, valorizam a concorrência leal e premeiam o esforço.

Portugal, com os socialistas ao leme e a líder do Bloco de Esquerda a funcionar como treinadora de bancada, acaba de receber a pior das mensagens: a do abandono da cultura da exigência. Que só poderá aumentar o fosso que nos separa das nações mais evoluídas em matéria educativa. Nações que fazem da avaliação periódica dos estudantes, através de provas escritas, um marco obrigatório no processo de aprendizagem: França, Inglaterra, Bélgica, Luxemburgo, Suécia, Noruega, Dinamarca, Irlanda e Hungria, entre várias outras. Sem paternalismos bacocos nem preconceitos contra os exames, que são um instrumento indispensável de aferição de conhecimentos.

“Este ano não veremos as crianças de nove anos entrar assustadas para exames que não precisam. Que a escola seja um pouco mais feliz.” Estas declarações de Catarina Martins não poderiam estar mais equivocadas sobre a missão essencial da escola.

A sala de aula deve funcionar como um centro de transmissão de conhecimentos e de formação integral de crianças e jovens: a reivindicação da “felicidade”, confundindo o espaço escolar com as produções Walt Disney, nada tem a ver com este filme.

O facilitismo como linha de conduta na educação talvez sirva os desígnios populistas imediatos deste Governo recém-empossado. Mas terá como vítimas inevitáveis as crianças que hoje frequentam o ensino básico, não só nas etapas posteriores do seu percurso escolar, mas sobretudo quando se confrontarem, no mercado de trabalho globalizado, com jovens que cumpriram a aprendizagem em sociedades bem mais exigentes.

Em vez de proclamações açucaradas em louvor da “felicidade” escolar, faria bem melhor a esquerda governativa em desenvolver uma política de equidade do livro escolar, virada para a defesa dos utentes e não para os interesses das editoras. Uma política que estipulasse um período de cinco anos para a manutenção em vigor dos manuais, estimulando o mercado em segunda mão, e reduzindo as margens de lucro no setor, à semelhança do que o Executivo anterior fez com as farmácias.

Claro que isto suscita títulos menos sonantes nos jornais do que os anátemas demagógicos lançados contra os exames. Mas faria toda a diferença entre governar para a próxima geração ou para as manchetes da manhã seguinte.

Mauro Xavier,
Gestor

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