“Grave atentado à liberdade de imprensa”. Comissão da Carteira de Jornalistas exige explicações ao ministro do Ambiente

Duarte Cordeiro apenas quis responder às perguntas dos ‘media partners’ de um evento, rejeitando responder aos restantes meios, segundo a CCPJ que pediu mais explicações ao ministério do Ambiente. A tutela diz que ministro apenas queria “prestar declarações” sobre o tema do evento.

Cristina Bernardo

A Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas (CCPJ) exige explicações da parte do ministro do Ambiente e Ação Climática por ter-se recusado a responder a perguntas dos jornalistas presentes durante uma conferência na semana passada.

Duarte Cordeiro apenas quis responder às declarações dos parceiros mediáticos do evento, a Portugal Mobi Summit, organizada pelo grupo Global Media.

Em comunicado, o plenário da CCPJ explica que recebeu “relatos de jornalistas” que acompanharam a Portugal Mobi Summit “queixando-se de que, ao abordarem o Ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro, este terá respondido que só prestaria declarações aos ‘media partners’ do evento”.

“A confirmarem-se as queixas e também as notícias, entretanto veiculadas por alguns órgãos de informação, dando conta do ocorrido, este caso configura um grave atentado à liberdade de imprensa e ao dever de equidade dos responsáveis governamentais para com todos órgãos de informação jornalísticos”, destaca o plenário da CCPJ.

A CCPJ diz ainda que “vai procurar apurar junto do Ministro do Ambiente e dos parceiros mediáticos do evento Portugal Mobi Summit, as condições negociadas que estão na base deste inédito “exclusivo” jornalístico anunciado por um membro do Governo”.

Sobre este incidente, a “Agência Lusa” escreveu a 28 de setembro: “Abordado hoje pelos jornalistas à margem do Mobi Summit, em Cascais, distrito de Lisboa, o ministro do Ambiente, Duarte Cordeiro, disse que apenas fazia declarações aos ‘media partners’ do evento”.

Contactado pelo Jornal Económico, o ministério do Ambiente reagiu: “No final do evento o ministro foi solicitado para gravar uma mensagem sobre o evento em que tinha participado. Nesse momento foi abordado pela comunicação social presente no local para prestar declarações sobre vários assuntos. Foi transmitido que o ministro não desejava prestar declarações além do tema do evento. Na véspera, ao fim do dia, o ministro prestara declarações em Manteigas e entendeu que não tinha, naquele momento, nada a acrescentar face ao que já fora transmitido”, segundo fonte oficial da tutela de Duarte Cordeiro.

Recorde-se que um dos temas do dia de 28 de setembro foi a história do “Público” que revelou nessa manhã que “Espanha decide travar a transferência de água do rio Douro para Portugal”, um tema sob a tutela de Duarte Cordeiro. A peça da “Lusa” a dar conta da recusa do ministro a falar foi publicada às 12h34. O ministério do Ambiente só divulgaria um comunicado pelas 16h30 desse dia, quatro horas depois da presença do ministro na cimeira.

A 5.ª edição do Portugal Mobi Summit teve lugar a 2 de outubro em Carcavelos.

A CCPJ destaca que a parceria mediática de evento público ou privado é uma “atividade que não implica qualquer desrespeito pelo jornalismo e pelo trabalho dos jornalistas, nem lhe pode pôr quaisquer limites”.

O plenário da CCPJ destaca que a “colaboração denominada “parceria mediática” é, normalmente, assumida pelo órgão jornalístico como vantajosa porque consegue acesso a conteúdos exclusivos e privilégios no acesso às fontes. Importa, no entanto, referir que o “exclusivo” conseguido por esta parceria mediática só é compatível com o Estatuto do Jornalista se não implicar, para os jornalistas destacados para fazer a cobertura do evento, quaisquer condicionamentos ao direito de independência editorial e também limitações à liberdade de informar para os outros órgãos de informação.

“Se a condição de “parceiro mediático” ou “media partner” implicar negociação entre as partes de forma a que o exclusivo seja conseguido em troca de contrapartidas financeiras, isso significa que estamos perante um conteúdo patrocinado que não deve ser feito e assinado por jornalistas”, conclui a CCPJ.

  • Notícia atualizada às 16h33 com a reação do ministério do Ambiente
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