Greta no País das Ilusões

Os portugueses têm o dever de exigir mais aos seus responsáveis políticos e não se podem deixar levar pelo “ambiente-espectáculo” das declarações vãs ou pouco fundamentadas.

A recente passagem, por Lisboa, da jovem activista sueca Greta Thunberg, alertando para os perigos e riscos inerentes às alterações climáticas, merece uma reflexão face ao tema per se, mas também pelas declarações de vários responsáveis políticos.

Infelizmente, esta temática tem sido praticamente esquecida pelos cidadãos que, por desconhecimento ou inércia, são pouco exigentes nesta matéria. O tema vai ter uma importância crescente e central nas nossas vidas. Possivelmente, teremos que esperar que os portugueses sintam efectivamente, no seu orçamento pessoal ou através dos impostos, o impacto económico das medidas de mitigação, para se começarem a preocupar, como já acontece em alguns países.

Durante a visita da jovem activista, fica a sensação que a preocupação dos responsáveis políticos teve a exacta duração dos takes televisivos, e que assim que as câmaras foram desligadas, a preocupação desvaneceu, se é que algum dia verdadeiramente existiu.

Penso que não chega alertar para as alterações climáticas, mas, na verdade, nada mais se pode exigir a uma adolescente. Prefiro vozes mais experientes, cientificamente respeitadas como a da Profª. Katharine Hayhoe, da Texas Tech University, que junta o prestígio académico e influência política, advogando uma “esperança racional” contrária ao alarmismo.

O ministro do Ambiente e da Transição Energética podia ter aproveitado, na sua breve intervenção televisiva, para prometer que todos os edifícios públicos, particularmente escolas e hospitais, ficariam a coberto dum plano nacional para remoção do amianto, para anunciar um maior investimento na rede ferroviária ou um pacote de acções para mitigação dos efeitos das alterações climáticas.

Infelizmente, não é essa a nossa realidade. O amianto continua presente em muitos edifícios, o investimento em ferrovia tem sido negligenciado e hoje a extensão da rede ferroviária explorada (2.546 km) é inferior, em cerca de mil quilómetros, à de há cinquenta anos (3.592 km). O transporte ferroviário podia dar um excelente contributo à redução de emissões de gases poluentes e ser uma alternativa ao transporte pesado de mercadorias. Em 2009, foi desmantelada uma linha ferroviária (ramal da Lousã-Coimbra) e passados dez anos nada existe. Nem linha, nem material circulante, nem electrificação. Agora, fala-se na electrificação da Linha do Oeste. Fica a preocupação.

Pelo mundo fora, são inúmeras as situações visíveis e mensuráveis de adaptação às alterações climáticas. Nos Estados Unidos, em Miami, há planos para instalar bombas para retirar água de zonas urbanas, em caso de inundação e, em simultâneo, reconstruir os passeios públicos a uma cota superior.

Em Itália, existe um ambicioso projecto em Veneza (MOSE) para proteger a laguna das inundações que, devido a alguns episódios de corrupção, está atrasado. O impacto económico das cheias é estimado em muitos milhões de euros. Já o valor da destruição de património mundial, classificado pela UNESCO, e de obras de arte, esse, é inestimável. Os holandeses foram protegendo o seu país, cujas condições naturais são propícias a inundações costeiras, dado que uma parte significativa do mesmo se situa a uma cota inferior à do nível médio da água do mar, construindo um complexo sistemas de comportas.

Em Portugal não há falta de peritos na matéria, pelo contrário. Há é falta de atenção, do poder político, aos seus avisos. Em suma, os portugueses têm o dever de exigir mais aos seus responsáveis políticos e de estarem mais atentos e não se podem deixar levar pelo “ambiente-espectáculo” das declarações vãs ou pouco fundamentadas. Até porque a ausência de crítica é um convite à prossecução da inércia nesta matéria.

Um dos problemas do Ambiente é que, no horizonte da decisão política, os resultados do investimento em protecção ambiental ou adaptação às alterações climáticas não são visíveis. Só eleitores mais críticos e exigentes poderão ultrapassar a ditadura do binómio “imediatamente visível/votos” com que, infelizmente, o cidadão é governado.

Apesar de haver várias questões negativas em aberto, tais como quem financia as viagens da jovem activista e de algum aproveitamento político, tenho simpatia pela adolescente, dado ter trazido, para o palco principal da agenda mediática, as alterações climáticas. Estou-lhe grato. Mas ainda mais grato lhe estou por ter colocado uma certa hipocrisia ambiental, do governo e de algumas forças partidárias, a descoberto, prolixas em declarações e parcas em acções.

Espera-se que, da passagem da jovem Greta por Portugal, fique mais do que uma mera ilusão de preocupação futura ou valorização da questão das alterações climáticas, por parte dos responsáveis políticos. Afinal, após o alerta de Greta, o que vai mudar? Ficamos só pelas palavras? Acredito nas boas intenções de Greta, que com a sua consciência e activismo ambiental, realmente quisesse apontar para o zénite, mas o poder político teima em olhar para o nadir. Infelizmente.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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