“Grupo Pestana vai ter o melhor ano de sempre”

O CEO do líder hoteleiro nacional revela que o grupo vai fechar 2016 com uma faturação de 400 milhões e um EBITDA de 100 milhões de euros.

A um mês do final do ano, já me pode dar um balanço da atividade do Grupo Pestana em 2016?
O ano de 2016 vai ser um ano muitíssimo bom, vai ser o melhor ano de sempre, ultrapassando os anos bons que registámos em 2007 e em 2008. E é um crescimento saudável, porque alia a quantidade à qualidade. O ano de 2015 já tinha sido muito bom, pela qualidade e pela quantidade, também com aumento das taxas de ocupação. Em 2016, conseguimos fazer um crescimento mais pela qualidade. Sendo a hotelaria uma atividade que depende muito de custos fixos, se se conseguir fazer essa subida das taxas de ocupação muito pelo aumento do fator preço, consegue-se uma subida de sólida de rentabilidade.

Mas como se vai refletir esse crescimento nos resultados do grupo?
O volume de negócios do Grupo Pestana deverá rondar este ano os 400 milhões de euros. Quanto a EBITDA, contamos atingir os 100 milhões de euros. Em termos globais, a indústria de turismo está a crescer cerca de 15% este ano. O Grupo Pestana está um pouco acima disso. Temos unidades novas e os dados não são ‘like-to-like’, há unidades que abriram em meados e finais de 2015. Em relação a essas unidades, já tivemos um ano muito bom com a Pousada de Lisboa ou com o Pestana Vintage da Ribeira, no Porto, em que duplicámos a capacidade, de 51 para 104 quartos, e também no Alvor South Beach. Mas, sublinho, o nosso crescimento em 2016 foi conseguido mais pelo preço do que pela taxa de ocupação.

Porque é que destaca tanto isso?
Os destinos portugueses, seja de lazer, Algarve ou Madeira, ou seja cidades, como Lisboa e Porto, têm sempre um ‘gap’ de preço em relação a destinos próximos, como é o caso do Sul de Espanha em relação ao Algarve, das Canárias em relação à Madeira ou de Madrid e Barcelona em relação a Lisboa e ao Porto. É positivo para a imagem global que os destinos portugueses estejam em alta. Mas também passámos a gerir melhor o inventário.

Como assim?
A prática da indústria é vender os quartos ‘standard’, mantê-los abertos e fazer ‘upgrades’. Nós adoptámos por uma tendência de ‘complexing’, em que enchemos primeiro o hotel, e depois, em ‘overflow’, fazemos uma gestão melhor do inventário. Assim, o Grupo Pestana consegue vender quartos mais valiosos ao seu real valor e este ano tivemos um aumento médio do preço dos quartos, recorrendo a sistemas que ajudam a gerir este inventário, a fazer a gestão dos canais de distribuição, sejam tradicionais ou ‘online’. Recorremos a sistemas de ‘revenue management’ que nos dão a perceção, a todo o momento, do ritmo da chegada e o histórico e, assim, podemos fechar as reservas das unidades que já estão esgotadas.

E quais as perspetivas para 2017?
As nossas expetativas são claramente positivas para o próximo ano. Nos canais tradicionais, existe uma procura muito grande para tentar assegurar camas para o Algarve no próximo Verão. Notamos que não há uma preocupação tão grande com o preço e isso é positivo. Por isso, vai haver uma procura muito grande para o Algarve no Verão próximo.

Como analisa o recente crescimento do turismo em Portugal?
O mercado de lazer e de férias é uma parte significativa do mercado, que tem vindo a crescer, o que é um sinal da crescente procura por este lado do Mediterrâneo, por Portugal, em detrimento dos países árabes. Portugal vai continuar em alta neste segmento. Claro que esta fatia do mercado que dá relevância ao fator segurança gera uma procura muito volátil, porque basta um acontecimento qualquer ou a mudança de perceção para tudo se alterar de forma radical. Basta ver o que aconteceu nos últimos meses na Turquia, que estava a captar o turismo de outros mercados da bacia Sul do Mediterrâneo e com as notícias do golpe de Estado e com os vários atentados caiu a pique.

Nos mercados em que o grupo Pestana está presente em Portugal onde se tem sentido mais essa subida da procura?
A Madeira está a ter o mesmo comportamento, mas o Algarve é o destino mais forte, mais variado. Para quem quer montar operações de envergadura, o Algarve tem mais escala. O Algarve está a ser procurado principalmente pelos mercados inglês, alemão e francês, agora não só para férias, mas também como destino de cidade, de ‘city break’. Por isso, o Algarve até está a subir mais em valor do que em volume.

E nos outros dois mercados em Portugal, Lisboa e Porto, como está a evoluir a atividade?
Em Lisboa e no Porto, o mercado norte-americano está a tornar-se cada vez mais interessante, procurado por um público mais cultural. É um mercado que começou a crescer há seis ou sete anos, inicialmente fomentado por uma classe média baixa, tipo excursionista, que era cliente do segmento ‘low cost’ da hotelaria. Mas hoje vêm todos os segmentos do mercado norte-americano.

Como caracteriza neste momento a indústria hoteleira nacional?
Num mercado onde o ‘player’ que é líder, o Pestana Hotel Group, tem cerca de 5% de quota de mercado e o segundo ‘player’ [Grupo Vila Galé] tem cerca de metade da quota do líder, fica bem patente a fragmentação excessiva. Com esta falta de escala, mesmo dos ‘players’ de referência, não são possíveis as sinergias e ganhos de eficiência que a escalabilidade permite, em especial na diluição dos custos fixos instalados, num setor (o turismo) de elevados custos fixos.

O Grupo Pestana continua empenhado em fazer parte ativa nessa concentração da indústria?
O Grupo Pestana tem tido desde há muito tempo um papel muito ativo, dentro e fora de Portugal, na sua expansão de forma a ganhar a escala que necessita. Esta questão tornou-se ainda mais importante com as alterações dos modelos de negócio em turismo, provocadas pela economia digital, que obrigam a investimentos significativos em tecnologia e na constituição de equipas com competências novas para o setor e que têm custos elevados. Estes investimentos são fundamentais para manter a competitividade, mas necessitam de massa crítica – que se ganha com o aumento do poder de escala – para poderem ser rentabilizados.

Quais as novas unidades hoteleiras e mercados previstos pelo grupo para os próximos anos?
Temos diversas frentes internacionais, cujas aberturas deverão ocorrer em 2018. Firme e fixo, não existe mais nada em termos de novos projetos de unidades hoteleiras. Continuamos à procura de projetos. É preciso notar que a indústria hoteleira esteve em baixo durante vários anos. É nessa altura que se conseguem fazer os melhores negócios. O Pestana tem conseguido não embandeirar em arco. Tem métricas, como o custo por quarto, e funciona dentro de parâmetros razoáveis. Quando não os consegue atingir, não avança. Em Espanha, analisámos mais de 100 projetos antes de entrarmos.

Em Portugal, quais as perspetivas de construir ou adquirir novas unidades hoteleiras?
Não está prevista nenhuma inauguração de hotéis para 2017. Pode haver algum que surja. Há hipóteses de unidades hoteleiras cujas negociações estão paradas, algumas delas até em parceria com algumas instituições. Mas não quero avançar mais sobre isso.

Com o crescimento generalizado do turismo em Portugal, existe hipótese de investir fora de Lisboa, Porto, Madeira e Algarve nos próximos anos?
Em termos de geografias, onde temos grandes vantagens competitivas é nos destinos em que já estamos, onde conhecemos bem o mercado, os canais de comercialização, as equipas de ‘front-office’ e de ‘back-office’ e os sistemas de reservas. E isso também torna mais fácil abrir novas unidades nesses destinos, porque chegamos lá, ligamos as fichas, temos de ter pessoal, utilizamos o ‘back-office’ que já está na zona. A nossa dispersão no mercado nacional tem sido feita através da rede das Pousadas de Portugal. Se houver algum projeto, analisá-lo-emos, mas não nos estamos a ver lançar uma rede nacional de hotelaria em cidades nacionais, como a Ibis, por exemplo.

O Grupo Pestana está interessado na concessão a privados dos monumentos nacionais?
O Grupo Pestana analisa sempre com profundo rigor os projetos disponíveis nos mercados onde já atua ou em mercados potencialmente interessantes. E se forem projetos com potencial de criarem valor com níveis de sustentabilidade, sejam ou não monumentos nacionais, manifestaremos o nosso interesse. Ser monumento nacional não é condição suficiente para garantir o sucesso de um projeto hoteleiro. Estamos, assim, atentos, mas, em concreto, nos processos já iniciados não participámos, por enquanto, em nenhum.

Líder nacional com 12 mil quartos em 2018

Quais são as novas aberturas de hotéis previstas para 2017?
Não está prevista nenhuma abertura para 2017. Temos um projeto de um hotel em Marraquexe, cujo investimento é assegurado pela Caisse Générale des Depôts, a Segurança Social de Marrocos, para transformar o antigo Club Méd na praça El Fna, na zona da medina. O Grupo Pestana irá pagar uma renda fixa, fazemos o projeto de adaptação e remodelação e iremos assegurar a gestão. As obras deverão demorar entre 10 e 12 meses, com um investimento calculado entre 8,5 e 9 milhões de euros. Mas está do lado marroquino fazer as obras. Se tudo correr bem, talvez ainda se possa abrir esta unidade em 2017.

Então, quais são os planos de aberturas para 2018?
O Grupo Pestana tem três frentes internacionais em curso. A obra do novo hotel em Amesterdão já começou há cerca de sete ou oito meses. Esta unidade, com cerca de 200 quartos, deverá ser inaugurada no princípio de 2018. É um edifício histórico, que estava devoluto, à beira dos canais. Amesterdão é uma das cidades europeias que tem mais hotelaria, mas em que, curiosamente, a percentagem de cinco estrelas em relação ao total do número de camas disponíveis é muito pequena. Penso que vai ser uma boa aposta.

Quais são as outras frentes?
Outra frente é em Madrid. Uma das unidades em construção neste momento localiza-se na emblemática Plaza Mayor, designado ‘Carniceria’ por em tempos ter sido utilizado como um matadouro. Tratou-se de um concurso com diversos concorrentes espanhóis de peso e tratando-se de um monumento histórico de Espanha, a vitória conseguida pelo nosso grupo só demonstra a força do Pestana. Trata-se de um futuro ‘hotel boutique’, um pouco como a Pousada de Lisboa. Foi-nos atribuída pelo Ayuntamiento [Câmara] de Madrid uma concessão de 90 anos. Estivemos a negociar o projeto durante vários meses como Ayuntamiento, o qual também já foi aprovado. Estamos agora a começar a construção, que deverá demorar entre 14 e 18 meses. Talvez esteja pronto em 2018.

Qual é o investimento nestas unidades?
Quer no hotel de Amesterdão, quer na ‘Carnicería’, o investimento é de cerca de 45 milhões de euros.

Qual é a outra unidade?
Outro contrato assinado em Madrid pelo grupo faz parte da parceria Pestana CR7. Localiza-se na Gran Vía, onde um edifício será desocupado em dezembro. A partir daí, podemos avançar com o projeto, que inclui dois edifícios, um dos quais já está desocupado. A abertura também está prevista para 2018. O investimento deverá ser pouco mais de 10 milhões de euros, 50% assumidos por cada uma das partes da parceria.

E qual é a terceira frente?
É em Nova Iorque, onde garantimos o direito de utilização do terreno (‘lease’) onde se localizada um edifício que foi demolido. Localiza-se em Manhattan, na 39th West. A nossa previsão é começar a construção nos próximos dias, pelo que a sua inauguração também deverá ocorrer em 2018. Este será o quarto hotel a fazer parte da parceria Pestana CR7.

Qual o investimento previsto nesta unidade?
Esta unidade representa um investimento de 35 milhões de dólares [cerca de 33 milhões de euros]. Tamos também, em Newark [estado de New Jersey], um projeto com um empresário luso-americano, líder do Grupo Seabra. Trata-se de um complexo que terá uma área comercial, uma área residencial e o hotel será gerido por nós. Não é um investimento significativo nosso. Vamos ter uma pequena participação acionista na equipa que for fazer a gestão desta unidade, além de assegurarmos a respectiva gestão. Não lhe sei dizer o valor de investimento do Grupo Seabra neste projeto.

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