Guerra cultural e liberalismo económico marcaram o Brasil em 2019

Nas ruas do centro de São Paulo, a maior cidade do Brasil, muitos fazem críticas e elogios ao primeiro ano da gestão Bolsonaro, um reflexo da polarização do discurso político no país.

O primeiro ano do Governo liderado pelo Presidente Jair Bolsonaro foi marcado por uma guerra cultural concretizada na tentativa de imposição do conservadorismo nos costumes e do liberalismo económico, uma estratégia que dividiu ainda mais o país.

Depois do longo processo de destituição da última Presidente eleita, Dilma Rousseff, retirada do cargo em agosto de 2016, de escândalos de corrupção envolvendo políticos, empresários e funcionários públicos e de uma eleição em 2018 marcada pela ascensão da extrema-direita representada por Bolsonaro, a pacificação esperada não ocorreu.

Desde que tomou posse, a 01 de janeiro de 2019, Bolsonaro marcou a opinião pública com declarações polémicas. Nas ruas do centro de São Paulo, a maior cidade do Brasil, muitos fazem críticas e elogios ao primeiro ano da gestão Bolsonaro, um reflexo da polarização do discurso político no país.

Para Eleusa Santana Alvarenga, reformada de 78 anos, o Brasil teve em 2019 um Governo mais ou menos.

“Foi um governo mais ou menos. Não sou a favor de muita coisa que o Bolsonaro fala, mas também não poderia ficar o Governo que estava. O Bolsonaro falou muitas coisas que não são próprias de um Presidente”, declarou.

O vendedor Welington Sousa Cardoso, de 21 anos, também considerou que o governante teve uma atuação de “regular para ruim”, lembrando a aprovação de mudanças no sistema de pensões como um facto negativo e a libertação de recursos de um fundo administrado pelo Governo para trabalhadores como algo positivo.

“Esperava um posicionamento melhor dele, mais coerência. Ele [Bolsonaro] não tem conhecimento para governar (..) Espero que em 2020 as coisas melhorem. Não votei nele, mas quero que as coisas melhorem”, afirmou.

Já Cícero Firmino Barbosa, de 72 anos, dono de uma banca de jornal, considerou que o ano foi ótimo porque a economia está reagindo.

“Votei no Bolsonaro. Ele cumpriu minhas expectativas, mas, claro, não em tudo. Pelo Bolsonaro as coisas estariam melhor, mas como tem muita gente contra ele acho que as coisas ainda vão melhorar, vejo que o Governo está criando muitos empregos”, declarou.

Samuel Pessoa, professor de economia, considera que, do ponto de vista económico, o Brasil ainda sofre com medidas erradas tomadas durante os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), mas elogiou os projetos liberais do Governo e disse que já há sinais de retoma na economia.

O investigador do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) também explicou que a falta de articulação política do Governo junto do Congresso prejudicou o desempenho, mas não foi a causa central da quebra da expectativa de um crescimento de pelo menos 2% em 2019, que foi revista para 1,1%.

“Este ano era para a economia crescer mais. Ela não cresceu porque tivemos dois choques muito importantes: a crise na Argentina que teve impacto na indústria e tirou meio ponto percentual no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro; teve outro choque importante que foi a queda da barragem em Brumadinho, que impactou a indústria mineradora”, avaliou Pessoa.

Com alguns sucessos, como a aprovação das mudanças no sistema de pagamento de pensões por reforma, a articulação política foi marcada pela falta de uma base de apoio sólida e a demissão de vários ministros ou altos funcionários por causa de diferenças ideológicas.

Bolsonaro criou atritos e deixou o Partido Social Liberal (PSL) que o elegeu Presidente, e avançou para uma nova sigla conservadora chamada Aliança pelo Brasil, ainda não formalizada junto a Justiça Eleitoral.

Polémicas e ofensas foram usadas por Bolsonaro quando suspeitas de corrupção atingiram seu filho mais velho, Flávio Bolsonaro, alvo de investigação sobre desvio de dinheiro publico e branqueamento de capitais que alegadamente terá cometido quando era deputado estadual no Rio de Janeiro.

O chefe de Estado chegou a dizer que um jornalista tinha uma “cara terrível de homossexual” quando foi questionado junto à sua residência oficial, em Brasília, sobre valores que o Ministério Público suspeita que Flávio Bolsonaro e um ex-assessor, Fabrício Queiroz, terão desviado.

Houve no país o retorno de uma oposição mais atuante depois da libertação do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, que saiu da prisão em meados de novembro e iniciou uma série de críticas ao Governo.

O Presidente brasileiro também intensificou sua cruzada contra os ‘medias’, chegando ao ponto de tentar impedir que o jornal de maior circulação no país, a Folha de S.Paulo, participasse de uma licitação pública.

Atacando permanentemente o que classifica de “marxismo cultural”, Bolsonaro foi acusado de censura por seus detratores, em particular por se ter oposto aos subsídios às produções com temas Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgénero (LGBT).

O chefe de Estado defendeu publicamente a criação de um filtro para projetos de incentivo cultural, citando a área do cinema, quando defendeu em julho que o poder publico apoie apenas projetos adequados aos valores conservadores.

“Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine [A Agência Nacional do Cinema]. Privatizaremos ou extinguiremos. Não pode é dinheiro público ser usado para filme pornográfico”, declarou o Presidente brasileiro em julho.

O próprio Ministério da Cultura foi extinto logo no primeiro decreto do Governo em janeiro, depois de passar alguns meses como uma secretaria subordinada ao ministério da Cidadania, tendo sido transferida para a pasta do Turismo.

No campo dos costumes, correntes mais radicais tiveram destaque, impulsionadas pelas igrejas neopentecostais e pelo ideólogo da família Bolsonaro, um autoproclamado filósofo chamado Olavo de Carvalho, que regularmente animaram as redes sociais.

No plano ambiental, o país viveu uma crise diplomática com reflexos internacionais criada a partir da oposição e discussões públicas travadas entre Bolsonaro e líderes de países como a França e a Alemanha, quando os incêndios florestais na Amazónia brasileira despertaram atenção do mundo.

O chefe de Estado declarou que às críticas que sua política ambiental eram um ataque à soberania do Brasil, rejeitando qualquer interferência estrangeira nesse campo.

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