Guiné-Bissau volta às urnas para tentar “clarificar”o regime

Dois antigos primeiros-ministros lutam para chegar à presidência neste domingo, com visões opostas sobre como gerir um país fragmentado.

Dado o inusitado timing da segunda volta das eleições presidenciais – marcadas para 29 de dezembro – os dois candidatos conjugaram os votos de Natal e Ano Novo com mensagens de campanha.

Por coincidência, ambas foram emitidas no mesmo dia (24) e a partir da mesma cidade – Gabu, no leste da Guiné-Bissau, a 190 quilómetros da capital. Os candidatos, que discordam sobre quase tudo, falaram sobre os temas que têm afligido o país nos últimos anos e a nova realidade que prometem aos guineenses.

Domingos Simões Pereira, candidato e líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e que obteve 40,13% dos votos na primeira volta, falou sobre divisões, conflitos e crises, desejando que sejam superadas por paz, fraternidade, soberania e a construção de uma nova Guiné-Bissau.

O seu adversário, Umaro Sissoco Embaló (27,65% na primeira volta), apoiado pelo Movimento para a Alternância Democrática (Madem-G15), discursou sobre mentiras e ambições escondidas, que quer substituir com a “força da verdade”. Salientou ainda a “força da coligação”, criada pelo apoio de vários candidatos que não passaram da primeira volta de 24 de novembro, incluindo o presidente-cessante José Mário Vaz.

Segundo Ismael Sadilú Sanha, analista político e doutorando em Políticas Públicas no ISCTE, disse que à semelhança das anteriores, a campanha está a correr normalmente, sem incidentes maiores. “Aliás, a Guiné-Bissau tem tradição de transparência e civismo no processo eleitoral, mesmo quando politicamente as relações entre os partidos são tensas”, referiu Sanha ao África Capital.

A ausência de incidentes não mascara, portanto, a tensão. O sociólogo e investigador Miguel de Barros explicou que a campanha eleitoral para a segunda volta “decorreu num ambiente de forte polarização política e assente sobretudo nas questões baseadas nas clivagens identitárias, particularmente nos aspetos étnico-religioso”, num contexto de “fraqueza de propostas consentâneas com o papel constitucional do Presidente da República”.

“Clarificação do regime”

Ismael Sadilú Sanha sublinhou que essa tendência não é nova. “O que se tem verificado eleições após eleições, e tende acentuar-se cada vez mais, é o apelo ao voto solidário étnico, e estas eleições não são exceção”.

“Tanto de um lado como do outro, apesar de um dos candidatos [Simões Pereira] ter exultado raras vezes a sua pertença regional e tribal para pedir voto solidário étnico, devido à extrema pobreza em que se encontra a população das zonas rurais e remotas, sem praticamente disporem de infraestruturas básicas, as pessoas tem dificuldade de fazer um escrutínio rigoroso e coerente aos candidatos, para aferir quem está melhor posicionado para defender o interesse nacional”, afirma Ismael Sadilú Sanha. “Vota-se no candidato que tem distribuído benesses”, reforça.

Miguel de Barros frisou que o aspecto da mobilização financeira foi algo bastante notável na campanha. “Estamos perante as eleições mais sofisticadas em termos de meios técnicos, logísticos e operacionais da história das eleições na Guiné-Bissau, mas também na disputa pela visibilidade e marketing político dos candidatos”.

De acordo com o sociólogo, este esforço acrescido advém do facto de estar em jogo “a clarificação do regime e duas visões de gestão do estado baseada em formas de regime político diferentes”.

Miguel de Barros referiu que Domingos Simões Pereira, que foi demitido por José Mário Vaz em 2015, “defende o semi-presidencialismo e a estabilização governativa através da manutenção do executivo liderado pelo PAIGC”.

Adiantou que, do outro lado, Umaro Sissoco Embaló “defende o presidencialismo, chamando a si o papel de ministro dos Negócios Estrangeiros e o questionar da maioria parlamentar do PAIGC, bem como a base político-judicial que nomeou o atual executivo”.

“Para além da clarificação do regime, está em causa a definição de uma nova base de confiança e o consenso que se pode alcançar em torno dela, para a estabilização do país, a promoção da recuperação económica e a geração de um quadro político favorável para mobilização internacional para financiamento do desenvolvimento do país e a sua consequente normalização das instituições”, frisou o sociólogo.

Pico da fragmentação social
Ismael Sadilú Sanha salientou ao Jornal Económico que o que está em causa é a unidade nacional, pois as sucessivas crises políticas atingiram agora o pico em termos de fragmentação e crispação social.

“Ambos os candidatos terão dificuldades a esse nível”, antevê. “Resta saber se Domingos Simões Pereira vai conseguir gerir a crispação e fragmentação, mantendo a favor do PAIGC os deputados dissidentes do APU, para que o PAIGC consiga de facto terminar a legislatura”.

Em relação a Umaro Sissoko Embaló, que foi primeiro-ministro de novembro de 2016 a janeiro de 2018, o analista político diz estar “muito cético que, em caso de ser eleito, se o país não vai retornar ao ponto da crise”.

“Certamente que vai tentar impedir o PAIGC de mandar e se o atual status quo se mantiver, não vai conseguir dar poder à oposição para honrar os compromissos assumidos”.

“Ambos os candidatos só com grande esforço estarão em condições de juntar os maiores partidos a volta de uma mesa para poderem dialogar e encontrar consensos para a reforma do sistema políticos, económico e social”, conclui Ismael Sadilú Sanha.

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