Há um Rio que não vai parar

Bem pode Passos Coelho dizer que vai continuar a ser líder do PSD, mas os dias passam e o rio pode mesmo transbordar

O nome de Rui Rio é insistentemente apontado para a liderança do PSD. Nada de novo, portanto. Ainda antes de surgir Pedro Passos Coelho, já Rui Rio, então presidente da Câmara do Porto, era tido como o “salvador” do PSD. Foi na altura da liderança de Luís Filipe Menezes – sim, há quem pareça ter-se esquecido que o antigo presidente da Câmara de Gaia sucedeu a Luís Marques Mendes e antecedeu Manuela Ferreira Leite. Mas, Rio nunca chegou a cruzar o Douro e mudar-se para uma casa com vista para o Tejo.

Não se pode dizer que tenha sido por falta de oportunidade. Contudo, a sua imagem de marca é a de uma pessoa que respeita compromissos e Rio escolheu honrar o lugar na Câmara do Porto em vez de ficar conhecido como alguém que abandona cargos a meio do mandato.

O seu antecessor socialista na autarquia da Invicta, Fernando Gomes, é que um dia deixou o Porto para ocupar o cargo de ministro da Administração Interna de Guterres. Deu-se mal. O mandato foi polémico e Gomes acabou por ser bastante atacada pelos seus próprios pares socialistas. Tentou depois recuperar o Norte, mas perdeu precisamente contra Rio que, então com Paulo Morais como número dois, contribuiu para a hecatombe do PS nas eleições autárquicas de 2001 e levou à demissão de Guterres. Rui Rio é um homem do Norte, do Porto, como Sá Carneiro, mas Pinto da Costa não gosta dele. Isso até pode fazer dele uma pessoa séria. E acredito que é alguém que deve ser tomado a sério. Diz-se que equilibrou as contas no Porto, foi implacável com a Comunicação Social local e deixou obra feita.

Na minha opinião, apenas sei que o Porto, a minha cidade natal, se era tida como uma cidade cinzenta, ficou ainda mais cinzenta com a destruição dos jardins da Avenida dos Aliados. E não me venham com tretas: aquilo é mesmo feio quando comparado com o que havia. Rui Rio chegou depois a ser considerado como provável candidato a Presidente da República, mas acabou ultrapassado por Marcelo Rebelo de Sousa. Agora, como dizia um velho hino do PSD, há um rio que não vai parar.

Bem pode Passos Coelho dizer que vai continuar a ser líder do PSD, mas os dias passam e o rio pode mesmo transbordar. O caso Banif é um exemplo de má gestão PSD, a Tecnoforma ainda não morreu. Não se esqueça ainda o facto do actual primeiro-ministro ter dito há pouco mais de um ano, quando era candidato a secretário-geral do PS, que o seu adversário não era Passos Coelho, mas sim Rui Rio. António Costa sabia que o PSD iria ter de encontrar um novo líder quando ele chegasse a primeiro-ministro. Passos Coelho pode ter sido o mais votado a 4 de outubro, pode liderar o partido com o maior número de deputados, mas perdeu tudo. Perdeu a maioria absoluta, perdeu a cadeira de S. Bento e perdeu poder. Se quiser continuar a fazer-se de vítima, isso não vai pegar. É a hora de pagar! E há um rio que não vai parar…
Frederico Duarte Carvalho
Jornalista e escritor

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