Hélder Rosalino diz que banca “terá que evoluir rapidamente para a massificação dos pagamentos imediatos”

O administrador do Banco de Portugal, no encerramento da Conferência “Money Conference”, salienta a importância da Diretiva dos Serviços de Pagamentos (PSD2), e diz que os impactos associados à sua entrada em vigor, no próximo ano, “são bastante disruptivos para a prestação de serviços de pagamento a nível europeu”.

O administrador do Banco de Portugal Hélder Rosalino disse hoje no encerramento da Conferência “Money Conference”, que “os benefícios da transformação digital e da inovação para os cidadãos só podem ser alcançados através da cooperação plena entre todas as partes interessadas, envolvendo instituições financeiras, Fintechs e consumidores, e de um quadro regulamentar adequado que promova a inovação e a segurança dos utilizadores”.

“A rápida e constante evolução das tecnologias digitais promete oferecer enormes benefícios, mas cria também novos desafios e comporta grandes exigências para os sistemas de pagamentos e para todos os agentes que operam nesta área”, salienta Hélder Rosalino no seu discurso.  “Uma nova onda de inovações tecnológicas está a acelerar a mudança no setor financeiro, com um forte impulso das Fintechs”, diz o responsável do supervisor bancário. “Investidores, empresas privadas e outros players têm gasto dinheiro sem precedentes em startups globais de tecnologias financeiras” diz citando um estudo recente “de uma consultora”, que revela que foram investidos mais de 45 mil milhões de euros em quase 2.500 Fintechs desde 2010.

Impactos da diretiva do serviço de pagamentos

Nesse contexto, o administrador do Banco de Portugal salienta a importância da Diretiva dos Serviços de Pagamentos (PSD2), cujos impactos associados à sua entrada em vigor no próximo ano, “alguns deles são bastante disruptivos para a prestação de serviços de pagamento a nível europeu”.

“A PSD2 fornece o enquadramento adequado para promover essa cooperação, facilitar a inovação e garantir a segurança dos utilizadores na utilização de novas soluções de pagamentos”, afirma o administrador do BdP.

Esta Diretiva vem responder à crescente digitalização dos serviços financeiros, que se traduziu no surgimento de novos prestadores de serviços de pagamento, soluções de pagamento inovadoras, utilizadores mais exigentes e novos desafios para a segurança das operações.

A nova Diretiva pretende contribuir para a criação de um mercado único para os serviços de pagamento, que seja simultaneamente seguro (para prestadores de serviços e utilizadores), eficiente, inovador e promotor da concorrência.
“E é especialmente em relação a este último objetivo – o da promoção da concorrência – que importa referir aquela que é a maior novidade da Diretiva, e aquela que mais nos interessa no contexto das discussões sobre as Fintechs. A Diretiva vem regular dois serviços de pagamento que, até à data, não beneficiavam de enquadramento regulamentar: os serviços de informação sobre contas e os serviços de iniciação de pagamentos”, explica Hélder Rosalino.

Estes serviços serão prestados aos utilizadores, online, “por prestadores que se consideram ‘terceiros’ na relação entre o utilizador e o seu banco. Estes terceiros terão, mediante o consentimento dos utilizadores, acesso aos dados das contas dos clientes bancários e poderão, por exemplo, no caso dos serviços de informação sobre contas, fornecer informação agregada sobre contas detidas em vários bancos e possibilitar serviços de gestão dos orçamentos das famílias ou da tesouraria das empresas”, explica o administrador do BdP.

No caso dos serviços de iniciação de pagamentos, estes prestadores poderão iniciar pagamentos em nome do utilizador sem que este tenha de sair do site do comerciante ao qual está a adquirir um produto ou serviço. “É aqui que surge o espaço para a intervenção das Fintechs, que poderão posicionar-se no mercado como entidades especializadas na prestação de determinados serviços diretamente aos utilizadores, mas, também, aos bancos”, diz Rosalino que acrescenta que, “contrariamente ao habitual, em que a regulamentação segue atrás da inovação, com a PSD2 a regulamentação veio promover e facilitar a inovação, criando  novas oportunidades para as Fintechs e, em última instância, para os consumidores”.

“Os pagamentos imediatos, em conjunto com os novos serviços permitidos pela PSD2, podem oferecer novas oportunidades de negócios para os bancos e para os prestadores de serviços de pagamentos e, com isso, fornecer aos cidadãos uma experiência de pagamento segura em tempo real”, salienta o responsável do banco central.

“O sistema bancário terá que evoluir rapidamente para a adoção, disponibilização e massificação dos pagamentos imediatos, tirando partido das soluções tecnológicas já disponíveis, de modo a fornecer uma alternativa que cubra as alegadas vantagens e o caracter inovador atribuído às moedas virtuais”, alerta Hélder Rosalino que adianta ser sua convicção “de que as futuras inovações nos pagamentos de retalho serão baseadas em pagamentos imediatos, em combinação com o acesso à conta fornecido pela PSD2. E este será um campo de oportunidades para as Fintechs, para o sistema bancário e para os consumidores”.

“É nessa trajetória que a comunidade bancária nacional está a trabalhar e é com essa estratégia que o Banco de Portugal está empenhado em promover a cooperação entre todos os agentes que atuam no setor dos sistemas de pagamento em Portugal, do mesmo modo que cria um ambiente favorável à inovação no setor financeiro”, explica Rosalino.

Com o acesso generalizado à Internet, os consumidores estão agora conectados continuamente e “esperam que os serviços comerciais e financeiros estejam disponíveis e ao alcance das suas mãos em tempo real e a qualquer momento”, realça Rosalino que diz também que através de investimentos significativos em tecnologia, o sistema bancário e os outros operadores de mercado aumentaram, na última década, a oferta de serviços de pagamento.

“A criação da Área Única de Pagamentos em Euros (SEPA), no espaço europeu, foi um marco histórico neste contexto, desenvolvendo um sistema de pagamentos mais abrangente, harmonizado, seguro e confiável para os consumidores. No entanto, nos últimos anos, o sistema bancário foi criando ineficiências e perdendo alguma capacidade para inovar e se adaptar às mudanças tecnológicas e às crescentes necessidades dos utilizadores finais”, explica.

Na Europa, as disrupções tecnológicas, a concorrência de não bancos, sobretudo de Fintechs, e a pressão regulatória estão a forçar os bancos a repensar a forma como prestam serviços de pagamento de retalho, por isso “é hoje claro que os bancos já não competem apenas uns com os outros, competem, agora, também com não bancos e têm que lidar com os desafios decorrentes dos desenvolvimentos da tecnologia financeira oferecidos pelas Fintechs”, contextualiza Hélder Rosalino.

“Estamos a viver um momento de profunda transformação ao nível da inovação e da oferta de serviços financeiros, que promete alterar significativamente, num futuro próximo, o panorama dos pagamentos de retalho na Europa e também em Portugal”, disse o administrador do Banco de Portugal na conferência.

Recomendadas

A parceria que privilegia a economia social e as suas organizações ganha mais três anos

Daniel Traça, Dean da Nova SBE, e José Pena do Amaral, Consultor da Comissão Executiva e Membro da Comissão de Responsabilidade Social do BPI, explicam ao JE a originalidade da parceria Iniciativa para a Equidade Social, o que envolve e o que pretende alcançar. A parceria junta a Fundação “la Caixa”, o BPI e a Nova SBE.

Fundação ”la Caixa”, BPI e NOVA SBE renovam parceria de 2,2 milhões

Iniciativa para a Equidade Social vai prolongar-se por mais três anos, até 2024, segundo acordo assinado esta tarde na Nova SBE, em Carcavelos. A parceria tem como objetivo impulsionar o sector da economia social em Portugal, através de projetos de investigação e capacitação desenvolvidos por equipas académicas especializadas.

Bancários reformados avançam com “manif” para 6 de outubro e pedem fiscalização da constitucionalidade a Marcelo

Os sindicatos da banca filiados na UGT entregaram hoje ao Presidente da República o pedido de fiscalização sucessiva previsto na Constituição relativamente ao pacote legislativo de mitigação da inflação, atendendo à sua previsível inconstitucionalidade por não incluir a totalidade dos bancários reformados.
Comentários