“Histórias de Roma”: o prazer de partilhar aquilo que se ama

A sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante.

Marta Teives

Para além de eterna, ou talvez por isso mesmo, Roma é uma das cidades mais belas e fascinantes do mundo e, por mais que se visite, fica sempre muito por ver. A luz, a arquitetura – alguma dela já milenar –, as obras de arte espalhadas por inúmeros edifícios (museus, igrejas, palácios, etc.), os lugares e o estilo de vida celebrizados pelo cinema e tantas outras razões que fazem de Roma uma cidade única, justificam plenamente que tanto se tenha escrito sobre ela.

Além disso, são inúmeros os relatos de viajantes ou residentes mais ou menos temporários, mais ou menos conseguidos. “Histórias de Roma” está indubitavelmente entre os melhores. Mesmo que não tivesse a história dos moldavos voadores.

Correspondente do “El País” em Londres, Paris, Nova Iorque, Washington, Roma e Jerusalém, o jornalista e escritor espanhol Enric González deixou o diário espanhol de referência em Outubro de 2012, assinando hoje uma coluna semanal no “El Mundo” e colaborando também com o magazine cultural “Jot Down”. Tal como tinha já acontecido com Londres e Nova Iorque, em “Histórias de Roma”, González partilha connosco o privilégio de viver na cidade e, portanto, de poder tirar maior partido dela. Numa escrita solta mas cativante, o autor leva-nos a passear por Roma.

Evoca locais como a esplanada do Caffè della Pace, perto da Piazza Navona, onde se encontra a célebre Fonte dos Quatro Rios, que o Papa Inocêncio X encomendou a Bernini – “Se uma pessoa não se apaixona por Roma sentada na esplanada do Caffè della Pace, não vale a pena insistir mais”; a alfaiataria onde se vestem os papas; o armazém dedicado ao prêt-à-porter eclesiástico onde há de tudo, de cálices a cuecas; ou a rua, a meio caminho entre as sedes do partido da Democracia Cristã e do Partido Comunista, onde foi abandonado o automóvel com o cadáver de Aldo Moro, sequestrado pelas Brigadas Vermelhas.

 

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Recorda ainda figuras que marcaram a cidade, como o artista Miguel Ângelo, papas diversos ou o actor Alberto Sordi, conhecido como Albertone, que nasceu em 1920 em Trastevere, esse bairro magnífico e tão romano e cuja personagem Nando Mericoni era uma feroz caricatura do romano médio. Pequenas histórias que se desenrolaram na cidade e que ficaram para sempre associadas a um prédio, a uma praça, a um prato ou a uma obra de arte e que, todas juntas, dão a Roma este seu carácter tão particular. E, claro, a deliciosa história dos moldavos voadores.

Que Enric González gostou imenso da sua estadia em Roma nota-se na escrita e nos episódios selecionados, inclusive quando compara a cultura de acolhimento com a cultura nativa: “Os italianos são formais no trato. Os romanos, ainda mais. Vindo de um país como Espanha, em que parece que toda a gente se conhece desde que nasceu e em que as subtilezas da linguagem foram substituídas por pigarros, sons guturais e palavrões, tendo a apreciar o uso de fórmulas de cortesia na comunicação interpessoal.”

Este humor, ainda que por vezes um pouco mais subtil, atravessa todo o livro e é assim que González infunde no leitor um desejo enorme de entrar rapidamente num avião com destino a Roma. Saber partilhar o que se ama pode ser uma arte. A alguém que gostou tanto de “A Lebre de Olhos de Âmbar”, de Edmund de Waal – paixão que partilhamos por aqui – não se exige mais nada!

“Histórias de Roma” (tal como “Histórias de Londres” e “Histórias de Nova Iorque”) é editado pela Tinta da China. Quanto aos moldavos voadores, o melhor é ler o livro.

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