‘I am the Special Infinity’

Discute-se o salário do presidente da CGD, mas não vemos o BE ou o PCP (nem ninguém) discutir o salário dos futebolistas ou fazer uma lei para o limitar.

Houve jornada europeia, e resolvi fazer uma coisa nova: ouvir as declarações dos treinadores, antes e no final dos jogos, os nossos e os dos outros. Fiquei surpreendido, porque parecia que estava a ouvir políticos a falar. Com um vocabulário mais limitado nalguns casos, é verdade, mas com os mesmos tiques e as mesmas leituras deslocadas.

“O adversário merece-nos muito respeito”, quando a equipa em causa é o quase campeão da primeira liga de um país grande e vai jogar contra uma equipa da segunda divisão de um país minúsculo, ou a variante “é um jogo difícil” quando vai jogar contra o lanterna vermelha doutra terra; “faltou-nos capacidade de concretização” quando se falha o único remate à baliza do adversário, enquanto ele nos brindou com 10 remates à trave e ganhou por 7-0; ou “a arbitragem impediu-nos de discutir a vitória”, porque o árbitro mandou marcar um fora ao contrário num momento em que já se perdia por três golos; ou ainda o “fomos indecentemente roubados” quando o jogador se atira ao chão na grande área, isolado, porque deixou a bola fugir pela linha final, e reclama penalti.

Tal como um político nunca perde eleições, apenas adia a vitória, um treinador nunca perde, é vencido pelo árbitro ou pelo azar. Ao longo de muitos anos vi acontecer o contrário: serem os políticos a usar as imagens e o vocabulário do desporto. No seu discurso de demissão, Howe acusou Thatcher de “mandar os batedores para o jogo para descobrirem, à primeira bola, que os bastões estavam partidos”. Na Austrália, uma acusação frequente em política é que “se joga ao homem, não à bola”.

Na convenção democrática em Charlotte, há uns bons anos, Bill Clinton “hit a home run for Obama”. Em 2012, Romney disse aos eleitores que “precisavam de um treinador novo”, ao que Obama respondeu que “com um livro de regras tão mal escrito, ele ia perder o campeonato.” E em tempos de eleições é frequente ouvir quem está atrás nas sondagens dizer que “isto é uma maratona, não um sprint.”

A prática é antiga: já em 1889 o Presidente Harrison disse “que posso eu fazer se andam todos aos pontapés?”, ilustrado no Judge Magazine com um molho de políticos a chutarem uma bola. O termo “political football” é definido como um político constantemente debatido sem nunca se chegar a um resultado, chutado para um lado e para outro. E um político é por vezes chamado de “empata” (o que não é mau, há muito pior) e diz-se de outro que “meteu um golo na própria baliza”. Se se empenha na campanha “come a relva”; se tiver jeito, num debate televisivo “põe a bola nas costas do adversário”.

E como sinal do, digamos, respeito dos políticos pelo mundo da bola, veja-se que se discute o salário do presidente da CGD mas não vemos o BE ou o PCP (nem ninguém) discutir o salário dos futebolistas ou fazer uma lei para o limitar. Aliás, estou até seguro que, se ele quisesse, o próximo Presidente da República seria o Cristiano Ronaldo.

 

Nota biográfica: Hemp Lastru (n. 1954, em Praga) é sobrinho neto de Franz Kafka. Democrata convicto, activista e lutador político, é preso várias vezes pela polícia secreta checoslovaca, tendo sido sentenciado em 1985 ao corte de uma orelha sob a acusação de “escutar às portas”. Abandona a política em 1999, deixando Praga para residir em Espanha. Mudou-se para Portugal em 2005 porque “gostaria de viver num país onde os processos são como descrevia o meu tio-avô nos livros.”

 

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