Incerteza e perda de poder de compra podem provocar quebra na procura por casas, diz BdP

A inflação elevada, subida dos juros e abrandamento da economia, e consequente deterioração das condições financeiras de famílias e empresas, bem como uma possível quebra no mercado imobiliário são alguns dos principais riscos para a estabilidade financeira apontados pelo Banco de Portugal.

O contexto de inflação elevada, ritmo célere de subida das taxas de juro e um abrandamento da economia são os principais riscos para o sector financeiro, aponta o Banco de Portugal, uma vez que pode provocar uma deterioração das condições financeiras de particulares e empresas. O regulador alerta também para uma quebra no mercado imobiliário, nomeadamente na procura por casas, afastando, ainda assim um excesso de oferta.

“A conjuntura económica é caraterizada por inflação elevada e mais persistente, aumento abrupto das taxas de juro e deterioração das perspetivas para a atividade económica. Estes fatores interagem com vulnerabilidades pré- existentes, não obstante o ajustamento financeiro das famílias, das empresas e das administrações públicas no período pós-crise de dívida soberana”, refere o Banco de Portugal no relatório de estabilidade financeira para novembro de 2022, salientando que “os riscos para a estabilidade financeira aumentaram desde a última edição deste relatório”.

Neste sentido, refere, “uma inflação elevada e persistente, um aumento abrupto das taxas de juro e um abrandamento forte da atividade económica são os principais fatores de risco para o setor bancário, via risco de crédito e risco de mercado”.

De acordo com o regulador, o impacto de cada uma destes fatores “dependerá, em grande medida, da evolução da economia e da taxa de desemprego, do ritmo de subida das taxas de juro e das medidas de apoio adotadas. A prazo, taxas de juro estruturalmente mais elevadas, compatíveis com o objetivo de inflação do BCE, deverão ter um efeito favorável sobre a margem financeira e potenciarão uma maior diversificação da carteira de dívida pública,  desincentivando estratégias de search for yield na carteira do sistema financeiro”.

Juros altos podem pressionar cumprimento do MREL

Contudo, “não deve ser descurada a pressão adicional sobre a margem financeira que as taxas de juro mais elevadas poderão colocar nos custos de financiamento de mercado dos bancos, em particular, no cumprimento do requisito mínimo de fundos próprios e passivos elegíveis (MREL, na sigla inglesa)”, afirma o BdP, notando que o “cumprimento destes requisitos expõe os bancos portugueses a alterações de perceção de risco nos mercados financeiros internacionais”.

Além disso, as taxas de juro elevadas, e consequente subida das prestações a pagar por famílias e empresas junto da banca, também aumenta o risco de incumprimento do crédito. O regulador aponta como um dos principais riscos para a estabilidade financeira a “deterioração da situação financeira dos particulares num contexto de taxa de poupança reduzida, em especial entre os já mais vulneráveis, e de dominância do endividamento a taxas de juro variáveis”.

“Acresce, ainda, a incerteza relativa à evolução da atividade económica e, em consequência, do emprego. No entanto, as medidas de apoio, o aumento da poupança e a constituição de depósitos em 2020 e 2021 poderão mitigar o impacto destes choques, embora de forma diferenciada de acordo com o rendimento e o alcance das referidas medidas de apoio”, refere o Banco de Portugal.

Quebra no mercado imobiliário é outro risco

Por outro lado, alerta para uma “redução dos preços no mercado imobiliário residencial, que poderá também afetar o valor de carteiras de ativos, de famílias ou de entidades financeiras, seja de forma direta, seja por via das garantias em operações de crédito”.

“A incerteza corrente, a potencial perda de rendimento real das famílias e aumentos adicionais das taxas de juro poderão reduzir a procura por ativos imobiliários”, refere.

No entanto, nota a entidade liderada por Mário Centeno, “com as restrições na oferta de habitação, não é de esperar um excesso de oferta que requeira um período prolongado até que seja absorvida pelo mercado”. Além disso, a percentagem de operações financiadas com recurso a crédito bancário é de 50% em 2022, abaixo dos 75% registados em 2010.

Do lado das empresas, o relatório aponta a “materialização do risco de crédito associado à exposição do setor bancário às empresas mais afetadas pela pandemia e/ou pelo aumento dos custos de energia e matérias-primas, com menor poder de mercado e com uma estrutura de balanço mais frágil” como outro dos riscos.

“Dadas as expetativas de aumento adicional das taxas de juro de mercado e a larga proporção de dívida a taxa variável ou com maturidades curtas de sociedades não financeiras (SNF), estima-se uma deterioração do rácio de cobertura de gastos de financiamento e um aumento das empresas em vulnerabilidade financeira até final de 2023”, afirma.

A par destes riscos, o BdP aponta ainda para uma “reavaliação adicional de prémios de risco”, que pode gerar “uma desvalorização das carteiras de ativos e aumentando os custos de financiamento de mercado para novas emissões”.

“Não obstante as correções observadas, os mercados financeiros internacionais permanecem vulneráveis, designadamente à medida que os bancos centrais prosseguem o processo de normalização da política monetária. Num contexto de elevada volatilidade, choques adicionais poderão provocar maior aversão ao risco, gerando uma desvalorização das carteiras de ativos e aumentando os custos de financiamento de mercado para novas emissões”, remata.

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