Inflação

Os modelos de política monetária adotados e reinventados depois da crise financeira podem não ser os mais adequados. O desafio é enorme e espero que os decisores de política tenham a coragem necessária.

Nestes últimos três anos temos tido um conjunto de acontecimentos com impacto económico que soam muito a séc. XX. Um jornal que falasse de uma pandemia global, de uma guerra na Europa, da subida do preço do petróleo e gás, podia facilmente ter datas da década 20, 40 ou 70 do séc. passado. Agora, para completar esta série de eventos estamos a braços com inflação. Em Portugal a inflação em abril subiu aos 7,2%; na zona Euro, tal como na Alemanha, chegou aos 7,4%, em Espanha aos 8,3 e na Grécia a uns assustadores dois dígitos (10,2%).

Há muitos que acreditam que esta inflação é temporária. Outros que ela poderá ser mais persistente e difícil de debelar. A Guerra veio complicar as contas. O impacto do Covid nas cadeias de aprovisionamento veio afetar os preços de alguns bens e matérias-primas relevantes (tão díspares como os materiais de construção, ou os circuitos integrados para computadores) mas será de esperar que, no pós-C

Francisca Guedes de Oliveira

ovid e agora no pós-guerra, esta situação tenda a normalizar.

A guerra agravou o aumento dos preços dos combustíveis, nomeadamente os que dependem do petróleo e do gás. Estes aumentos são tendencialmente (pelo menos do ponto de vista histórico) temporários e o fim da guerra poderá ajudar a estabilizá-los, embora as questões associadas ao aquecimento global possam manter os preços dos combustíveis fósseis elevados de forma mais permanente.

Mas existem ainda outros fatores. O câmbio do Euro face ao dólar, apesar da ligeira recuperação dos últimos dias, tem descido de forma significativa desde maio de 2021. Nesta data o valor médio era de 1,2225 USD, enquanto em maio de 2022 ronda os 1,0675 USD. Esta descida é positiva para a balança de Bens e Serviços Europeia, é certo. Facilita as nossas exportações, mas encarece as nossas importações. E este é o lado menos positivo.

Os produtos vindos dos EUA estão mais caros em si mesmos (a inflação norte-americana subiu aos 8,3%) e se juntarmos a descida do câmbio, mais caras ficam as importações deste país, que é o segundo parceiro comercial da Europa, depois da China. Com os EUA a terem uma política monetária mais agressiva do que o Banco Central Europeu (BCE) – aumentando a taxa de juro para controlar a inflação –, é expectável que o câmbio não suba tão cedo, mantendo-se esta situação de uma potencial inflação importada.

A política monetária é o instrumento que pode controlar a inflação. O valor das taxas de juro continua historicamente baixo, com a taxa de curto prazo do Euro nos -0,585 e a taxa de juro dos empréstimos (famílias e empresas não financeiras) a rondar os 1,47%. O BCE continua a assumir que o valor âncora para a inflação é de 2%, mas se a política monetária continuar a ser expansionista, sem revisão das taxas de juro, as expetativas podem mudar, com os agentes económicos a perderem a confiança em que o BCE esteja de facto determinado em segurar este valor.

A minha geração assistiu poucas vezes a alterações tão profundas no mundo (com exceção talvez da queda do mudo muro de Berlim e dos acontecimentos subsequentes). Os modelos de política monetária adotados e reinventados depois da crise financeira podem não ser os mais adequados. Parece-me evidente que a compra massiva de obrigações não está a servir o objetivo de controlo da inflação. Também me parece que políticas tradicionais contracionistas, num contexto de guerra e pós-pandemia, podem ter consequências desastrosas na recuperação económica.

O desafio é enorme e espero que os decisores de política tenham a criatividade e a coragem para estarem à altura das circunstâncias.

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