Inflação e guerra também se combatem com transição verde

Não havendo falta de instrumentos políticos que permitam uma transição bem sucedida para uma economia hipocarbónica, tem faltado, isso sim, arrojo político.

Depois de um verão marcado por temperaturas elevadas e por incêndios, as expectativas relativamente ao inverno – que acarreta habitualmente um aumento do consumo de energia – não se afiguram muito positivas, num contexto marcado por uma crise energética e uma subida acentuada da inflação, em resultado de uma guerra na Europa, sem fim à vista.

Nestes dias, o Governo, pressionado (finalmente) pelo agudizar da situação socioeconómica do país, anunciou um pacote de medidas que, em jeito de ‘penso rápido’, está longe de constituir uma resposta estrutural às famílias e empresas e que, a prazo, nos dê garantias de que estaremos preparados para outras crises, menos circunstanciais, como a crise climática.

Não raras vezes são rotulados de catastrofistas os alertas da comunidade científica relativamente à emergência climática, mas um pouco por todo o mundo fenómenos naturais extremos vêm evidenciar que não estamos perante um alarmismo injustificado. Mais do que nunca necessitamos de ser sérios, proativos e consequentes na tomada de ação (política).

Mas o tempo da mudança em política não se tem compaginado com o ritmo necessário e de que o planeta nos vai dando alertas, mesmo após o mundo ter ficado dois anos em suspenso como consequência de uma pandemia. Mesmo depois de em muitos de nós se ter acendido uma luz de esperança, de que teríamos aprendido e só nos caberia enveredar por uma transição verde e justa, de forma séria, coerente e empenhada.

Não foi, porém, isso que sucedeu e a ação continua desfasada das ambições declaradas e o cumprimento do objetivo do Acordo de Paris está cada vez mais longe de alcançar.

A invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin, em fevereiro, veio, por outro lado, expor, da pior forma, a dependência dos países europeus das importações de energia e forçar um repensar da nossa estratégia energética, que aponte no sentido da autonomia energética e que responda às reais necessidades das pessoas. Não havendo falta de instrumentos políticos que permitam uma transição bem sucedida para uma economia hipocarbónica, tem faltado, isso sim, arrojo político.

Desde normas, regulamentos e subsídios, há toda uma panóplia de instrumentos – para além dos baseados no mercado – em que os governantes terão de apostar mais veementemente, ao mesmo tempo que – com as políticas certas – criam emprego, incentivam a I&D e geram bem-estar social e ambiental.

Medidas essas que passem pela flexibilidade do sistema de energia, por soluções de autonomia energética, por mais infraestruturas de transportes públicos, pela reabilitação energética eficiente dos edifícios, por instalações de captura de carbono e por uma estruturada implantação de energias renováveis.

O combate à crise climática pode ser um aliado no combate à inflação e à crise energética provocadas pela guerra. É que enquanto travamos o combate ao aquecimento global a longo prazo, a curto prazo, a aposta na transição energética é um fator-chave que definirá, a seu termo, quem serão os “vencedores” e os “perdedores” naquele que é o maior combate da história da Humanidade.

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