Inflação: falso alarme ou preocupação real?

Num horizonte temporal de longo prazo, a questão fulcral para os mercados é saber se as pressões inflacionistas são temporárias, como a Fed acredita, ou se são permanentes, como muitos afirmam.

 

Os mercados financeiros estão claramente a ficar preocupados com as pressões inflacionistas, que começam a aparecer nos inquéritos realizados pelo ISM (Institute for Supply Management) aos executivos de mais de 400 empresas em 19 indústrias primárias, e com a possibilidade de aumento da taxa de juro de referência por parte da Reserva Federal já a partir do ano que vem – alguns especialistas apontam mesmo para o final deste ano. E não é só a Reserva Federal norte-americana: o Banco do Canadá, no seu último relatório de política monetária divulgado a 21 de abril, deu conta que não espera aumentar a taxa de juro antes da segunda metade de 2022, enquanto que anteriormente dizia que não aumentaria antes de 2023.

Nos últimos meses, tornou-se evidente que a economia dos EUA está a recuperar dos confinamentos impostos pela pandemia mais rapidamente do que o previsto e que as restrições e limitações nas cadeias de distribuição estão a ter um forte impacto nos preços dos produtores. Embora as pressões altistas nos preços ainda não tenham afetado o Índice de Preços no Consumidor (IPC), os dados mais recentes do Empire Manufacturing mostram que os preços aumentaram ao ritmo mais elevado da última década. Também o índice da Fed de Filadélfia subiu dos anteriores 23,3 para 51,8, o valor mais alto dos últimos 48 anos. Mês após mês, vemos o setor da manufatura a impulsionar a recuperação económica, e não tardará para que comecemos a assistir a uma tendência semelhante nos serviços.

Fonte: Reserva Federal de Nova Iorque
Fonte: Reserva Federal de Filadélfia

 

Neste ponto, não está claro se o recente aumento nos preços é simplesmente o resultado das interrupções nas cadeias de distribuição causadas pela pandemia, devendo diminuir significativamente à medida que mais capacidade for disponibilizada, ou se o aumento nos preços advém da escassez de recursos, o que poderia levar a um ciclo indesejável de expectativas de inflação cada vez mais altas. Na primeira situação, este tipo de inflação impulsionada pela procura é quase sempre temporária, uma vez que a oferta tende a aumentar para se ajustar à procura. Este fenómeno é o que está a acontecer neste preciso momento, com a capacidade produtiva a aumentar à medida que as economias reabrem.

Na última reunião da Fed, Jerome Powell insistiu que a subida da inflação é temporária, reiterando o compromisso da Fed em manter as medidas de estímulo monetário e fiscal de modo a garantir que a recuperação económica dos EUA seja robusta e duradoura. Para isso, tenciona manter a taxa de juro de referência inalterada nos valores atuais 0,00-0,25% até 2023.

Os mercados, entretanto, já estão a começar a descontar uma mudança para uma política monetária mais rígida. Depois das yields a 10 anos dos EUA terem subido bastante nos últimos meses, estabeleceram um novo máximo nos 1,73% em meados do mês de março. Desde então, tem-se assistido a uma correção. Mais importante ainda é o facto do spread entre as yields a 2 e 3 anos ter aumentado de 5 pontos base apenas há alguns meses, para mais de 20 pontos base.

Fonte: Departamento do Tesouro Americano

A verdadeira inflação poderá ser observada através da monitorização do spread entre a inflação nominal e a inflação core. Se a inflação nominal exceder a core em 50 pontos base ou mais, a Fed não terá alternativa a não ser tomar medidas para conter o aumento dos preços. Para já, a situação parece controlada, e embora o spread tenha aumentado em fevereiro e março, mantém-se contido nos 30 pontos base.

O verdadeiro problema está do lado da oferta

A tendência de longo prazo da economia mundial tem sido deflacionária, já que a tecnologia reduziu os custos de produção, e o mesmo poderá acontecer com o setor dos serviços por culpa da digitalização e inteligência artificial. Além disso, a verdadeira espiral inflacionária ocorre apenas quando os ganhos salariais começam a acompanhar a subida dos preços, tal como aconteceu na década de 1970, primeiro com a quebra nas colheitas e depois com os choques petrolíferos de 1973 e 1978.

Ao contrário do que se pensa, os eventos geopolíticos são o verdadeiro risco. A política monetária ultra facilitista da Fed não é por si só suficiente para levar a economia para uma espiral inflacionária de longo prazo, especialmente devido às economias estarem em fase de reabertura à medida que população vai sendo vacinada e o risco de pandemia diminui. Poderá a história repetir-se? Poder pode, mas é improvável. Eventos como o aumento das tensões iranianas no estreito de Ormuz, levando o preço do petróleo a disparar, ou a China tornar-se ainda mais agressiva na intenção de anexar Taiwan, são exemplos reais que, a acontecerem, poderiam ser tóxicos para o crescimento global e pressões inflacionistas.

Portanto, embora os mercados permaneçam tensos quanto à perspetiva de regresso da inflação, as ameaças de longo prazo à economia global e aos mercados de capitais mantêm-se reduzidas enquanto as tensões geopolíticas estiverem sob controlo. Fique a par das principais notícias e análises em tempo real com a XTB.

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