Inflação: o que estamos a assistir atualmente?

Desde as crises de 2008 e de 2012 que o BCE tem vindo a criar novas maneiras de aplicar política monetária pois já não tem muito espaço de manobra com os mecanismos tradicionais, nomeadamente, a diminuição das taxas de juro.

Um dos temas mais falados recentemente na Europa tem sido a inflação e a sua evolução nos últimos tempos. Mas afinal, o que é a inflação, e o que é que estamos a assistir atualmente?

A inflação é um fenómeno económico que acontece quando existe uma subida generalizada dos preços. Este fenómeno é bastante importante numa economia pois, mantendo tudo o resto constante, as famílias perdem poder de compra, ou seja, com o mesmo euro, consumimos menos do mesmo bem ou serviço. Este valor é calculado utilizando a média ponderada de um cabaz de bens e serviços consumidos pelo “cidadão comum” numa certa região. Na zona euro, a inflação é medida pelo Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), um índice desenvolvido para que os países consigam comparar os valores da inflação com os restantes.

O relatório da Comissão Europeia publicado em dezembro mostra que a inflação anual na zona euro referente ao mês de novembro foi de 4,9%. Isto significa que, comparando com o ano passado, houve uma subida generalizada de preços em 4,9%, bastante acima do alvo estabelecido pelo Banco Central Europeu (BCE) – 2%. Em Portugal, este valor foi dos mais baixos (2,6%), fazendo com que os portugueses perdessem menos poder de compra e que o país ganhasse competitividade internacional em relação à zona euro, mantendo tudo o resto constante.

Duas das características em como é medida a inflação é que o IHPC tem em conta um único cabaz, sendo composto pelos bens e serviços consumidos pelo tal “cidadão comum”, e cada componente tem diferentes níveis de inflação. Por exemplo, o maior contribuinte para os 4,9% de inflação foi a energia, com um aumento no seu preço de 27,5% em relação a novembro de 2020, já o aumento do preço de comida não processada foi apenas de 1,9%. Ora, o problema aqui é que cada pessoa é diferente da outra, e cada família consome de maneira diferente. Sendo assim, para a mesma inflação, há quem perca mais que outros, para o mesmo nível de rendimento.

Ao ser de origem económica, a inflação depende das ações dos agentes económicos e das suas expectativas, e é aqui que o BCE entra. O BCE tem como papel manter a inflação estável, necessitando assim de utilizar mecanismos monetários de forma credível. É importante haver credibilidade por parte do banco central para que haja um nível de inflação estável. Assim, as pessoas sentem-se seguras para consumir e investir no presente e no futuro, levando a um crescimento sustentável da economia.

Desde as crises de 2008 e de 2012 que o BCE tem vindo a criar novas maneiras de aplicar política monetária pois já não tem muito espaço de manobra com os mecanismos tradicionais, nomeadamente, a diminuição das taxas de juro, porque estas já se encontram perto dos 0%. Com isto dito, percebe-se o porquê de haver tanto debate sobre a inflação atualmente, no fundo, é preciso haver confiança no banco central e um possível argumento para previsões de inflação com valores altos num futuro próximo é que poderemos estar a assistir à quebra gradual de confiança no BCE.

No entanto, não nos podemos esquecer que esta crise não é como as crises passadas. A crise durante a pandemia foi maioritariamente uma crise criada de forma voluntária, pois a maioria dos governos em todo o mundo impôs restrições à economia para salvar vidas.

Em último lugar, apesar de não haver um consenso geral sobre quais os fatores que estão a influenciar mais a inflação (e como resolvê-la), muitos economistas defendem que estes valores são em parte explicados através da magnitude dos apoios diretos às economias. Pegando no que o Professor Pedro Brinca escreveu num artigo recente, os países que investiram mais em apoios à economia são, também, aqueles que estão a verificar uma maior inflação devido à recuperação rápida dos mercados e uma recuperação da procura. Sendo assim, uma recuperação estável da economia não depende tanto de ajuda monetária, mas sim de disciplina fiscal e das expectativas dos agentes económicos, o que por si só, tem sido difícil de se verificar.

O artigo exposto resulta da parceria entre o Jornal Económico e o Nova Economics Club, o grupo de estudantes de Economia da Nova School of Business and Economics.

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