Inflação pode retirar competitividade às empresas portuguesas

Responsável da Fundação AIP considera que os custos nos transportes, aliados ao atual quadro político poderá levar a que esta não seja a melhor altura para o sector empresarial se expandir para os mercados mais longínquos. Investir na vertente digital é outro dos desafios.

A inflação nos transportes poderá retirar de alguma forma a competitividade às empresas portuguesas para os mercados mais longínquos. “Acho que estamos numa altura de grande alteração de mercados e consumidores. Se calhar vamos ter de nos voltar para alguns mercados mais antigos. Se calhar esta não será a melhor altura para se expandirem a outros mercados mais longínquos”, refere em declarações ao Jornal Económico (JE), Fátima Vila Maior, diretora de Relações Internacionais da Fundação AIP, à margem do evento Portugal Exportador, que decorreu no Centro de Congressos de Lisboa, no dia 23 de novembro.

A responsável considera também que o atual enquadramento político não é fácil e que aliado aos custos dos transportes pode levar as exportações a regressarem ao mercado europeu.

“Temos também aqui o desafio do Brexit que nos vai tornar menos competitivos no Reino Unido e era um mercado importante. Acho que são muitos os desafios que as empresas portuguesas vão ter nos próximos anos”, salienta Fátima Vila Maior, que defende, no entanto que o sector empresarial português conseguiu nos anos anteriores adquirir um know-how e outra coisa que “agora está muito na moda é a resiliência”.

Como tal, sublinha que estes dois factores fazem com que as empresas portuguesas possam aproveitar outros mercados como a América Latina, que tem uma grande ligação com a língua e os Estados Unidos que tem subido ao nível dos turistas em Portugal.

“Sabemos que em termos de produtos de grande consumo os turistas acabam por ser uns bons embaixadores do país e da classe empresarial”, realça.

Outro país com o qual poderá ser possível “estreitar laços” é o Brasil, após a recente mudança governativa com a eleição de Lula da Silva. “Acho que sim. Não só entre Portugal e Brasil, mas também outros países da América Latina com quem podemos estreitar os laços. É um bocadinho cíclico. Há dois anos estávamos todos prontos para exportar para a China e agora é altura de retomarmos mercados que para nós já estavam batidos e que têm agora outras oportunidades”, afirma Fátima Vila Maior.

Questionada sobre o que o precisam as empresas portuguesas fazer para serem mais competitivas a nível internacional, a responsável destaca que essa análise tem de ser feita sector a sector, mas que o investimento na vertente digital tem de ser cada vez mais uma aposta.

“Uma das coisas fundamentais são as marcas e a sua capacidade de se adaptarem ao que está no mercado e também a capacidade de saberem numa altura destas analisar a ida para novos mercados com alguma consistência. Em termos de internacionalização não se deve ir para becos escuros”, afirma, acrescentando que as empresas têm de fazer uma reflexão antes de ir ao mercado, no próprio processo de exportação, serem mais ágeis e diminuirem alguns custos de contexto que ainda têm e tornarem-se mais competitivas em termos do produto final.

“Investirem um pouco na parte digital, aquelas que têm como consumidor, o consumidor final. Hoje em dia os compradores necessitam de ter uma componente digital na aproximação aos produtos”, sublinha.

Sobre a realização deste ano do Portugal Exportador, a responsável mostrou-se satisfeita por voltar a juntar presencialmente o sector empresarial, depois de uma edição virtual provocada pela pandemia de Covid-19.

“Uma das características deste evento é ter uma componente de networking muito forte”, afirma, destacando as três novidades da edição de 2022, como foi o caso da ‘Digital Lab’, criada pelo facto das empresas portuguesas terem uma componente muito grande em termos de exportação através do e-commerce.

“As empresas quando querem exportar online e não só, têm que introduzir processos de digitalização no seu negócio todo, o que às vezes não é fácil para uma empresa pequena ou uma PME conseguir encontrar o fornecedor ideal, que possa resolver qualquer questão, a preparar toda a estrutura da empresa, que ajude a criar uma loja online, a criar uma estratégia mais digital. Há um conjunto de skills e serviços que as empresas precisam e às vezes é muito difícil conhecer os fornecedores certos”, explica a responsável da Fundação AIP.

Outra das novidades foi o ‘Nursery Lab’, que a responsável justifica pelo facto das exportações portuguesas terem vindo a crescer todos os anos, prevendo-se também um recorde de exportação para 2022.

“Contudo, se queremos aumentar as exportações, temos também de aumentar a nossa base de exportação. O nursery lab é o local onde as micro empresas e até startups se podem dirigir e desde logo tiveram quatro consultores para avaliar a sua capacidade de internacionalização, porque esse é um passo que não pode ser dado no escuro”, enfatiza.

A terceira e última novidade foi o espaço ‘Mundo’ , onde estiveram as associações empresariais a apresentar os seus projetos de internacionalização, nomeadamente através do pré-agendamento de reuniões (slots de 15 min) durante o evento, mas que poderão também realizar um contacto posterior através da internet na plataforma do Portugal Exportador durante todo o ano.

A necessidade da criação do espaço ‘’Mundo’ surgiu após um inquérito realizado efetuado às mais de 1.500 empresas exportadoras que visitaram o evento anterior e onde uma das questões mais vezes referenciada foi a falta de informação sobre acções conjuntas, nomeadamente participações em feiras internacionais ou missões inversas organizadas por associações e apoiadas financeiramente.

As preocupações ambientais geradas através das exportações não passaram ao lado deste evento. Assim, o Portugal Exportador utilizou materiais recicláveis na construção dos stands e mobiliário de apoio, tendo também recorrido ao uso de revestimentos naturais e plantas decorativas com utilização posterior. Em edições futuras será feita a reutilização da sinalética e outros elementos gráficos, bem como privilegiar a luz natural e utilizar audiovisuais de baixo consumo de energia.

O Portugal Exportador teve ainda como objetivo alertar para a utilização dos meios de transporte coletivo ou veículos de fontes de energia eléctrica, a utilização de embalagens de materiais sustentáveis e a escolha de fornecedores locais.

A edição de 2022 do Portugal Exportador contou com a participação de mais de 1.200 empresas, 2.232 pessoas registadas para eventos paralelos, 365 participantes em cafés temáticos, 407 ações de consultoria e mais de 50 reuniões presenciais e online no âmbito do programa ‘Meet The Leaders’.

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