Inflação, recessão, deflação (Parte II)

De uma forma simples, a deflação pode ser definida como o fenómeno económico que se caracteriza pelo decréscimo generalizado dos preços de bens e serviços, sendo esse decréscimo persistente ao longo de um determinado período. Pelo menos para já, ainda estaremos a enfrentar não verdadeiramente a deflação, mas aquilo a que se convencionou designar como […]

De uma forma simples, a deflação pode ser definida como o fenómeno económico que se caracteriza pelo decréscimo generalizado dos preços de bens e serviços, sendo esse decréscimo persistente ao longo de um determinado período.
Pelo menos para já, ainda estaremos a enfrentar não verdadeiramente a deflação, mas aquilo a que se convencionou designar como “stagflation” (estagnação dos preços) ou “lowflation” (ou seja, uma baixa inflação – inferior a 1% – persistente)
Mas, em simultâneo, constatamos a existência de setores que afirmam ter sido já atingidos pela deflação.
Há poucas semanas, a associação representativa das empresas da moderna distribuição, aquando da apresentação do seu Barómetro de Vendas, relativo ao primeiro semestre do corrente ano referia que as insígnias de distribuição de base alimentar estão já a sofrer com a deflação de preços, sobretudo nos bens alimentares e bebidas não alcoólicas. E salientava que “este fenómeno de deflação no setor é preocupante e contribui para que o volume de negócios no retalho alimentar se tenha mantido estável registando um ligeiro aumento de 0,4%”.
Se analisarmos a estrutura de custos desses mesmos produtos – pelo menos no caso dos produtos fabricados no nosso país – não encontramos razões próximas que justifiquem tal efeito deflacionador (que em alguns casos atinge os dois dígitos), havendo mesmo setores em que quer matérias-primas, quer alguns outros custos associados à produção sofreram mesmo um notório inflacionamento.
De facto, um consumidor que percorra os corredores das lojas da moderna distribuição em Portugal, mesmo que não esteja com uma constante atenção à eventual alteração de preços de cada produto, verifica uma multiplicação brutal de ofertas promocionais com as mais variadas propostas de redução de valor. E tal acontece sem que se verifique um correspondente crescimento das quantidades vendidas. Não apenas porque a banalização das promoções lhe retira parte do ‘encanto’ para os consumidores, mas – acima de tudo – porque estes passaram a comprar não porque está em promoção (antecipando compras), mas o que está em promoção (substituindo compras).
Como dizia o diretor europeu da área de Retail Insight da Nielsen, Jean-Jacques Vandenheede, no último congresso da APED: “Como o consumidor é um animal de hábitos, liga-se ao que gosta. (…) Estamos viciados. Como é que se chamam as drogas nesta indústria? Promoções. Portugal é um dos líderes neste vício”. E os mais recentes números da Nielsen para o mercado português não se cansam de confirmar esta realidade. No final de 2013, 28% das vendas em valor referiam-se a produtos em promoção, sendo que esse valor subiu para 31,5% no final do primeiro trimestre e para quase 34% três meses depois. Apesar da ‘incomportabilidade’ de tal percentual. Apesar da mudança de ciclo económico. Apesar das alterações legislativas entretanto aprovadas.
Se retalhistas (e fornecedores) são unânimes na necessidade de alterar esta estratégia e de infletir esta trajetória, a verdade é que parece haver uma aparente incapacidade para alterar esta ‘dieta’ e enfrentar as óbvias dificuldades que o “desmame” daquele vício gerará, uma aparente incapacidade em fugir de uma guerra de preços fraticida em que se sacrifica a rentabilidade no altar da conquista de quota (de um mercado de valor cada vez menor), uma aparente incapacidade de ir a jogo com outros argumentos que não o preço.
Parece, pois, evidente que sectores que deram prova ao longo dos anos de um forte dinamismo e de uma indesmentível capacidade de adaptação – a cada momento – às necessidades do mercado, terão que ser capazes de mais uma vez inovar, encontrando formas de apresentar mais diversidade na oferta, seja ao nível de sortido e de qualidade dos produtos, seja ao nível dos formatos de local de compra, seja ao nível dos serviços que põe à disposição dos seus clientes, quebrando assim o ciclo vicioso da ditadura promocional e iludindo as consequências nefastas da deflação.

Pedro Pimentel
Diretor geral da Centromarca – Associação Portuguesa das Empresas de Produtos de Marca

 

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