Instituto de Odivelas: projeto não pode acabar

Na sua passagem por Lisboa, Josep Barnils, presidente da Associação Europeia para a Educação Diferenciada, disse taxativamente que “o ensino diferenciado deve ser visto como um investimento que pode ser transversal à sociedade”. Raparigas e rapazes têm “características distintas, formas de pensar e interesses diferentes, e há que tratá-los e educá-los de formas distintas em […]

Na sua passagem por Lisboa, Josep Barnils, presidente da Associação Europeia para a Educação Diferenciada, disse taxativamente que “o ensino diferenciado deve ser visto como um investimento que pode ser transversal à sociedade”.
Raparigas e rapazes têm “características distintas, formas de pensar e interesses diferentes, e há que tratá-los e educá-los de formas distintas em casa, na escola e na sociedade” (Josep Barnils). Esta é uma das razões do êxito do Instituto de Odivelas, aliado a um projeto educativo singular, há já 114 anos. Fundado em 1900 para educar órfãs de oficiais do exército, o Instituto de Odivelas foi-se abrindo à sociedade e adaptando ao seu tempo, sem nunca abdicar da sua missão: fomentar educação moral e cívica que visa desenvolver nas alunas o sentido do dever e da honra e os atributos de carácter, em especial a integridade moral, espírito de disciplina e noção de responsabilidade. O Instituto de Odivelas (IO) tem um currículo interno que o diferencia de outras escolas; a par do currículo oficial do ensino secundário, oferece ainda um conjunto de disciplinas práticas, atividades desportivas e artísticas que o tornam único, no panorama escolar português e de outros países de língua portuguesa. Além de ser o único internato feminino do país.
Apesar dos ótimos resultados académicos das alunas do IO, o Ministro da Defesa Nacional decidiu, por despacho, encerrar o IO no final do ano letivo em curso. As razões apontadas têm variado ao correr dos meses. Primeiro foram apontadas razões económicas. Ora, dos três Estabelecimentos Militares de Ensino, o IO era o que apresentava, à época do despacho, a menor despesa. Estudos económicos apresentados em 2012 pela APEEAIO mostravam que o IO tinha potencial para, dentro de dois anos, voltar a ter um número de alunas que conferiria sustentabilidade ao seu projeto que contaria com o alargamento, se autorizado, aos níveis de ensino anteriores aos ministrados e que, configuraria, uma passagem sem sobressaltos das alunas, entre ciclos. Além disso, o IO, com a sua oferta educativa e académica, teria grandes possibilidades de atrair alunas da CPLP, fazendo dele uma espécie de escola imã (magnet school) – e um bom instrumento de política económica externa de Portugal.
Perante os estudos apresentados, o MDN ficou sem argumentos de cariz orçamental, erguendo então a bandeira da emancipação feminina para justificar o encerramento do IO e a sua fusão com o Colégio Militar, à época só masculino. Reconhecidos académicos defendem que o ensino diferenciado por género promove uma maior participação feminina em profissões tradicionalmente ocupadas pelos homens.
A diversidade de opções de ensino público, entre elas a do ensino diferenciado por género, é útil e salutar. Querer castrar a diversidade de opções é antiquado, ditatorial e antidemocrático.
No IO entram meninas que saem mulheres que marcam a nossa História e o nosso país. Todas elas reconhecem que devem a sua formação e a sua carreira profissional à educação que tiveram no IO. Ao serem um marco na nossa sociedade espelham o que de melhor há no Instituto de Odivelas.
O Instituto de Odivelas não pode encerrar. Esta escola de referência tem de ser mantida em funcionamento para continuar a dar grandes profissionais ao nosso país e ao mundo. PELA CONTINUIDADE DO INSTITUTO DE ODIVELAS!

M. Margarida Pereira-Müller
Antiga aluna do Instituto de Odivelas

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