Inteligência Artificial chega ao sector da água na forma de dispensador e sanita

Nunca se pensaria que uma sanita e um dispensador de água inteligente tivessem tanto em comum. Além de serem portuguesas, as empresas que as criaram querem ajudar a evitar o despedício de água através das novas tecnologias.

A inovação, digitalização e tecnologia devem ser encaradas como ferramentas que podem potenciar a eficiência e a gestão de recursos hídricos numa altura em que se lida com problemas de escassez e qualidade de água devido ao agravamento das alterações climáticas. No entanto, não pode ser encarada como uma solução isolada, uma vez que as ações humanas e decisões políticas continuam a ter influência sobre o destino deste recurso. Esta é uma opinião partilhada tanto por ambientalistas e empresários consultados pelo Jornal Económico (JE) e que olham como a Inteligência Artificial (IA) e big data como “ferramentas que se podem adaptar a inúmeros contextos”, referiu Catarina Miranda, coordenadora do projeto Rio Livres, da GEOTA.

Um desses contextos é o consumo doméstico da água. Segundo os dados da Empresa Portuguesa das Águas Livres (EPAL), uma torneira aberta durante um minuto pode desperdiçar até 12 litros de água, enquanto que um duche de cinco minutos de torneira aberta pode gastar até 60. Face a este consumo excessivo e desregulado, a Água de Monchique desenvolveu um dispensador de água inteligente que pretende “promover o uso eficiente da água e consequentemente a defesa dos recursos hídricos”.
Ao JE, o CEO da sociedade explica que o Nommo Smart Water Pump – apresentado pela primeira vez durante a Web Summit de 2021 – é um projeto “100% português” em desenvolvimento desde 2019 em parceria com a tecnológica Quantum Leap e que deverá chegar aos mercados já no próximo ano.
“Trata-se de um dispensador de água de alta qualidade, munido de IA, com um controlo total de fluxo e direcionado para o grande público”, explica Vitor Hugo Gonçalves ao JE, acrescentando que esta tecnologia vai permitir “apreender os hábitos de consumo e encomendar automaticamente mais garrafões antes do consumidor ficar sem stock”.

“Acreditamos que o Nommo Smart Water Pump abrirá um leque de oportunidades de crescimento e de inovação”, explica o responsável.
À semelhança da Água de Monchique, também a portuguesa Ablute procurou encontrar uma solução para evitar o desperdício de água resultante da utilização das sanitas.
“As sanitas representam o maior consumo [doméstico], sem que haja uma proposta sustentável”, explica, defendendo que a sanita inteligente desenvolvida poupa mais água do que uma normal, usando apenas meio litro de água por utilização.

“Ainda que a sanita não esteja em fase de industrialização, creio que é seguro dizer que poupará cerca de 90% de água face às tradicionais”, afirmou Nuno Marujo, CEO da Ablute. “Ou seja, menos de um litro servirá para a sanita de lavar por completo, em vez dos seis livros atualmente usados por descargas nas tradicionais”, diz.
Após a apresentação do projeto na Web Summit, a tecnológica portuguesa afirmou ter sido “identificada por fundos que efetivamente correm risco com a audácia de apostar numa tecnologia que ainda não está no mercado, mas que ajudará a salvar vidas”, diz Nuno Marujo.

Carlos Raposo, diretor-adjunto do Serviço de Hidráulica e Ambiente da TPF Consultores, admite que as soluções tecnológicas no sector da água não serão uma “panaceia” embora poderão ajudar “principalmente na otimização da operação dos sistemas onde exitem muitas tarefas que hoje são feitas por IA”.
Para o diretor-adjunto, “a otimização do funcionamento das ETAR é um bom exemplo onde soluções de big data e IA podem ajudar a obter melhorias de desempenho, que de outra forma implicam um consumo de recursos humanos não sustentável”.

IA ao serviço da UNESCO
A importância destas ferramentas para melhorar a “governança e gestão” da água também não passam despercebidas para a UNESCO. Com um Programa Hidrológico Intergovernamental em andamento, do qual constam com vários centros no Brasil, Paraguai e México, a próxima fase do plano, que se iniciará em 2022, é a “quarta revolução industrial como um dos temas centrais”.
“É um tema amplo que inclui, por exemplo, a IA (reconhecimento de séries de dados, plataformas de software, aprendizagem automática), monitorização remota (sistemas de informação geográfica, teledeteção, satélites e drones. Por exemplo temos um portal de qualidade da água com dados de satélite desenvolvido com o CNES, a nível mundial e em desenvolvimento para algumas das maiores bacias hidrográficas mundiais; realidade aumentada, virtual e digital e uso de blockchain”, explica ao JE o especialista em hidrologia da entidade mundial.

Miguel Doria defende que uma necessidade no sector das águas é a capacitação de gestores, de forma a que possam facilitar a utilização e adoção deste tipo de tecnologias no sector.
O especialista da UNESCO adianta que em outubro, o Programa Hidrológico Intergovernamental, a Conferência Ibero-Americana de Diretores de Água e com o apoio da Agência Espanhola de Cooperação ACECID, conseguiu organizar um curso gratuito dirigido a gestores públicos sobre a Inteligência Artificial e Transformação Digital para a Segurança Hídrica.

De facto, e nas palavras do hidrologista, o curso contou com a apresentação da plataforma tecnológica H2Porto das Águas do Porto, que permitem a redução das perdas de água nos sistemas de distribuição. Este mesmo sistema foi distinguido com o prémio de Best Digital Strategic Tools em 2018 devido a ser um dos “projetos mais disruptivos e inovadores” das organizações nacionais.

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