Intercalares nos EUA. Resultados deixam avisos para Trump e para Biden

O desfecho das eleições intercalares nos EUA é ainda incerto, mas os resultados disponíveis são já vistos por analistas como aviso dos eleitores de que as lideranças partidárias devem ser repensadas e que as presidenciais de 2024 estão em aberto.

Com os republicanos prestes a tomar conta da Câmara de Representantes, por uma pequena margem, e com os democratas a dar sinais de que podem manter o controlo do Senado, por uma margem ainda menor, as eleições intercalares da passada terça-feira foram avisos para a fragilidade das lideranças dos dois partidos, concluem vários analistas.

“As eleições intercalares não foram boas para o Partido Republicano, mas foram especialmente más para (o ex-Presidente) Donald Trump, que até agora tinha conseguido desafiar as expectativas e manter o controlo do partido, mesmo após a derrota nas urnas em 2020”, escreveu Leslie Vinjamuri, diretor do programa dos EUA e das Américas do ‘think tank’ Chatham House, num artigo esta semana divulgado.

Vinjamuri defende que “a influência de Trump está em declínio”, recordando que muitos dos candidatos endossados pelo ex-Presidente republicano – mesmo em estados tradicionalmente conservadores, como Pensilvânia e Arizona – perderam.

Estes dados parecem boas notícias para o Partido Democrata e para o Presidente em exercício, Joe Biden, mas quando os analistas mergulham nos pormenores das votações e para as reações dentro das fileiras Democratas encontram sinais que preocupam o inquilino da Casa Branca.

“As eleições foram muito boas para Biden. O seu partido evitou o bombardeamento que sofreu a meio do mandato do ex-Presidente Obama. (…) Isso parece abafar os rumores sobre as dificuldades de um segundo mandato. Mas o ruído não vai desaparecer totalmente. Há a questão da idade de Biden e a questão da energia de Biden”, escreveu Frank Bruni, professor de Jornalismo e de Políticas Públicas da Duke University, num artigo divulgado esta semana no jornal The New York Times.

Bruni lembra que Biden já era o Presidente mais velho da história norte-americana quando assumiu o cargo, aos 78 anos e que, se fizesse um segundo mandato, sairia da Casa Branca com 86 anos.

O articulista lembrou ainda o embaraço que esta questão está a provocar dentro do próprio Partido Democrata, como quando o congressista Jim Clyburn, da Carolina do Sul, evitou responder quando foi interrogado por um jornalista sobre se Biden deveria procurar a reeleição.

Para ampliar os problemas de Biden e Trump, em ambos os partidos não faltam pretendentes a candidatos presidenciais para 2024 e vários deles sobressaíram nas eleições da passada terça-feira.

“O inimigo de Trump, Ron DeSantis, governador Republicano da Flórida, ganhou um segundo mandato de quatro anos com uma vitória esmagadora. Trump está a sofrer ataques do seu próprio partido e de muitos apoiantes nos ‘media’, como Fox News, New York Post e Wall Street Journal. Nada disto é um bom presságio para a perspetiva de Trump liderar o partido nas eleições presidenciais de 2024”, observou o analista da Chatham House.

Nas fileiras democratas, a recandidatura de Biden começa a ser discutida e o próprio assumiu esta semana que estava a pensar seriamente nessa possibilidade, mas não faltam vozes a lembrar a provecta idade do Presidente, bem como a descartar a solução de entregar a tarefa à sua vice, Kamala Harris, salientando os seus elevados índices de impopularidade.

Ao mesmo tempo, os analistas destacam o aparecimento de novas estrelas no firmamento democrata.

“Em termos de ‘rising stars’ do partido, atenção a dois nomes que esta semana saíram vencedores: o reeleito governador da Califórnia, Gavin Newsom, que já demonstrou interesse em concorrer a Presidente; e ainda o novo governador da Pensilvânia, Josh Shapiro, que fez uma campanha brilhante e obteve quase 60% dos votos neste importante ‘swing-state’”, lembrava Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana, em declarações à Lusa logo após a noite eleitoral.

No artigo no The New York Times, Bruni realçou ainda o nome de Gretchen Whitmer, uma Democrata que ganhou a sua reeleição como governadora, no eleitoralmente importante estado de Michigan, com uma margem confortável e revelando qualidades políticas que têm sido elogiadas por diferentes setores do seu partido.

Os analistas concluem que, apesar deste clima de dúvida sobre as lideranças dos dois partidos, os eleitores preservaram a normalidade democrática e o sistema eleitoral norte-americano provou ser resiliente, depois dos preocupantes sinais ilustrados pelo ataque ao Capitólio, em 06 de janeiro de 2021.

“O sistema funcionou, com eleições múltiplas realizadas em todos os 50 estados e lugares disputados de forma acalorada a serem decididos pacificamente, mesmo por margens estreitas. Muitos dos ‘negacionistas’ eleitorais que concorreram em várias destas eleições foram derrotados”, argumentou Leslie Vinjamuri.

Contudo, como escreveu Eugene Robinson, colunista do jornal Washington Post, o “fantasma” deste ‘negacionismo’ político ainda vai continuar a pairar nos corredores do Capitólio, e Trump dificilmente abdicará do seu plano de procurar uma recandidatura, apoiado por um “exército de fanáticos”.

“Os Republicanos que dizem que a era Trump acabou e a era Ron DeSantis começou são culpados de otimismo infundado. Trump nunca irá abrir mão voluntariamente do controlo sobre o seu partido. Nem os seus seguidores abandonarão um movimento que é mais um culto do que partido político”, avisa Robinson.

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