“Interessa-me chegar a milhares de pessoas e desafiar artistas a trabalhar em sítios e em suportes diferentes”

Julião Sarmento, António Bolota e João Seguro são os próximos artistas a intervir nos Contentores. O projeto já tem, até 2017, três edições asseguradas no Museu da Electricidade, garante ao OJE o diretor artístico, Sandro Resende.   O próximo Contentores já tem data marcada: 9 de abril de 2015. Como nasceu o projeto, que conta […]

Julião Sarmento, António Bolota e João Seguro são os próximos artistas a intervir nos Contentores. O projeto já tem, até 2017, três edições asseguradas no Museu da Electricidade, garante ao OJE o diretor artístico, Sandro Resende.

 

O próximo Contentores já tem data marcada: 9 de abril de 2015. Como nasceu o projeto, que conta com cinco edições em diversos locais – Docas de Alcântara, Centro Cultural de Belém, Guimarães (no âmbito da Capital da Cultura), Bienal de Liverpool, Terreiro da Missa (Belém) e Museu da Electricidade?
Os Contentores nasceram há cinco anos. Na minha prática artística sempre desenhei peças nas quais gostaria de intervir. Na altura projetei uns elementos escultóricos que por si só eram uma instalação, mas também podiam receber obras e ser intervencionados no seu interior, cumprindo uma dupla função. As galerias nunca me entusiasmaram muito e achei que os contentores, que eram tão malditos em Lisboa por encobrirem a vista, seriam umas galerias perfeitas. Além de que, para mim, este objeto tem uma malha muito bonita na cidade, e fazia sentido reutilizá-lo e dar-lhe outro significado, outra utilização que até à data não tinha tido, quer como peça de arte quer como galeria.

Na altura, em 2010, teve apoios financeiros para alavancar um projeto de arte pública tão pouco convencional?
Não, comecei com zero apoios. O primeiro passo foi angariar apoios logísticos, como empréstimos de gruas e materiais similares. Depois falei com alguns artistas amigos e com outros que não conhecia tão bem. Mas desde o início considerei importante começar com artistas com nome, como Luísa Cunha, Bruce Nauman ou José Pedro Croft.

Acabou de firmar com a Fundação EDP uma parceria que irá permitir novas edições – em que consiste?
Trata-se acima de tudo de um processo curatorial, ou, se preferir, de uma partilha de direção artística com João Pinharanda, programador cultural da Fundação EDP. A parceria surge no seguimento do sucesso das intervenções de Gabriela Albergaria e Luísa Mota nos Contentores em abril deste ano, no Museu da Electricidade.

Além da co curadoria do projeto, a Fundação EDP dará algum apoio financeiro?
Sim, não é um apoio muito expressivo, são 5 mil euros por ano. Mas confesso que não fazia muita questão de ter este apoio, porque tenho sempre garantida a sustentabilidade do projeto desde o início. Podia realizá-lo lá ou noutro sítio, mas é interessante fazer estas novas edições com o João Pinharanda e por um período de três anos. Os contentores ficam em exposição dois meses, depois são retirados e voltam no ano seguinte, para não “pesar”.

Estamos a falar de quantos contentores e de quantos artistas?
Quatro contentores, quatro artistas, durante dois meses.

Pedro Cabrita Reis, Jorge Molder, José Pedro Croft, Paulo Mendes, Alexandre Farto (Vhils), Luísa Cunha, Miguel Palma, e até o americano Bruce Nauman, foram alguns dos nomes que já realizaram obras site-specific para o projeto. Que nomes podemos esperar para abril de 2015?
De momento tenho três nomes confirmados: Julião Sarmento, António Bolota e João Seguro. O último ainda não está confirmado, mas gostava que fosse a Adriana Varejão.

Coloca algum tipo de premissas aos artistas quando os desafia a fazer uma intervenção site-specific nos Contentores?
Nenhuma, a ideia é eles perceberem que o contentor, por si só, já é uma peça. Têm liberdade total para fazerem o que quiserem, fora ou dentro daquele objeto, mas o contentor é sempre a peça principal, o tema escultórico.

A P28 – Associação de Desenvolvimento Criativo e Artístico, que promove estes projetos e da qual é fundador, começou por desenvolver um programa de exposições de arte contemporânea em pavilhões de internamento desativados no antigo Hospital Júlio de Matos, atual Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa. Ainda continua a desenvolver este trabalho?
Continuo. O Pavilhão 28 foi o mais situado e o mais popular. Durante quatro anos fizemos mais de 100 exposições de arte contemporânea, por onde passaram quer artistas consagrados quer mais jovens. Foi muito bom para o meu trabalho porque funcionou como uma espécie de filtro para outros projetos como os Contentores. Mas antes houve outros pavilhões devolutos, menos conhecidos, que também acolheram exposições de arte contemporânea, como o Pavilhão 21, o 27 ou o 24.

Além de si, quem faz parte da P28?
Apenas uma pessoa, o José Azevedo, que faz exatamente a mesma coisa. Pode ter menos visibilidade mas, tal como eu, faz direção artística, coordenação e tudo o que é preciso fazer na P28. O José Azevedo vem da área da fotografia.

O Sandro é uma figura “curiosa” no meio artístico. Tem desenvolvido exposições em locais não convencionais. Lembro-me de projetos seus no Centro Comercial Alegro, o Espaço ao Cubo (em 2009), mais recentemente o projeto Janela nas carruagens da CP (2013), ou o Outdoors, promovido pela revista Sábado, que também resultou de uma parceria com a P28. Porquê a escolha deste tipo de espaços para mostrar arte contemporânea?
Os “não-lugares” interessam-me muito mais que uma galeria. Interessa-me intervir em sítios que sejam insólitos e onde haja pouca intervenção a nível artístico. Inte-ressa-me chegar a milhares de pessoas e desafiar artistas a trabalhar em sítios e em suportes diferentes. Neste momento estou a desenvolver com o Centro Português de Serigrafia um suporte completamente diferente, trata-se de um objeto que se transforma, é moldável e vai intervir no próprio desenho.

Diria que o suporte é o mais importante para si, quer na prática artística, quer na programação?
Sim, o suporte para mim é bastante importante. É importante que o suporte fale por si. Um comboio não é um papel branco, os outdoors e os mupis não eram simples papéis brancos. Interessa-me trabalhar este tipo de suportes porque chegam a milhares de pessoas.

É fácil apresentar um projeto de arte contemporânea a entidades como a CP, um centro comercial ou um hospital psiquiátrico, cujas atividades estão, aparentemente, tão longe deste tipo de produção artística?
Não, não é nada fácil. Já levámos muitas negas e continuamos a levar hoje em dia, mas o acaso é importante. No meio disto tudo, existem pessoas que estão à frente de grandes grupos que têm uma visão diferente e arriscam. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Espaço ao Cubo, no Centro Comercial Alegro Alfragide, em que a diretora do centro, Filomena Conceição, arriscou criar um espaço artístico dentro de um espaço comercial. Mas, no geral, as “cabeças” que nunca trabalharam com arte, nem com estes objetos, não têm muita capacidade de arriscar. É muito difícil chegarmos a uma empresa que consiga dar uma resposta destemida, porque costumamos esbarrar naqueles a quem eu chamo de “porteiros”, ou responsáveis de marketing, porque tudo o que foge ligeiramente ao âmbito da empresa, assusta-os.

Essa resistência por parte das marcas/empresas em acolher projetos originais de arte contemporânea poderá ter a ver também com uma questão de custos?
Não, porque neste momento até consigo apresentar projetos que não têm custo para as empresas, devido aos apoios que já possuímos. Por exemplo, cheguei a propor um projeto à Carris, semelhante ao da CP, que consistia em revestir os elétricos com obras de artistas consagrados a custo zero e não houve qualquer interesse.

Tem ideia, por exemplo, do retorno/notoriedade que o projeto Janela, que levou a arte a viajar entre milhares de pessoas nas carruagens de Lisboa e Porto nos comboios urbanos da CP, trouxe a esta entidade?
Sim, nesse caso tenho números concretos: trouxe visibilidade na ordem dos 500 mil euros. Foi muito bom. O projeto Outdoors [com fotografias de Jorge Molder], que desenvolvemos com a revista Sábado na Av. das Forças Armadas, também teve grande visibilidade. São exposições muito bonitas, com grande visibilidade e com um custo muito baixo.

Como garante a P28 a sustentabilidade financeira?
Temos alguns financiamentos e uma gestão muito controlada. Tanto eu como o Zé abdicamos de fees gigantes e poupamos. Ao longo destes cinco anos fomos poupando os financiamentos que tivemos por parte da Liscount, da Manvia e da Câmara Municipal de Lisboa (na primeira edição dos Contentores). Depois desenvolvemos parcerias estratégicas, com as quais poupamos também algum dinheiro.

Qual é para si o maior desafio da arte contemporânea?
Gostava que a arte contemporânea não fosse tão elitista, gostava que as pessoas olhassem para a arte de uma forma mais “tranquila”. Muitas vezes não se percebe o que é bom e o que é mau. O mercado, por vezes, bloqueia a “pureza” dos objetos e da produção artística.

Se lhe dessem um local à escolha em Portugal em que pudesse intervir, onde seria?
Um grande espaço abandonado junto ao rio. Gostava de construir um centro cultural com 50 contentores todos abertos para o meio.

Recomendadas

Preços da energia em Itália vão subir ainda mais apesar de já estarem elevados

O Executivo de Roma já dedicou este ano 60 mil milhões de euros a medidas para procurar reduzir o impacto da subida destes preços.

Crise/inflação: Costa recusa razões para alarmismo sobre panorama dos créditos à habitação

António Costa procurou assegurar que o seu Governo está “atento” face ao impacto da subida dos juros nas prestações a pagar pelas famílias com créditos à habitação.

Alemanha não vai seguir “política fiscal expansionista” do Reino Unido

O Governo alemão anunciou um fundo de 200 mil milhões de euros destinado a proteger consumidores e empresas do aumento dos preços do gás impulsionado pela guerra na Ucrânia.