Investir na industrialização de África é uma questão de direitos humanos, diz especialista

O que está errado, explicou Pamela Coke-Hamilton à Lusa, é um sistema construído nos últimos dois séculos, mas que continua praticamente inalterado, de “remoção contínua de bens de África, das Caraíbas”, aos quais é acrescentado valor, e que depois é comprado de volta.

A diretora executiva do Centro Internacional de Comércio defende que “há algo sistemicamente errado” na forma como o comércio internacional ainda funciona e diz que investir na industrialização de África “é uma questão de direitos humanos básicos”.

O que está errado, explicou Pamela Coke-Hamilton à Lusa, é um sistema construído nos últimos dois séculos, mas que continua praticamente inalterado, de “remoção contínua de bens de África, das Caraíbas”, aos quais é acrescentado valor, e que depois é comprado de volta.

O sistema permite, exemplificou, que o café africano seja vendido por seis mil milhões de dólares, mas os produtos finais desse mesmo café, transformado fora do continente, rendam 100 mil milhões, uma diferença de valor acrescentado de 94 mil milhões de dólares (mesmo valor em euros).

Para a responsável, que falou à Lusa à margem de um fórum afro-caribenho de investimento e comércio que decorreu em Barbados na semana passada, é preciso mais do que industrializar África, é preciso uma “mudança de mentalidade”.

“É preciso que os países que compram, ou que retiram os produtos de África também reconheçam a importância de investir nestes países e de manter o valor lá, tanto para fins de desenvolvimento, de recursos humanos, mas também por uma questão de direitos humanos básicos e dignidade humana”.

“Séculos depois, continuamos a fazer a mesma coisa. Não seria bom termos chocolate feito em África, onde o cacau é produzido? A Bélgica e a Suíça não produzem cacau e são os maiores exportadores” de chocolate, exemplificou.

Coke-Hamilton acrescentou ainda que as grandes empresas e os países ricos que transformam os produtos produzidos em África não têm de abdicar de nada, só têm de mudar o sítio onde fazem essa transformação, mas ainda podem ganhar dinheiro com África.

“É apenas uma questão de transferir seus recursos de uma forma que desenvolva ainda mais África e, assim, produza mais oportunidades para eles. Não tem de haver perdas, pode ser uma situação de vantagem mútua”.

Organizado pelo Banco Africano de Exportações e Importações (Afreximbank) e o Governo de Barbados sob o lema “Um Povo. Um Destino. Unir e Reimaginar o nosso Futuro”, o AfriCaribbean Trade and Investment Fórum (ACTIF2022), decorreu em Barbados entre 1 e 3 de setembro para fortalecer os laços económicos entre África e as Caraíbas, região que a União Africana considera a sexta região de África.

O Centro Internacional de Comércio (ITC, na sigla em inglês) é uma agência multilateral que possui um mandato conjunto com a Organização Mundial do Comércio e as Nações Unidas através da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.

Com sede em Genebra, o ITC apoia os países menos desenvolvidos a melhorar a sua participação na economia mundial e a realizar os seus objetivos de desenvolvimento através das exportações.

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