Irão: Dois dias para salvar um acordo demasiado ausente das negociações

Os países envolvidos no Acordo Nuclear de 2015 comentam propostas, comentam comentários e comentam posturas, num quadro em que cada vez menos analistas acreditam que as negociações na capital da Áustria possam ser bem-sucedidas.

Raheb Homavand / Reuters

As negociações entre o Irão e os países signatários do Acordo Nuclear de 2015 foram retomadas esta quinta-feira em Viena, capital da Áustria, mas os observadores estão cada vez mais convencidos que o seu destino é o fracasso. As próximas 48 horas serão cruciais e a resposta está neste momento nas mãos do Irão: o regime de Teerão apresentou na semana passada uma proposta que considerava “concreta” e que deveria servir como base de trabalho entre todos, mas a leitura dos restantes membros da mesa foi bem diversas. De facto, os países presentes em Viena foram unânimes em considerar que o único facto concreto da proposta iraniana era a repetição de que o levantamento das sanções internacionais sobre a economia do país teriam de ser o primeiro passo.

Ora, não só não há qualquer novidade nesta imposição de uma linha vermelha que, pelos vistos, Teerão não quer ultrapassar, como, repetindo inúmeras declarações anteriores, o grupo P5+1 (Alemanha, China, Estados Unidos (indiretamente), França, Reino Unido e Rússia) disse que não pode estar sentado à mesa sob a influência de um ultimato. E pediram ao Irão “propostas realistas” para facilitar as negociações.

O diplomata da União Europeia Enrique Mora, que presidiu à reunião desta quinta-feira dos signatários que restam do acordo – Irão, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia e China – disse depois que sentiu “um renovado senso de propósito sobre a necessidade de trabalhar e alcançar o regresso do acordo”. “Se isso será confirmado e reforçado por negociações sobre os detalhes, veremos nos próximos dias”, disse.

Já o principal negociador do Irão nas negociações insistiu que Teerão leva as negociações a sério e enfatizou que o seu país está pronto para as continuar com base nas posições anteriores. “O Irão leva a sério a possibilidade de chegar a um acordo se o terreno for propício. O facto de todos os lados desejarem que as negociações continuem mostra que todas as partes querem diminuir as lacunas”, disse Ali Bagheri Kani.

O andamento das negociações nos próximos dias será crucial para que os Estados Unidos – que, não fazendo parte do acordo desde 2018, não estão em Viena – decidam enviar ou não à Áustria uma delegação liderada por Robert Malley, o especialista do Departamento de Estado para o Irão, no fim-de-semana. Um porta-voz do Departamento de Estado disse esta semana que os Estados Unidos esperam que a ronda de negociações que teve início esta quinta-feira “prossiga de forma diferente”.

Mas a sensação que existe em Viena, segundo as agências que ali se encontram diretamente, é que as negociações não vão ser bem-sucedidas – principalmente pelo tempo que os envolvidos gastam a debater questões colaterais que nada têm a ver com o acordo. Assim, as últimas declarações do negociador do Irão têm a ver com o que a Comissão Europeia disse sobre o curso das negociações e que, afirmou, “não tinham sido construtivas”.

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