Irão: Manifestações multiplicam-se na Alemanha pela “mudança” que “só uma revolução poderá trazer”

Niema Movassat, antigo vice-presidente do grupo parlamentar alemão-iraniano, acredita que o regime iraniano liderado pelo presidente Ebrahim Raisi “não aceitará mudanças”, sendo a única saída “uma revolução”.

“O regime no Irão é uma ditadura. O povo já está farto. Tem havido protestos repetidamente no passado. Mas nada melhorou (…) Este regime não melhorará nada voluntariamente. A sua única resposta é prender e disparar contra os manifestantes”, sublinhou Movassat, antigo membro do parlamento pelo partido Die Linke (A Esquerda).

“O regime não aceitará mudanças. Aqueles dentro do regime iraniano que queriam uma reforma foram marginalizados. Penso que só uma revolução pode trazer mudanças”, destacou, em declarações à agência Lusa.

De Berlim a Hannover, passando por Colónia, vários protestos e concentrações continuam a ser marcados nas redes sociais um pouco por toda a Alemanha. Manifestações desencadeadas depois da morte de Masha Amini, que acabou por morrer três dias depois de ser presa, acusada de “trajar roupas inadequadas”.

Para Ida, iraniana a estudar na Alemanha, que prefere não divulgar o apelido, nada vai mudar “enquanto este regime estiver no poder”.

“Conseguirmos ver mudanças ou não, vai depender totalmente do resultado do que está a acontecer neste momento dentro e fora do Irão”, revelou a jovem, que lançou recentemente uma petição a pedir o apoio do chanceler Olaf Scholz ao povo iraniano”.

“O povo iraniano não quer apenas justiça para Mahsa Amini (…) nem simplesmente uma situação mais ou menos melhor para as mulheres, onde a polícia de moralidade é revogada e as mulheres podem ir lá para fora sem usar ‘hijab’ (véu). Não me interpretem mal, claro que queremos tudo isso, mas também queremos tantas outras coisas como a liberdade para todos, liberdade de expressão, de religião, liberdade de imprensa, entre outras”, realçou.

“Não há nenhuma reforma ou alternativa à atual ditadura e regime corrupto que nos possa dar o que aqui exigimos. Penso que o povo iraniano está a lutar por um governo secular e democrático. É por isso que menciono sempre que o que se passa no Irão já não se deve chamar manifestação, porque se transformou numa revolução”, acredita Ida, recordando que também ela foi obrigada a usar ‘hijab’ mal fez 7 anos.

No Irão, é obrigatório cobrir o cabelo em público. A polícia fiscaliza ainda as mulheres que usam casacos curtos, acima do joelho, calças justas e ‘jeans’ com buracos (ou rotos), além de roupas coloridas, entre outras regras.

A ativista iraniana Daniela Sepehri, que tem participado em vários atos públicos realizados na Alemanha, concorda: “uma mudança só será possível com a mudança do regime”.

“Os líderes da República Islâmica não querem que o seu poder seja menor. Com este regime, uma mudança não é possível, pelo menos nenhuma mudança real (…) O povo quer acabar com a era da República Islâmica e espero que tenham sucesso com isto, porque merecem a liberdade após 43 anos”, apontou, em declarações à Lusa.

Para Iman, nascido em Teerão e a viver há 12 anos na Alemanha, é impossível não sentir angústia e dor ao acompanhar as notícias do seu país. Tanto a sua família, como a da mulher, continuam a viver no Irão.

“Participei ativamente nos protestos em 2009 no Irão. Nessa altura, eu estava na universidade. Fui espancado na rua, mas tive sorte e não fui capturado. Mas ser espancado não foi tão mau como ver outros a serem espancados e levados (…) Aqueles dias ainda são muito sombrios para mim”, recordou, em declarações à Lusa.

“O problema foi que acreditámos numa mudança através de vias democráticas. Mas esta ditadura ideológica não vai tolerar tal coisa e reage violentamente. Acredito que tudo irá mudar no futuro, e espero que esse futuro não esteja muito longe”, partilhou.

Para a ativista Daniela Sepehri, um referendo é necessário caso o regime seja derrubado. O jurista Niema Movassat aposta numa espécie de Conselho Nacional de Oposição “onde todas as forças possam trabalhar em conjunto”.

“A oposição política deve estar preparada para assumir o governo. Há uma necessidade de os conselhos de resistência no Irão coordenarem a resistência no terreno”, definiu, acrescentando, ainda assim, que o regime “não cairá amanhã”.

Ida já imagina um Irão livre.

“Tudo o que a República Islâmica trouxe ao Irão foi terrorismo, radicalismo, fanatismo, sanções, e violações dos direitos humanos. Consigo imaginar que um Irão livre não só seria benéfico para o povo iraniano, como também resolveria muitos problemas globais, tais como chantagem nuclear, problemas relacionados com asilo em países ocidentais, e tensões no Médio Oriente”, desejou.

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