Irredutíveis

Que acordo podemos esperar? Uma coisa mal-amanhada, fechada à última hora, que vai falhar nos detalhes porque as coisas improvisadas falham sempre nos detalhes. Certo é que justificará uma dúzia de cimeiras.

“Três pontos resistem ainda e sempre no Brexit: as pescas; a definição do level playing field (regras de concorrência e ajudas de Estado); e a governance do próprio acordo. É curioso como os britânicos põem tudo em causa no primeiro, quando o setor representa 0,1% da economia britânica e 24 mil empregos. Johnson até terá mandado preparar quatro navios da Royal Navy para defender as águas dos pescadores franceses. E não deixa de ser curiosa a questão levantada pelos franceses sobre as ajudas de Estado, atendendo aos níveis de auxílios comparados dos dois países.

Diz William Hague no “Daily Telegraph” que as relações entre franceses e britânicos foram sempre “tortuosamente complexas”; um eufemismo quando falamos das nações que travaram a guerra dos 100 anos, que durou mais de cem anos porque, como no Brexit, não conseguiram chegar a acordo sobre quando parar.

Que acordo podemos esperar? Uma coisa mal-amanhada, fechada à última hora, que vai falhar nos detalhes porque as coisas improvisadas falham sempre nos detalhes, e que vai dar problemas na sua governação por causa da autorreferência de se aplicar à sua própria governação – uma espécie de versão política do teorema de Godel. Ocupará centenas de burocratas e justificará uma dúzia de cimeiras.

Entretanto, um simulacro de controlo aduaneiro feito em Folkstone, à entrada do Eurotúnel, criou uma fila de camiões de oito quilómetros. Ao mesmo tempo a Covid reduziu as ligações marítimas com o Continente (em Calais, operam 7 barcos em vez de 9), o que diminuiu entre 1.000 e 1.200 o número de camiões que atravessam o Canal, isto quando os britânicos armazenam produtos europeus e o número de camiões aumenta dos 10 a 12 mil para mais de 16 mil. Os modernos parques de campismo terão camiões TIR em vez de roulottes.

Como vai Johnson, que Starmer acusa de “serial incompetence”, descalçar esta bota? Para ele pode ser mais fácil um “no deal” que agradar a gregos e troianos do seu próprio partido, um potencial conflito de interesses. A ideia que se gerem ligações entre Ilhas e Continente como um Uber Eats maior é miragem. Josh Hardie, da Confederação da Indústria Britânica, lembra que mesmo um acordo de última hora não impede “a vaga de red tape” de 1 de janeiro.

Make UK avisa que a incerteza fará parte da economia “hibernar” em 2021. O Office for Budget Responsibility estima a perda de produção em 4% no médio prazo se houver acordo, 6% se não houver (a Bloomberg põe o custo do no deal a 1,5% do PIB em vez de 2%), muito superior à queda do PIB britânico de 11% one shot em 2020 devida à Covid. Para a União, o custo é posto em 0,3% por ano, embora atinja 2% na Irlanda, muito menos que no Reino (por enquanto) Unido. O Brexit foi um ato de fé; resta ver se não é também um regresso da autoflagelação.

Recomendadas

Combater a inflacção: um tempo de algum sacrifício e perseverança

É inegável que nos deparamos globalmente com um atípico surto inflaccionista, em muito determinado  por circunstâncias disruptivas que a guerra na Ucrânia fez explodir, nomeadamente na questão central do fornecimento e do preço dos bens energéticos e também dos bens alimentares de base.

Agressão ginecológica: um episódio, apenas

Não será tempo de expormos mais abertamente a violência ginecológica a que nós mulheres somos expostas? Sim. E nada desculpa este cenário, nem a luta entre médicos ginecologistas e Governo. A cada agressão deve corresponder uma queixa formal. Só assim podemos dizer com propriedade: “Sou dona do meu corpo. Exijo respeito, seja em que circunstâncias for”.

Winter is coming

Já repeti este título em crónicas anteriores, mas este inverno provavelmente vai ser o mais difícil que atravessei.
Comentários