Isabel, a rainha em que até os republicanos votariam

Isabel II teve sempre o cuidado de não expressar opiniões em público que pudessem colocar em causa a neutralidade da coroa em questões políticas.

A rainha Isabel II foi uma personalidade notável. Creio que até os republicanos britânicos serão obrigados a reconhecer este facto. Notável na sua longevidade, com um reinado de 70 anos e 214 dias (apenas superado pelo do rei francês Luís XIV, que ao contrário de Isabel era uma criança quando ascendeu ao trono). Notável na popularidade, mesmo durante os anos difíceis que se seguiram à morte da princesa Diana. E notável sobretudo na forma inteligente como exerceu o discreto poder que a monarquia britânica possui.

Centremo-nos neste aspeto. Como compete a uma soberana constitucional, Isabel II reinou sem governar, tendo apenas os três poderes de que falava Bagehot: ser ouvida pelo primeiro-ministro em funções; aconselhá-lo a seguir determinado caminho; e preveni-lo em relação a outros. Ao longo do seu reinado, em que lidou com mais de uma dúzia de primeiros-ministros, Isabel II levou esta máxima à risca, mas fez mais do que isso.

A dignidade com que exerceu a sua missão grajeou-lhe um respeito praticamente universal, incluindo entre aqueles britânicos, australianos, canadianos e neozelandeses que se consideram republicanos. E qual foi o segredo de Isabel para conseguir isto? Além de uma vida pessoal imaculada (nunca a apanharam em escândalos, ao contrário do tio, da irmã e de dois dos seus filhos, incluindo o que lhe sucedeu), a rainha teve sempre o cuidado de não expressar opiniões em público que pudessem colocar em causa a neutralidade da coroa em questões políticas.

Se pensarmos bem, é de facto incrível que uma pessoa tenha estado sob os holofotes durante mais de 70 anos, mas ninguém lhe conheça uma única opinião ou posição pública sobre qualquer tema minimamente fracturante. Isabel levou tão a sério a missão que lhe foi confiada ao ponto de anular parcialmente a sua própria personalidade, de maneira a poder representar as nações sobre as quais reinava.

Tornou-se com isso uma figura consensual. De facto, a rainha não era polémica, porque nada do que dizia em público ia contra o sentimento geral dos povos. No entanto, quando necessário falava em público, frequentemente para levantar os ânimos, como se viu na sua intervenção durante o período mais negro da pandemia de Covid-19. E devido a esta forma de estar, conseguia ter uma enorme influência, quer nos bastidores, quer junto da população, porque era verdadeiramente respeitada até por aqueles que preferiam poder eleger o seu chefe de estado.

Com isto, Isabel II conseguiu ter mais poder do que a expressão “rainha de Inglaterra” faz crer, ou até do que os poderes de reserva que a constituição não-escrita britânica atribui ao monarca (e que lhe permitem ter um papel chave em determinadas situações extraordinárias). O seu reinado e o sucesso que obteve em preservar a monarquia, contra ventos e marés, é a prova de que saber gerir o silêncio vale ouro.

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