Isolamento de 10 dias “já não se justifica”. Bastonário defende a realização de um teste ao 7º dia de quarentena (com áudio)

O Bastonário da Ordem dos Médicos defende que um isolamento de 10 dias “já não se justifica” e que este deve ser reduzido para sete com a obrigação da realização de um novo teste. Ao Jornal Económico e na sequência do aumento de novos casos e aumento da pressão sobre os hospitais e serviços de urgência, Miguel Guimarães apela que o mecanismo de apoio de 400 camas do sector privado seja equacionado “o quanto antes.

Depois dos Estados Unidos e a região Autónoma da Madeira terem reduzido o período de isolamento para cinco dias e Espanha para sete, os olhos começam a virar para a Direção-Geral de Saúde sobre a possibilidade da recomendação ser também adotada em Portugal.

Depois do Governo ter remetido a decisão para a diretora-geral, Graça Freitas anunciou na noite passada que a DGS deverá atualizar a norma “nas próximas horas”, uma medida que para o Bastonário da Ordem dos Médicos peca por tardia

“O tempo de isolamento deve ser revisto”, defendeu Miguel Guimarães ao Jornal Económico. “Neste momento é de 10 dias já não se justifica. Já conhecemos as regras, temos um maior conhecimento do vírus e temos uma cobertura vacinal bastante elevada. Neste momento já não faz sentido”, argumenta.

No entanto, a redução que defende é de 10 para sete dias, isto porque uma redução para metade do período agora em vigor “deve ser avaliado, e possivelmente aplicado por fases”.

“Diria que temos que passar para os sete dia. Os cinco dias não daria para todas as pessoas. Teria que ser para pessoas completamente vacinadas. Neste momento penso que se justifica passar o período de isolamento de dez para sete dias, e depois, mais para frente, considerar um isolamento de cinco dias para, provavelmente, os doentes covid já vacinados”, disse, sugerindo ainda que um doente covid numa fase final do período de isolamento “devia fazer um teste ao sétimo dia para comprovar se está negativo, ou não”.

Segundo Graça Freitas, “Portugal está a fazer o mesmo que a grande maioria dos países da Europa e do mundo que é equacionar o período de isolamento. Neste momento, a decisão ainda não está encerrada e vamos esperar mais umas horas”, referiu Graça Freitas. A atualização do período de isolamento deverá ser anunciada ainda esta quinta-feira.

“É com base na informação que nos vai chegando que se consegue perceber qual é o período ideal para equilibrar entre a segurança, as pessoas não saírem precocemente, mas também não ficarem retidas em isolamento demasiado tempo”, acrescentou.

Bastonário apela que reforço de 400 camas com setor privado seja “equacionado o quanto antes”

Numa altura em que os casos diários atingem novos máximos, começa-se a agravar a pressão sobre os hospitais. No último relatório epidemiológico da Direção-Geral de Saúde (DGS), encontravam-se internados em enfermaria 971 doentes, mais 35 do que esta terça-feira.  E embora os números ainda se encontrem longe das linhas vermelhas — estão atualmente 151 utentes internados nas unidades de cuidados intensivos (UCI), sendo que o limite é de 245 camas ocupadas — o Bastonário da Ordem dos Médicos apela que o Governo acione o mecanismo de cooperação com o sector privado “o quanto antes”. Mecanismo este que já está pronto, de acordo com a ministra da Saúde.

“Temos preparados contratos com sector privado e social e também há uma articulação com o sector militar. Temos contratualizadas mais de 400 camas para reforço dos hospitais com o setor privado“, adiantou Marta Temido em entrevista no Telejornal da RTP, na passado dia 22 de dezembro.

E embora sejam boas notícias, pois este número poderá evitar que sejam transferidos doentes para o estrangeiro ou sejam recrutados profissionais de saúde estrangeiros como aconteceu em fevereiro deste ano, Miguel Guimarães urge que o mecanismo seja acionado.

“Neste momento, dado o número elevadíssimo de doentes Covid, dada a dificuldade de acesso aos serviços de saúde e a situação caótica que se vive em alguns serviços de urgência, é fundamental equacionar esta medida com o sector privado o quanto antes”, referiu ao Jornal Económico (JE), argumentando que a medida vai permitir “libertar os médicos de família” da sobrecarga que é fazer o acompanhamento diário de doentes covid não tão graves. “Os profissionais do sector privado podem fazer esse acompanhamento”, sugeriu.

“Mais do que o apoio estrangeiro, porque temos no sector privado e social muita capacidade em termos logísticos, de camas e profissionais de saúde, esta ajuda deve ser ativada o quanto antes para garantir a qualidade de resposta”, frisou.

A medida, tal como referiu, poderá ajudar a libertar a pressão exercida pelos médicos de família que, de acordo com a norma 004 da DGS, estão encarregues de fazer o rastreio e acompanhamento de casos positivos que fiquem em isolamento em casa.

“Os médicos de família precisam de fazer a sua atividade habitual, porque, para os doentes não Covid, a principal porta de entrada são os cuidados de saúde primários e é fundamental que os médicos de família estejam libertos desta função”, apelou, sugerindo que os utentes que teste positivo mas com uma sintomatologia reduzida “deviam ter uma linha própria para se poderem dirigir no caso de haver um agravamento de sintomas e não estarem a ser seguidas diariamente”, conclui.

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