Itália resiste à catástrofe

Bolsa e dívida aguentaram demissão de Renzi, apesar de a Moody’s ter baixado o ‘rating’. Banca pode ser alvo de resgate ‘à espanhola’.

Tony Gentile/Reuters

Parece ser cada vez mais certa uma intervenção externa na economia italiana: os analistas europeus antecipam que o próximo governo, seja ele qual for, terá de pedir um resgate ‘à espanhola’, ou seja, um pacote financeiro destinado exclusivamente à recuperação do muito depauperado setor bancário.

Mas nada disto tem diretamente a ver com a vitória do ‘não’ no referendo à Constituição e com a consequente demissão do primeiro-ministro Matteo Renzi: os problemas da banca italiana estão identificados há vários anos e a catástrofe que os analistas do mercado antecipavam para o dia seguinte ao referendo se o ‘não’ ganhasse, afinal não se verificou.

O histórico dos juros da dívida soberana – nomeadamente as ‘yields’ a dez anos – desde a segunda-feira passada (o primeiro dia depois da vitória do ‘não’), permitem concluir que o mercado absorveu a decisão dos eleitores de forma razoavelmente ‘pacífica’: abriu em alta, desceu nos dois dias seguintes (até um mínimo de 1,895%) e só ontem voltou a subir, como reação à decisão do Banco Central Europeu de manter o programa de alívio quantitativo até pelo menos dezembro de 2017.

Este histórico segue em linha com as dívidas soberanas das economias periféricas do euro – não tendo o mercado dado mostras de ter reforçado as reservas em relação à economia italiana, apesar de a agência Moody’s ter ‘feito o favor’ de, na noite de quarta-feira, baixar a perspetiva sobre a dívida italiana de ‘estável’ para ‘negativa’. As bolsas italianas responderam da mesma forma: o índice Itália 40 abriu em baixa na segunda-feira, mas atingiu ontem um máximo de 18.355 pontos, depois de ter passado toda a semana em alta.

A decisão do BCE de prolongar a compra de dívida soberana – mesmo que regressando a um gasto mais ‘conservador’ de 60 mil milhões de euros por mês – permite concluir que o banco central vai continuar a apoiar a manutenção dos juros das economias periféricas em patamares aceitáveis, no que, como não podia deixar de ser, incluirá a Itália.

Mas nada disto é suficiente para ‘limpar’ o setor financeiro italiano. Desde logo porque o banco Monte dei Paschi, o mais antigo do mundo e o terceiro maior do sistema italiano, dá mostras de não conseguir engendrar uma estratégia de gestão que o coloque a salvo do descalabro. Ainda esta semana o banco pediu mais tempo ao BCE para concluir a recapitalização, necessária desde que, em 2007, comprou o banco Antonveneta por 9,3 mil milhões de euros. Em 2011, o Monte dei Paschi falhou os testes de ‘stress’ europeus devido a um défice de capital de 3,3 mil milhões, o que acabou por determinar a substituição da administração.

Em 2013, o governo injetou 4 mil milhões de euros na instituição, que, em junho de 2014, conseguiu arrecadar 5 mil milhões em capital fresco e reembolsar 3 mil milhões ao Estado. Mesmo assim, o banco volta a falhar os testes de ‘stress’ em novembro desse ano, levando o BCE a assumir o papel de supervisor. O banco é oficialmente declarado para venda, consegue pagar o resto do empréstimo do governo em 2015 e, já este ano, anuncia plano para um aumento de capital de cinco mil milhões de euros.

Ora, os analistas antecipam que este plano é de muito difícil concretização, o que poderá fazer com que o Monte dei Paschi tenha de ser resgatado. E se isso acontecer, a possibilidade de contaminação de todo o setor é muito forte: Unicredit, Popolare di Vicenza, Veneto Banca, Banca Etruria e CariChieti são apenas algumas das instituições mais afetadas – num setor que conseguiu acumular 360 mil milhões de euros de crédito duvidoso.

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