Ivan Jablonka: “A misoginia dos homens está condenada a desaparecer”

O livro-sensação da rentrée literária francesa de 2016 foi editado em Portugal. Conta-nos a história de uma jovem de 18 anos, brutalmente violada e assassinada, que o sociólogo e historiador francês quis resgatar ao esquecimento. Pretexto para falar da violência masculina e do papel dos homens na luta pela igualdade de género.

Cristina Bernardo

Em janeiro de 2011, Laëtitia Perrais, de 18 anos, foi raptada, violada, morta e desmembrada. A opinião pública francesa mobilizou-se, o poder político instrumentalizou o caso e Ivan Jablonka decidiu que seria o ponto de partida para fazer o retrato de uma sociedade onde a violência persiste, em particular contra as mulheres. Um relato que cruza registos e géneros e que traz no currículo os prémios Le Monde e Médicis.

Laëtitia – ou O Fim dos Homens recebeu diversos prémios literários. Foi uma surpresa para si?
Antes de mais, fiquei surpreendido por ter recebido prémios literários, tout court. Porquê? Porque sou um historiador e venho do universo das ciências sociais e humanas. Já há alguns anos que defendo que a História é uma forma de literatura contemporânea. Aliás, é o título de um livro que escrevi: L’Histoire est une littérature contemporaine. Ou seja, estudar História é também escrever história. Repare que não usei a expressão ‘ficção’ e menos ainda ‘romance’, mas sim escrita e literatura. Isto para dizer que foi uma surpresa muito gratificante para mim receber diversos prémios. Digamos que é a confirmação de que a História é uma Literatura Contemporânea quando a encaramos como um texto e não como uma dissertação académica.

Escreveu um livro de não ficção difícil de classificar, pois não se enquadra em nenhum género, que venceu o Prémio Médicis na ‘categoria ficção’. Algo está a mudar no mundo dos prémios literários?
Creio que isso mostra uma erudição que considero muito positiva na literatura e também nas ciências sociais e humanas. No caso deste livro, o texto releva da história da investigação em sociologia, mas foi considerado como sendo “digno” de um prémio literário, o que mostra que as ‘fronteiras’ estão a mexer, já não são estanques. Ou seja, um livro de ciências sociais e humanas pode receber um prémio literário e o contrário também, um livro de não ficção pode tornar-se um género literário de pleno direito. Parece-me que as ‘fronteiras’ estão a mudar num sentido muito positivo. E dou o exemplo de um prémio internacional de referência: o Nobel da Literatura. Os três últimos, refiro-me aos anteriores a 2017, foram atribuídos a escritores ou poetas que não escrevem ficção: Patrick Modiano, Svetlana Alexijevich e Bob Dylan. Independentemente da nossa opinião pessoal sobre os premiados, é forçoso reconhecermos que esses prémios foram atribuídos a autores que não se inscrevem nem na ficção nem no romance.

A atribuição do Nobel a Bob Dylan foi polémica. No seu caso, como reagiram os seus pares?
Quem trabalha na área das ciências sociais e humanas, como eu, está habituado à crítica. Mais. É algo que se exige e que faz parte da atividade científica. E ainda bem que aquilo que escrevo suscita debate. Agora que expus as minhas posições literárias e epistemológicas, continuo a acreditar há espaço para o meu ‘estilo’ de escrita. Não vou pôr-me a chorar só porque recebi umas quantas críticas. O debate é algo muito saudável nas ciências humanas e acho que devia ser muito mais natural e recorrente na esfera literária, visto não haver muito o hábito de se fazerem análises críticas.

Escreveu que contar a vida de uma jovem raptada, violada e assassinada aos 18 anos era uma espécie de “missão de serviço público”.
Sou professor de História Contemporânea na Universidade Paris XIII. É a minha profissão. Por definição, integro a administração pública. E, como tal, diria que apenas faço o meu trabalho, isto é, procuro compreender como viveu essa jovem. Se quiser, essa pode ser uma bela definição de História: compreender a vida dos desaparecidos. Não falo de vítimas, mas de desaparecidos. Refiro-me a tentar compreender a vida dos que estão ausentes e a pôr alguma ordem nas suas vidas fragmentadas e atormentadas. Ou, para citar Faulkner, autor que muito aprecio, procurar entender o ‘som e a fúria’ das suas vidas. Contar a vida de Laëtitia e todas as formas de violência que sofreu é escrever história, é mergulhar não apenas na sua vida, mas em dois mil, três mil anos de História, uma vez que a violência de que as mulheres são alvo é algo de milenar. No fundo, é um retrato da nossa sociedade.

Qual foi o método de trabalho que utilizou para a escrita deste livro?
Comecei por colocar uma questão: como é que uma jovem foi destruída no espaço de 18 anos por uma série de agressões e de episódios de violência? Para responder a esta questão, que considero ter um carácter histórico, reuni um conjunto de fontes, falei com testemunhas e diversos intervenientes no processo – de procuradores a juízes, polícias e investigadores criminais. Tive acesso à conta de Facebook de Laëtitia, bem como ao dossiê dos Serviços Sociais, e acompanhei o processo judicial do assassino e o respetivo julgamento. Resumindo, recorri a todos os elementos que pudessem ajudar a esclarecer a questão colocada. É este o meu método de trabalho.

Durante a escrita deste livro debateu com a sua mulher aspetos que possam afetar a vida quotidiana das mulheres?
Não discutimos sobre Laëtitia em particular, mas falámos muito sobre outras questões e foi com ela que passei a ter consciência de que o assédio moral é algo que afeta todas as mulheres. E coisas mais prosaicas como a partilha de tarefas domésticas. Aí faço mea culpa, mas mais não digo! [sorriso]

Este livro escreve um novo capítulo da história das mulheres?
Acho que é um contributo, mas um livro apenas não pode ambicionar a escrever um ‘capítulo’ do que quer que seja. Admito, contudo, que uma das minhas ambições é contribuir para a história das mulheres nos séculos XX e XXI.

Considera-se feminista?
Sem dúvida. Mas importa definir o que é feminismo. E se isso significa lutar pela igualdade de género e contra a discriminação e a violência, claro que me considero feminista. Mas também importa realçar que a história das mulheres é uma história feita de silêncios. Há pouquíssimos arquivos porque as mulheres foram menos ouvidas, menos solicitadas. Escrever a história das mulheres é ouvir o silêncio, estudar o vazio e a ausência.

O mundo laboral é apenas um exemplo da ausência das mulheres no que respeita a cargos de topo e de discriminação quando falamos nas disparidades salariais. A isto acresce a violência doméstica, que é comummente aceite pela sociedade.
Sim, ainda é vista como algo ‘normal’. E essa normalidade é absolutamente insuportável! Muitas vezes sinto-me sozinho, enquanto homem, nesta luta. As mulheres têm consciência dessa realidade, mas, no caso dos homens, são muito poucos os que admitem isso.

Defende a necessidade de quotas para as mulheres?
Existem leis, em França e noutros países, que estabelecem quotas para os conselhos de administração e listas eleitorais, e isso não me choca. Mas, no caso das discriminações contra as mulheres, defendo que é necessária uma abordagem mais ampla, global. As quotas, por si só, não bastam. É preciso uma resposta global para as desigualdades e violências exercidas sobre as mulheres. Isso não vai mudar pela força de uma lei, de um livro, de um debate ou de diferentes reflexões. A mudança terá de passar pelo homem e pelo lugar que o homem vai ocupar na luta contra as desigualdades nos próximos decénios.

Apenas 1% dos investigadores nessa área são do sexo masculino. Ou seja, faz parte dessa minoria. Mas desde quando se interessa pela história das mulheres?
Desde os primeiros anos da faculdade, quando comecei a investigar a história das crianças abandonadas, que tem sempre dois lados: por trás de uma criança abandonada há sempre uma mãe em sofrimento e, na maior parte dos casos, é a mulher quem tem de gerir o drama da separação. O meu estudo centrou-se nos casos registados no século XIX, o que quer dizer que também tive a oportunidade de aprofundar a miséria das mulheres durante esse mesmo período: o seu sofrimento e a violência física e/ou sexual de que foram alvo. Interessei-me por esse tema desde o início e, mais tarde, escrevi alguns livros sobre as relações de género nos séculos XIX e XX, que me permitiram refletir sobre certas realidades.

Essa reflexão contribuiu de alguma forma para a escolha do subtítulo do seu livro: – Ou o Fim dos Homens? Remete para outra definição de masculinidade?
No curto prazo, diria que devemos estar pessimistas. A eleição de Trump, por exemplo. Um homem que se diz, abertamente, misógino é um símbolo vergonhoso do tempo em que vivemos. Os recentes escândalos em Hollywood são mais uma prova disso mesmo. Mas, no longo prazo, penso que as manifestações mais violentas e misóginas tenderão a desaparecer, e é com base nessa premissa que escolhi para subtítulo “o fim dos homens”. No sentido do fim desse género de homens, dos homens que passaram pela vida de Laëtitia e que, no fundo, eram manipuladores, agressores. Diria que essa masculinidade está condenada a desaparecer.

Muitos homens ainda hoje consideram que a questão da igualdade de género não lhes diz respeito.
Sim, mas se olharmos para muitos países que não têm uma tradição feminista, como certos países asiáticos e africanos, verificamos que, cada vez mais, a sociedade civil considera a violência sobre as mulheres como algo insuportável e intolerável. Pelo menos ao nível das autoridades públicas. Um país não pode dizer publicamente que trata mal as mulheres ou que as trata como seres inferiores sem desencadear um escândalo. Em suma, – O Fim dos Homens remete para o fim da impunidade masculina, para o fim de uma violência considerada como uma ‘coisa normal’. Falamos na violência física ou sexual, nos diferentes tipos de assédio, mas há outras formas de violência igualmente graves, como a violência verbal, que tanto pode ser o tom de voz, o desprezo e tentativa de inferiorizar, como expressões insultuosas. Tudo isso é violência psicológica e verbal. Mas creio que é cada vez menos aceite e que caminhamos para o fim de uma masculinidade caraterizada pela dominação e violência. A longo prazo, claro.

O “caso Laëtitia” foi diferente dos outros crimes por se ter tornado um assunto de Estado. O que pensa da instrumentalização política que o então presidente, Nicolas Sarkozy, fez desse crime e o que mudou na Justiça francesa ao fim de seis anos?
Sim, houve coisas que mudaram. Sarkozy já não está no poder e as condições de trabalho dos juízes são um pouco melhores atualmente. Mas aquilo que descrevo como um ‘assunto de Estado’ não diz respeito apenas a França, mas sim a todas as sociedades democráticas. O facto de um político instrumentalizar um fait divers e usar um crime para fazer aprovar leis mais repressivas faz parte do modus operandi das democracias. Isso não mudou nem vai mudar. No fundo, há uma instrumentalização da morte que nos deve fazer refletir sobre o que é a demagogia e o exercício do poder. Neste sentido, nada mudou. É essa a sociedade em que vivemos.

O que é que este caso nos diz sobre a nossa sociedade e o funcionamento das instituições?
Permite-nos refletir sobre vários aspetos da nossa sociedade: desde a violência exercida sobre as mulheres, claro, ao poder, à comunicação social, à justiça, à miséria… porque Laëtitia vinha de um meio muito pobre. Seja como for, não gosto de falar neste caso como um fait divers porque é uma expressão que remete para algo pouco crível. Uma jovem assassinada aos 18 anos não é um fait divers é um fait social (facto social). Ou melhor, é um ‘facto social total’ que nos ajuda a perceber melhor a sociedade em que vivemos. Penso que isso se aplica tanto a França como a Portugal. O facto de Laëtitia se ter tornado um ‘assunto de Estado’ mostra que há uma profunda incompreensão sobre a violência quotidiana a que algumas mulheres estão sujeitas, e sobre os homens e mulheres que vivem na miséria, ou seja, que são alvo de violência social. Aliás, a sua morte ensinou-nos algo sobre três pilares da nossa democracia: poder político, poder judicial e comunicação social.

Os media fizeram um trabalho objetivo?
Sim e não. Acima de tudo, o que interessava aos media era a morte, o sangue, o assassínio. Para mim, pelo contrário, o que me interessava era a vida. É por isso que o meu livro não é consagrado a um fait divers, mas sim à vida de uma jovem mulher. Mas, no geral, os jornalistas fizeram o seu trabalho. Ou seja, fizeram aquilo que a sociedade lhes pede para fazerem: contar o crime. Ninguém lhes pede para contar a vida de Laëtitia! Em contrapartida, cinco ou seis anos depois, quando o meu livro foi publicado, chegou o momento de resgatar a vida de Laëtitia. Foi esse o papel do historiador.

Gostava que comentasse esta passagem do seu livro: “O trabalho do jornalista é indissociável das suas fontes, mais ou menos protegidas, mais ou menos secretas. Quando os atores não podem dar a cara, a informação é obtida com uma troca: as «fugas». Se é verdade que o direito de saber é legitimado pelo interesse geral, então o exercício da democracia assenta num delito: a violação do segredo de justiça.”
Em França é assim, tal como em muitos outros países, Portugal incluído. A verdade é que, no geral, as fugas são extremamente importantes numa democracia. Basta pensarmos nos casos WikiLeaks, Panama Papers e mais recentemente nos Paradise Papers. Cito apenas três exemplos que mostram o quanto as fugas são importantes para o exercício de uma democracia. É por isso que os jornalistas fazem o seu trabalho – e devem fazê-lo, obviamente.

Ensina há 20 anos. A mentalidade de professores e alunos mudou muito neste período de tempo?
Sinto que a cada geração que passa há mais maturidade. A minha geração é melhor que a geração do meu pai, e a geração dos meus alunos é melhor que a minha geração. Creio que há cada vez mais uma tomada de consciência da importância da igualdade de género e, claro, dos diferentes tipos de violência a que as mulheres estão sujeitas. Nas universidades, e no que respeita à constituição de júris de projeto de tese, é fundamental haver equilíbrio entre o número de homens e mulheres. Tal como na criação de grupos de docentes deve ser ponderado o fator paridade. E isso já acontece, ou seja, parece-me que há bastantes progressos.

A Universidade tem contribuído para essa mudança?
Diria que, a esse nível, as universidades estão na vanguarda, tal como no que diz respeito à reflexão sobre a igualdade entre homens e mulheres. Há muitos anos que as universidades norte-americanas, por exemplo, vêm a alargar o número de vagas para alunas e investigadoras. Nem tudo é perfeito, obviamente, mas as universidades têm estado na linha da frente nesta questão. Em contrapartida, ainda há muito por fazer na esfera política, no mundo empresarial e na indústria do espetáculo, visto as mulheres continuarem a ser as ‘eternas número dois’. Seja como for, a universidade tem de continuar a fazer mais.

Diz no seu livro que “Laëtitia incarna a França”.
Digo isso no sentido em que ela incarna a democracia ocidental, quer no que respeita aos erros e defeitos, quer no que concerne a nobreza de valores. Isto porque houve diversas pessoas que a ajudaram – professores, formadores, psicólogos, etc. E a democracia também é isso: ajudar os pobres, as vítimas, as crianças abandonadas. Ou seja, Laëtitia incarna a democracia. Se transpusermos a sua história para o contexto português, o nome pode mudar, mas haverá muitos pontos em comum em termos de percurso: a violência sexual existe, a instrumentalização política também… Mais uma vez, tudo isto reflete a nossa sociedade.

Há um capítulo intitulado “Laëtitia sou eu”. O livro foi publicado em França em agosto de 2016, ou seja, os atentados à redação do Charlie Hebdo estavam bem presentes na memória dos franceses, bem como a reação da opinião pública: “Charlie sou eu”. Diria que foi uma opção consciente.
Foi totalmente consciente, mas se o tivesse escrito hoje teria dito “Laëtitia somos nós”, porque poderia ser nossa filha e, metaforicamente, ela é nossa filha. O que herdámos de Laëtitia enquanto sociedade? Solidão, violência, miséria… Não apresento soluções, quero apenas alertar para aquilo que falta: a tomada de consciência.

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