Já não há elefantes

A História repete-se. Definitivamente, repete-se. Esta não é a verdadeira pergunta. A verdadeira pergunta, aquela a que ainda ninguém deu resposta, é: quantas vezes?

A História repete-se. A afirmação tem um ar de frase feita, e dá ela própria uma sensação de déjá-vu (não é pleonástico, quase um truísmo, repetir uma repetição?), mas de repente bate-nos em cheio na cara quando Adolf Hitler ganha eleições, desta vez nas eleições na circunscrição de Ompundja, na Namíbia, e foi Adolf Hitler Uunona que se apressou a declarar que não tinha intenções de conquistar o mundo. Portanto, a História repete-se, mas não toda e não no mesmo sítio.

Outro Adolf Hitler, o americano, tem uma irmã chamada Eva Braun e os dois não tencionam casar-se, o que reforça a conclusão anterior. Outra prova – ainda – de que a repetição da História não é exata é que William Shakespeare foi dos primeiros a ser vacinado contra a Covid, no passado dia 8 de dezembro no University Hospital Coventry, em Warwickshire, Inglaterra, a pouco mais de 30 quilómetros de Stratford-Upon-Avon, terra onde nasceu o outro William Shakespeare. Que se saiba, não disse “ser ou não ser vacinado, eis a questão!”. Podia ter dito, mas não o fez.

N’empêche”, como diria o meu amigo Jean François, a mera semelhança é assustadora. Em 1920 foi criado na Alemanha o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães e foi o que sabemos; em 1939, a German American Bund juntou 20 mil pessoas no Madison Square Garden a denunciar uma “conspiração semita internacional” que teria o apoio do Presidente Roosevelt, e fizeram uma marcha de protesto em Nova Iorque.

Hoje, a Anti-Defamation League diz que o sentimento antissemita nos EUA está ao nível dos anos 30 e o quase ex-Presidente americano não fez nenhuma condenação pública da coisa, mesmo quando a apresentação de um livro em Washington pelo autor judeu Jonathan Metzl foi interrompida por um grupo de nacionalistas brancos (a tradução mais simpática que consigo fazer) aos gritos de “this land is our land”.

Aprender com as lições da História não é, portanto, para todos, e alguns esquecem mais depressa que outros: a Conference on Jewish Material Claims Against Germany descobriu num inquérito que 41% dos respondentes não sabia o que foi Auschwitz. Ou, diria Orwell, alguns acham que “a História repete-se, mas pode ser que pare aqui”.

E não é só nos EUA. Em Visakhapatnam, na Índia, no passado mês de maio deu-se uma fuga de gás numa fábrica da empresa química LG Polymers. Felizmente não foi metilisocianato como na fábrica da Union Carbide, em Bhopal, no ano de 1984. Aprendemos com a História, mas ou aprendemos pouco ou esquecemos depressa.

Mark Twain disse um dia que não há factos isolados na História, as coisas são repetições de algo que se deu no passado, e que às vezes até se repetiu com frequência. Novo Banco, TAP, a História repete-se. Definitivamente, sim, repete-se. Esta não é a verdadeira pergunta. A verdadeira pergunta, aquela a que ainda ninguém deu resposta, é: quantas vezes?

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