Jerónimo e o “boy”

Para arranque desta nova travessia é muito poucochinho e é uma visão miserabilista do futuro. Ou não. Pode ser apenas o reconhecimento que o PCP não tem futuro.

Ainda na semana passada, no meu podcast com o Jornal Económico, “Maquiavel para Principiantes”, abordei que estava para breve a saída de Jerónimo de Sousa. A sua apatia e cansaço durante o debate do Orçamento do Estado na Assembleia da República era evidente e até pungente. O assunto já era abordado há muito tempo, pois notava-se a olhos vistos uma lacuna naquele que era um dos trunfos da liderança: a sua vitalidade.

Jerónimo de Sousa é um homem respeitado por todos os quadrantes, de imensa simpatia e bonomia, e de uma humildade exuberante. No seu caminho cometeu erros, teve posições dúbias (a última referente à invasão da Ucrânia), mas deixa uma marca indelével no partido que comandou por 18 anos: foi ele o seguro de vida para a sobrevivência do PCP. Uma tarefa hercúlea e de muito difícil manutenção para quem se segue.

Essa foi a surpresa da noite de sábado. Nem João Ferreira, nem João Oliveira nem o “camarada Chico Lopes”. O colectivo escolheu um homem desconhecido, sem notoriedade pública e a quem será preciso construir uma narrativa, imagem e percepção pública. Paulo Raimundo terá de se dar a conhecer e encontrar o seu espaço. Será uma estratégia interessante de acompanhar.

Surpresa, porque no momento em que Jerónimo de Sousa teve de ser operado em Janeiro, quem o substituiu foi João Ferreira (que já tinha várias candidaturas e campanhas eleitorais marcadas na pele e tem reconhecimento nacional) e João Oliveira, um bom líder parlamentar.

Surpresa também porque, habitualmente, os líderes que sucederam a Álvaro Cunhal tiveram o crivo do Comité Central para serem candidatos à Presidência da República. Assim aconteceu durante o consulado de Cunhal com Carlos Carvalhas, e depois na liderança deste com o próprio Jerónimo de Sousa. Com este tinham entrado, na corrida a Belém, Francisco Lopes e João Ferreira (com o dom da ubiquidade quando há actos eleitorais para os comunistas), mas nenhum dos dois foi a opção seguida.

Paulo Raimundo não é operário, é apenas um funcionário do partido desde que iniciou a sua militância. Na linguagem comunista é um apparatchik, na linguagem comum conhecida dos portugueses é um “boy” do PCP, apenas um “boy”. Não tem carisma aparente, mas é o homem que vai traçar o caminho e o destino do PCP. É a barricada para estancar perdas.

O partido não arrisca na conquista de eleitorado nem na recuperação de bastiões que foram seus, pretende apenas sobreviver e não perder o pouco que tem. Para arranque desta nova travessia é muito poucochinho e é uma visão miserabilista do futuro. Ou não. Pode ser apenas o reconhecimento que o PCP não tem futuro.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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