Jerusalém, narrativas de uma cidade santa

O carácter universal e sagrado de Jerusalém deveria servir de aviso para Israel, que não pode reescrever séculos de História com uma única proclamação vazia e sem o apoio da comunidade internacional.

Diz-se de um povo que habita no Levante, nas regiões montanhosas do Líbano, Síria e Israel e conhecidos pelo nome de drusos, que praticam a dissimulação e que as suas verdadeiras crenças religiosas são conhecidas apenas pelos sábios praticantes da sua fé. Para escapar à perseguição religiosa, ocultaram-se no seio do Islão, mas na verdade não se identificam como muçulmanos e a sua comunidade fechada tem-se mantido viva ao longo dos séculos, perpetuando um credo que combina neoplatonismo, sufismo, hinduísmo e Islão.

A terra montanhosa onde se refugiaram tornou-se a sua casa ancestral. O que realmente identifica este povo como druso? As misteriosas crenças, a terra que adotaram ou o sangue que se perpetuou em linhagens antigas? Quando o povo israelita proclama Jerusalém como sua capital, quer reconhecer a cidade como a sua casa ancestral, onde possa depositar o seu passado, presente e futuro. Também os israelitas foram perseguidos, como os drusos, e, em muitas épocas da História, também eles praticaram a dissimulação para sobreviver.

Mas, em Jerusalém, palpita também um coração árabe, e muito antes do estado de Israel, foi a casa de muitos árabes que defenderam e lutaram pela cidade. Al-Quds simboliza para todos os muçulmanos o local onde irá regressar Jesus Cristo para combater o falso messias no Dia do Julgamento. Esses árabes têm também todo o direito de declararem Jerusalém como sua capital, e não apenas num plano simbólico e espiritual. Viveram nela, multiplicaram-se nela e é nela que residem parte das suas crenças. Expulsos da sua terra no seguimento da criação do estado de Israel, houve injustiças e crimes cometidos que ainda hoje estão por confrontar.

Recordo-me de um uma obra de ficção que li há muitos anos, Jerusalem Poker, do escritor Edward Whittemore, um ex-agente secreto da CIA que viveu no Médio Oriente, na qual um judeu, um muçulmano e um cristão disputam o Grande Jogo de Póquer de Jerusalém; o vencedor ganha o controlo secreto da cidade santa. Na obra de Whittemore, forma-se uma tapeçaria de vida e morte em que os jogadores tentam possuir a cidade, descobrindo tarde demais que todos os que desejam conquistar Jerusalém estão destinados a perder.

O carácter universal e sagrado de Jerusalém deveria servir de aviso para Israel, que não pode reescrever séculos de História com uma única proclamação vazia e sem o apoio da comunidade internacional, ainda que respaldado pela demência de Trump. Um país com uma capital que só consegue ser uma capital se erguerem vedações à sua volta, ignorando e oprimindo os povos que nela vivem e viveram, é um país fracassado e condenado para sempre à fragilidade e insegurança.

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