João Moreira Rato: “Se a injeção à banca tivesse sido maior a dívida pública era ainda mais alta”

Em alternativa, explicou João Moreira Rato, os bancos podem resolver o problema “aos poucos”, com base nos lucros que vão sendo gerados ao longo tempo.

O ex-presidente do IGCP e actualmente consultor financeiro (responsável pela criação de um mercado de dívida soberana no Kuwait) disse no programa da RTP3 “Tudo é Economia” que a recuperação dos bancos, que estão a braços com elevadas carteiras de créditos problemáticos (malparado ou em risco), teria sido mais rápida se tivesse sido feita uma “injecção de capital  muito forte à cabeça, como fizeram os Estados Unidos, o que permitiu aos bancos fazerem uma limpeza rápida dos seus balanços”, disse.

Em alternativa, explicou João Moreira Rato, os bancos podem resolver o problema “aos poucos”, com base nos lucros que vão sendo gerados ao longo tempo.

Mas, questionado pelo jornalista André Macedo se a “opção que o Governo [anterior] tomou de não fazer uma injecção de capital muito maior à cabeça para resolver o problema do malparado dos bancos, não foi uma pior opção?”, João Moreira Rato explicou que era preciso que Portugal não tivesse uma dívida tão elevada para que pudesse ter essa opção.

“Tem a ver com o endividamento soberano, se o pacote tivesse sido à cabeça maior, provavelmente o endividamento público também tinha sido maior. O que teria sido um caminho mais difícil para Portugal”, disse. Explica também que os bancos têm o “azar” de estar a passar por uma conjuntura de taxas de juro muito baixas e de as curvas de juros (juros em diferentes maturidades) estarem muito planas, e de isso afectar a capacidade de gerar lucros para poder ir limpando os balanços.

“É um processo natural os bancos investirem muito em dívida pública quando as oportunidades de conceder crédito escasseiam”, explicou ainda o gestor.

Para João Moreira Rato o problema da dívida elevada do país é que torna mais difíceis as operações de renovação da dívida, porque têm de ir ao mercado com volumes muito maiores para reembolsar dívida que vence, fazendo novas emissões.

João Moreira Rato foi presidente do IGCP responsável pelo regresso de Portugal aos mercados depois do resgate da troika, e que geriu a agência durante o período que culminou com a saída limpa de Portugal, em termos financeiros. O ex-presidente do IGCP explicou que quando o BCE deixar de comprar dívida soberana portuguesa no mercado secundário, Portugal vai ficar nas mãos dos investidores que cobram juros em função do risco de default, e o facto de Portugal ter uma dívida muito elevada é um factor de risco para os investidores.

Já sobre o Novo Banco, e tendo sido CFO do banco na transição de BES para Novo Banco, durante dois meses que coincidiu com o momento da Resolução, explicou que o contexto de venda do Novo Banco é complicado, diz. João Moreira Rato explica que nesta altura na Europa a banca não está num estado que lhe permita fazer aquisições além fronteiras.

Quanto à questão se são os fundos bons compradores do Novo Banco? João Moreira Rato explica que “se os Fundos são o melhor preço disponível por que não?”

“A questão dos fundos essencialmente tem muito ver a que preço se financiam estes fundos”, diz. “Quanto mais alto o preço do financiamento mais retorno têm de ter nos seus investimentos e portanto menor o preço que estão dispostos a pagar”, explicou João Moreira Rato.

 

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