João Soares: “PCP e BE podem ajudar na reforma que a NATO precisa”

João Soares, antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa em coligação com o Partido Comunista e os partidos que hoje integram o Bloco de Esquerda, garante que os comunistas quando firmam um acordo cumprem-no.


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E acha mesmo que podem ser uma ajuda à reforma da NATO. João Soares, que deu esta entrevista antes do Presidente da República decidir a indigitação do primeiro-ministro, não acredita que haja deputados socialistas que deixem passar qualquer Orçamento da coligação de direita Portugal à Frente (PàF).

Como vê o resultado das legislativas de 4 de outubro? O que escolheu o povo português?

É um resultado extremamente curioso que introduz aqui um factor de complexidade com o qual ainda não tínhamos estado confrontados ao longo de 40 anos de democracia. Mas, como quase tudo na vida, sendo de um certo ponto de vista uma dificuldade, representa também uma oportunidade. Eu tenho uma posição clara sobre aquilo que são os resultados eleitorais e a forma como o País deve sair da situação que resulta destes resultados eleitorais. Por estranho que possa parecer, estou de acordo com a posição que o senhor Presidente da República, Cavaco Silva, assumiu desde há mais de um ano quando disse que não daria posse a um governo que não dispusesse de uma maioria absoluta no Parlamento.

O Presidente não falou em maioria absoluta.

Não falou em absoluta, mas que dispusesse de uma maioria estável e confortável que garantisse um mandato de quatro anos. Penso que neste contexto não há senão uma maioria de esquerda no Parlamento. Com um compromisso de mandato entre o PS, o Bloco de Esquerda e o PCP. E temos pela primeira vez um governo de maioria de esquerda, ou se quiser utilizar a terminologia da primeira metade do século passado e sobretudo a histórica da França dos anos 30, um governo de frente popular. Sei que isto assusta muita gente, há muita gente que ainda tem velhos fantasmas na cabeça.

Mesmo dentro do PS?

Alguns também dentro do PS que olham para uma realidade que é uma realidade completamente diferente com os olhos de há 40 anos. Ora, a verdade é que as coisas evoluíram e evoluíram muito.

E o seu pensamento político também evoluiu? É o homem que sempre foi conotado com a UNITA…

Essa de eu ser conotado com a UNITA é uma ideia completamente abstrusa mas que, infelizmente passou para a opinião pública. Pela simples razão de que tive um grande acidente, em território da UNITA, Angola. Foi muito mediatizado na altura. Salvei-me, ao contrário do que muitos pensavam e alguns desejavam. Eu só tenho um partido, que é o Partido Socialista em Portugal, e já me basta. Não tenciono, em circunstância nenhuma, mudar de partido, nem mudar de posição política. E tendo 66 anos de idade, pode perguntar aos meus colegas de escola e nomeadamente de universidade – e alguns são bastantes conhecidos hoje, olhe a começar pelo actual advogado de José Sócrates, o meu amigo João Araújo, fomos colegas de faculdade –, a minha posição foi sempre a mesma, sempre fui socialista. E na minha geração, que é uma geração onde a esmagadora maioria das mulheres e dos homens de esquerda na Faculdade de Direito de Lisboa, no movimento estudantil universitário, eram comunistas, dos vários matizes que havia nessa altura de comunismo. A partir de meados dos anos sessenta deixou de haver uma única família comunista que é aquela que é representada ainda hoje pelo PCP, que era o comunismo ortodoxo, se quiser, pró-soviético e passou a haver várias matizes, nomeadamente os vários movimentos que se reclamavam de pró-chineses, os chamados movimentos ML. Algumas dessas figuras que apoiavam os movimentos comunistas nessa altura, de uma forma muito engajada, muito comprometida, e também corajosa porque nessa altura ter posições contra o regime era uma coisa difícil e que se pagava muitas vezes com a prisão e com a repressão, hoje são destacados dirigentes da direita. Alguns que se reclamaram das mais extremas correntes comunistas marxistas-leninistas, a começar por Durão Barroso que foi duas vezes presidente da Comissão Europeia, mas a passar também pelo ainda ministro da Educação que também foi um destacado dirigente de uma dessas correntes ML. Aliás, é o José Manuel Fernandes, também outro ex-dirigente ML, ex-director do Público e hoje editor do Observador, que nas suas memórias descreve essas ligações todas, nomeadamente as dele e as do Crato.

E o João Soares?

Eu não mudei. Agora, o que eu digo é isto, o fascismo foi uma ameaça em Portugal. Houve uma ditadura de direita. Há pessoas que não gostam de utilizar a expressão fascista porque do ponto de vista da ciência política talvez não seja ajustado. Não tinha exactamente as mesmas características que tinha o fascismo italiano, ou que teve o nazismo na Alemanha e outros regimes ditatoriais na Europa. O salazarismo, ou se quiser o salazarismo-caetanismo que foi a ditadura de direita que durante 48 anos governou, num clima de grande repressão, o nosso País, foi durante esse período uma ameaça, e uma ameaça que estava no poder, era uma ameaça para as liberdades públicas. Deixou de ser. Hoje, felizmente, não há praticamente ninguém que se reclame desses valores que deram corpo à ditadura salazarista-caetanista durante 48 anos. E o movimento comunista português também se pode dizer que representou uma ameaça durante o ano de 1975, mas deixou de ser uma ameaça. A partir do 25 de Novembro e da viragem que se deu a partir daí e da aprovação da Constituição em 1976, não há uma ameaça totalitária do lado da esquerda. Sobretudo a partir do desaparecimento da cortina de ferro e do império soviético a Leste da Europa. Hoje não há nenhuma espécie de ameaça dessa natureza. Portanto, é completamente falacioso estar a gritar como na velha história do Pedro e do lobo, que vêm aí os fascistas ou os comunistas. Não há nenhuma ameaça. Pelo contrário, o que tem acontecido ao longo destes quase 40 anos de regime democrático na nossa terra e de várias alternâncias democráticas é a introdução de um princípio que o George Orwell – que tive o privilégio de editar em 1975 – consagrou para a opinião pública mundial num dos seus mais famosos livros, o “Animal Farm” que traduzimos para O Triunfo dos Porcos – aliás consagrou nessa altura porque o livro era dos anos 40, na lógica do combate ao estalinismo, o George Orwell foi um homem de esquerda, próximo das correntes trotskistas, esteve na Guerra Civil de Espanha a combater ao lado do POUM. Esse livro tem uma frase que ficou histórica que é “todos são iguais mas alguns são mais iguais do que os outros”. Esse princípio foi aplicado na vida política portuguesa ao longo dos últimos anos para retirar valor aos votos que são obtidos pelo Partido Comunista e pelo Bloco de Esquerda. Quem quebrou esse princípio pela primeira vez fomos nós socialistas e eu estive na primeira linha dos que defenderam isso – e comecei por defendê-lo praticamente sozinho –, na liderança de Jorge Sampaio, quando disputámos a Câmara Municipal de Lisboa. Não foi uma pequena coisa. Sei que depois alguns amigos e conhecidos meus, do CDS e do PSD, dizem: ah isso foi para tratar dos jardins e dos cemitérios. Não é verdade. A Câmara de Lisboa não é uma pequena coisa e governámo-la durante 12 anos com uma coligação de esquerda.

Não se trata de uma situação diferente? Havia uma coligação à partida…

Não. Nós governámos a Câmara de Lisboa durante 12 anos com uma coligação entre o PS, o PCP e todos os partidos de extrema-esquerda, ainda não havia Bloco. Portanto, esteve lá o PSR, a UDP que depois vieram a dar origem ao Bloco. E estava também o MDP/CDE que nessa altura ainda existia. Evidentemente que não é a mesma coisa governar uma câmara e governar o País. Mas estamos a falar da câmara da capital do País e da importância que ela tem. E da forma equilibrada como foi administrada. Isso permite-me falar com conhecimento de causa e não apenas no plano teórico do que é uma coligação, na prática do governo, seja de uma câmara, seja do país. Uma coligação de esquerda. E ela funcionou e funcionou bem, doze anos.

Mas o PS era o partido mais votado.

Quando disputámos as eleições em 1989 com Jorge Sampaio como primeiro candidato do Partido Socialista e eu como número dois numa coligação com os comunistas e com os outros grupos de extrema-esquerda o PS não era o mais votado…

A coligação já estava feita antes.

A coligação foi feita para disputar as eleições autárquicas de 1989. Quem era o candidato da direita coligada, com o PSD, CDS e PPM? Era o Marcelo Rebelo de Sousa e nós ganhámos ao Marcelo com uma coligação de esquerda. Todos coligados. E governámos até finais de 2001 quando perdi com o Santana Lopes. Foi uma coligação estável, não houve nenhuma espécie de problemas. Não tenho nenhuma espécie de afinidades ideológicas com o comunismo, nas suas várias matizes, nenhumas, mas com o Partido Comunista quando se chega a um acordo, é preciso trabalhar seriamente nesse acordo, eles respeitam os compromissos que assumem. E veja o equilíbrio financeiro que se conseguiu na Câmara Municipal de Lisboa. Deixámos um orçamento para o ano a seguir àquele em que perdemos que andava à volta dos 200 milhões de contos, na altura. Depois, claro, veio a direita e as coisas deram outras voltas. O que lhe digo é que se, como eu espero, se se conseguir chegar a um compromisso, se o António Costa enquanto líder do Partido Socialista conseguir encontrar um compromisso para um mandato de quatro anos com o PCP e com o Bloco, eu tenho a certeza de que ele vai funcionar e vai funcionar bem. Porque também lhe posso dizer aquilo que é a minha posição pessoal – não representa a posição do PS, mas que eu não tenho deixado de exprimir nos órgãos próprios do meu partido, faço parte da comissão política do Partido Socialista –, acho que o País está a precisar de uma política de esquerda e de uma política de esquerda anti-capitalista. Sei que uma parte dos argumentos da direita ganharam a cabeça das pessoas e as pessoas acabaram por interiorizar uma coisa que foi repetida muitas vezes por esta gente que tem estado no poder desde há quatro anos, de uma forma perfeitamente devastadora, que é: ah vivemos acima das nossas possibilidades, ah gastámos demais e os socialistas são os culpados disto tudo. É verdade que temos um défice das nossas contas públicas e temos dificuldades financeiras muito sérias e que fomos obrigados, pela terceira vez da nossa história – pode ser a quarta, porque ainda houve a questão dos tabacos no final da monarquia –, obrigados a receber uma ajuda externa. Mas, o drama das nossas contas públicas e o drama dos nossos desequilíbrios vem sobretudo daquilo que a banca e o sistema financeiro fizeram ao nosso País. Isto é a minha opinião, que só me vincula a mim, mas entre os BPN, BPP, BCP, BPI e BES, nós gastámos seguramente, derretemos, nós não, eles, eles derreteram mais de metade do que nós recebemos em ajuda externa.

Pode quantificar esse gasto?

São cerca de 40 mil milhões, tudo junto, e só o BES devem ser mais de 20 mil milhões de euros. Só o BES Angola, que é um roubo em conivência com a mais corrupta nomenclatura que governa de uma forma não democrática um país há mais de quarenta anos, que é Angola, só o BES Angola derreteu a brincar sete ou oito mil milhões de euros que não se sabe onde estão. Aliás, sabe-se estão nos bolsos dos mesmos do costume.

Quem são?

A Isabel dos Santos, o Sobrinho e aquela tropa fandanga que anda à volta daquele poder, que não é democrático e que aliás está á beira de deixar morrer em greve de fome um jovem que se bate pela liberdade em Angola, que é o Luaty Beirão, e os seus companheiros. Portanto, é também altura de reclamar bem alto, como deveria ter reclamado já o Ministério dos Negócios Estrangeiros – se é que ele existe sob a direcção deste Machete, que é um personagem inenarrável. O próprio primeiro-ministro português e o Presidente da República já deveriam ter reclamado, com a máxima urgência, a libertação dos 15 presos políticos angolanos, a começar pelo Luaty Beirão que está em greve de fome há mais de 20 dias. O e feito corrosivo que essa cleptocracia tem tido nas nossas finanças públicas e na nossa economia ainda não está bem avaliado. Saíram para aí uns livrinhos mas pouca coisa ainda. Mas esses senhores estão na maior parte dos nossos bancos numa posição maioritária, como o BCP e o BPI, estão nos nossos órgãos de comunicação social – há órgãos de comunicação social que são detidos por eles a 100%, como é o caso do i e do Sol e há outros onde a presença é muito significativa, nomeadamente o antigo grupo Lusomundo. Apesar do petróleo ter caído não deixaram de ter voracidade para dominar outros órgãos de comunicação social. E hoje sabe-se que eles fizeram uma tentativa, quando ainda era ministro o Miguel Relvas, para tentar tomar conta quer da televisão quer da Caixa Geral de Depósitos. Esta gente e mais os empregados portugueses deles cá, que podemos identificar ou não. Inclui “camaradas” meus em relação aos quais eu tenho sido sempre perfeitamente claro… Ter o Luís Amado, que foi ministro de um governo socialista, como presidente pró-forma de um banco como o Banif, para mim é uma coisa que me repugna como socialista. E há outros, os Manuel Pinho, os Pina Moura e outros, que nunca souberam fazer a separação, que é absolutamente imprescindível, fazer entre negócios e vida política. As pessoas não podem estar ao mesmo tempo nos dois sítios.

É essa ligação entre política e negócios que levou à atual situação do País?

Não estou a dizer só isso, mas foi isso que em larga medida levou a este défice. E o exemplo que veio desta presença da cleptocracia angolana e o contágio na economia portuguesa é terrível. Compreendo até do ponto de vista psicológico ou psicanalítico, compreendo os fantasmas que eles acham que têm de vencer. Compreendo que para eles represente qualquer coisa de muito simbólico tomar conta de um Diário de Notícias, ou da Efacec, das melhores empresas portuguesas, mas eu acho isto absolutamente inaceitável. E não me venham dizer que esta é uma posição neo-colonial porque sempre me bati contra o colonialismo português.

Voltando à Câmara de Lisboa. A coligação de esquerda ganhou as eleições autárquicas, mas nas legislativas de 4 de Outubro o PS concorreu sozinho e a PàF é que ganhou as eleições…

Também não havia coligação à direita quando esta ganhou as eleições em 2011, o PSD e o CDS apresentaram-se separados e depois coligaram-se a seguir às eleições. É um fenómeno da mesma natureza daquele que pode e eu espero que venha a acontecer, se o António Costa tiver talento. Não penso que haja nenhum problema nem de legitimidade constitucional, nem de legitimidade política.

Não vê qualquer hipótese de o PS ainda vir a fazer um acordo ou coligação com a PàF?

Mas passa-lhe pela cabeça que o PS possa, a menos que tenha uma tentação suicidária, fazer um entendimento, que não quis fazer ao longo de quatro anos, com os partidos da que foi a principal força de oposição? O que é normal é que quem foi oposição se entenda. E há muitos pontos em comum entre nós e os outros partidos da esquerda, para que nos possamos entender. O grande problema destes senhores que têm estado no poder há quatro anos, vê-se-lhes nos olhos, a gente lê-lhes no olhar, é que eles acham que a esquerda não tem o direito de governar. A direita em Portugal sempre achou que a esquerda não tinha legitimidade para governar. Mesmo o PS, mais moderado, com muita dificuldade, eles aceitaram que nós governássemos. Há ali um preconceito aristocrático, eles acham que nasceram para exercer o poder e que nós fazemos parte da plebe – infelizmente não fazemos tanto como eu desejaria que fizéssemos. Mas somos povo e representamos povo humilde.

Acredita que o governo de esquerda será para quatro anos?

Não tenho a menor dúvida, se for bem negociado. Depende muito do António Costa e depende das lideranças do PCP e do Bloco. Olhe, na linguagem marxista costuma dizer-se “é preciso que se reúnam condições objectivas e subjectivas”. Acho que as objectivas estão reunidas, as subjectivas estão, em larga medida, também reunidas. Isso deve-se também às declarações claras que fizeram quer a Catarina Martins, quer o Jerónimo de Sousa, logo imediatamente a seguir às eleições. Portanto, estão criadas as condições, não deve haver um governo de direita. Mais, acho que se o senhor Presidente da República der posse a Passos Coelho como primeiro-ministro está a violar o que ele próprio repetidamente disse. Uma coisa é indigitar para tentar estabelecer uma maioria, outra coisa é dar-lhe posse como primeiro-ministro para ir à assembleia e ser chumbado logo que apresentar o programa de governo. E depois ter de ir chamar outro…

Mas o Presidente da República já não pode marcar novas eleições…

Não estou a falar em marcar eleições, pode é dar posse a outro primeiro-ministro. O que estou a dizer é que não faz nenhum sentido, se o líder do Partido Socialista lhe levar, como eu espero, uma maioria para quatro anos que resulte do entendimento com o PCP, o Bloco e o PS, penso que o Presidente não deve dar posse a Passos Coelho, porque faz o País perder umas semanas, completamente inúteis. Deve dar posse a quem lhe leve, como ele pediu, uma solução de governo estável, dispondo de uma maioria clara, absoluta, no Parlamento. Agora, vai-me a dizer, e no quadro internacional, dos apoios, e no quadro financeiro, daquilo a que chamam os mercados, essa carta direita tem estado a jogá-la.

Não era nesse sentido, mas sim na hipótese de o Partido Comunista deixar de ter a saída da NATO como prioridade.

Ouça, o Partido Comunista já esteve representado em governos de países que estão na NATO. Há um pequeno partido que se reclama comunista na Dinamarca, salvo erro…. Isso é uma questão completamente secundária, é mentalidade da antiga Guerra Fria, que já passou. Aliás, tem visto que até hoje nenhum dirigente do PCP ou do Bloco colocou a questão da NATO, a nossa pertença à NATO é uma coisa natural. E mais, pelo contrário, acho que uma presença do Partido Comunista e do Bloco num governo de esquerda em Portugal, como eu espero, como eu desejo, como acho que é útil ao País, pode ajudar a dar um contributo para uma reforma que a NATO precisa de ter. Sempre fui aquilo a que se chama de atlantista e tenho consciência do que devemos à Aliança Atlântica. Se não fosse a aliança com os Estados Unidos no quadro da Segunda Guerra, provavelmente os nazis ainda estavam à beira do Canal da Mancha, e se não fosse a aliança com os Estados Unidos no quadro da NATO, provavelmente a cortina de ferro teria sido feita também em cima do Atlântico. Eu sei o que é que a Europa deve à aliança atlântica, a aliança com os Estados Unidos e o Canadá. Agora, isso era num quadro em que havia uma ameaça que já não há, não existe. É o mesmo do que temer uma ameaça do tipo nazi. A Alemanha de hoje, por mais críticas que se tenham para fazer, não tem nada a ver com a Alemanha que desapareceu em 1945. Deve continuar a pagar as dívidas que deixou na Europa e no mundo por essa deriva totalitária inacreditável que se verificou entre 1933 e 1945 e que arrastou a Europa e o mundo para uma guerra devastadora que deixou a Europa completamente em ruínas. Foi daí que nasceu o projecto europeu, portanto, a Alemanha não tem autoridade histórica, nem moral, nem financeira para por em causa o projecto europeu como tem posto. Mas isso é outra coisa…

Se o Presidente der posse a um governo minoritário da PàF não há hipótese de alguns deputados do PS se absterem e o orçamento passar?

Não acredito, isso são balelas.

Nem os deputados afetos à ala segurista?

Não, isso é uma coisa completamente disparatada. Inventada pela direita e pela comunicação social da direita. Toda apostada em que não haja um entendimento à esquerda. Eu fui um dos principais e mais aguerridos apoiantes do António José Seguro e tenho nisso muitíssimo orgulho, reclamo-me desse espírito e dessa história. Não me venham cá dizer que os apoiantes do António José Seguro são contra uma unidade à esquerda, porque não são. Cada um fala por si e o que eu lhe posso dizer é que tenho quase a certeza de que não haverá divisões no grupo parlamentar do Partido Socialista em torno desta questão. Assim o secretário-geral consiga, como eu desejo que consiga, um acordo sólido, sólido e claro, com o Bloco e o PCP.

Então assim um orçamento da PàF nunca passará.

Claro que não, não deve passar, como é óbvio. Aliás, é um contra-senso, se o senhor Presidente da República, que anda há mais de um ano a dizer que quer um governo que disponha de uma maioria parlamentar para quatro anos, der posse a um primeiro-ministro que se sabe à partida que não vai ter maioria nenhuma e que vai ser derrotado logo no primeiro ato.

Acredita que nesse caso o Presidente pode deixar um governo em gestão até à próxima Presidência?

De forma nenhuma, não faz nenhum sentido, se há uma maioria parlamentar de esquerda o senhor Presidente não tem alternativa que não seja dar posse a quem encabeçar essa maioria de esquerda. Obviamente o Partido Socialista, como disseram com clareza a líder do Bloco de Esquerda e o líder do PCP.

Que tipo de políticas, reformas, podem os portugueses esperar de um governo PS/PCP/BE?

O que lhe posso dizer é que o conjunto dos três partidos tem gente com experiência para assegurar um governo que faça uma política popular – dentro dos limites que são os que resultam da situação em que estamos a viver – sem nenhuma espécie de equívocos, sem prometer coisas que são impossíveis, mas fazendo uma política que, do meu ponto de vista e isto só me vincula a mim, deve ser claramente anti-capitalista.

Como assim?

Isto não é para assustar. Deixe-me explicar. Eu sou socialista, pertenço à família socialista, social-democrata e trabalhista, sempre fui um homem de esquerda, sou moderado mas sou um homem de esquerda. Nós temos aqui em Portugal uma confusão que resulta do facto de haver um partido liberal de direita, que é o PSD, se intitular social-democrata quando não o é; não pertence aliás á família social-democrata nas instâncias europeias e internacionais. Isso é que cria equívocos entre as pessoas. A família socialista é uma família que tem na sua matriz princípios anti-capitalistas e quando o capitalismo ainda não era esta coisa absolutamente selvagem em que se transformou no último século. O capitalismo tornou-se uma coisa completamente sanguinária e devastadora, se quiser. Com a evolução tecnológica e das comunicações, hoje aquilo a que chamam, eu ponho sempre aspas, os mercados não têm nada que ver com mercados, são lógicas de casino. As regras dos mercados que acho que devem ser respeitadas na sua essência, são regras que apuram os preços a partir da relação entre a procura e a oferta, ora os mercados actuais não têm nada que ver com isso. Mais de 90% das operações que têm lugar nas praças financeiras do mundo todo são operações meramente especulativas. Você tem grandes fundos internacionais, que nem sequer têm um rosto visível, que compram e vendem empresas sem que as pessoas que trabalham nessas empresas percebam para quem é que estão a trabalhar. E que fecham e deslocalizam empresas, sem nenhuma espécie de critérios de racionalidade humanista, numa lógica de ganho de perfeito casino, e é a isso que é preciso pôr cobro urgentemente. Pode dizer-me que não é fácil. Claro que é extremamente difícil. Agora, é possível dar passos nesse sentido. E volto atrás, enquanto tivemos responsabilidades de poder na gestão da capital do nosso País durante doze anos – e eu falo pelo período em que fui presidente que são sete – nunca tomei posições que não fossem a favor dos mais desfavorecidos e dos mais pobres. Não consegui fazer milagres, mas fizemos muita coisa. E sempre que tive de optar entre o interesse de um grande grupo económico, ou de um rico, predador como conhecemos tantos na nossa terra, os que foram responsáveis pelos BPN e os BES, e que estão identificados, ou o interesse do povo, não hesitei nunca. Os predadores, vampiros, são pessoas que conhecemos todos. E todos os dias. A esses nunca os favoreci, em circunstância alguma pelo contrário. Aqueles que não tinham casa, aqueles que têm dificuldades para comer, todos os dias, é a esses que temos de proteger. Sem criar, evidentemente, alguma espécie de falsas expectativa. É sobretudo preciso apoiar, de forma decidida, os nossos trabalhadores e os nossos empresários, aqueles que criam emprego, aqueles que exportam, aqueles que criam produtos que competem no mercado internacional e temos muita gente a fazer isso.

Por exemplo, na Segurança Social, onde é preciso fazer alguma coisa.

É preciso equilibrar as contas da Segurança Social. Vá buscar os últimos dez anos da vida da nossa terra e vai ver o que aconteceu. Os governos de direita foram buscar dinheiro aos fundos da Segurança Social para pagarem outro tipo de despesas e equilibrarem orçamentos. O único governo que conseguiu equilibrar as contas da Segurança Social e estabelecer um plano foi o do Partido Socialista. Os de Guterres e de Sócrates, foram esses que equilibraram as contas da Segurança Social.

Também usaram receitas extraordinárias.

Sim, também algumas, mas sobretudo não indo lá buscar dinheiro.

Está a falar da reforma de 2007 que dava o sistema como sustentável até 2015?

Sim, essa. Mas isso é também uma das balelas da nossa terra, em torno de temas muito importantes (onde o PS também fez asneiras). Eu estou à vontade, porque a minha posição foi sempre contra. Estou a referir-me ao facto de se dizer, desde o tempo do Marcelo Caetano, que o Aeroporto de Lisboa é insustentável. Veja em que ano estamos e quantos anos mais ele vai aguentar e bem como um aeroporto de localização privilegiada. Como eu, passe a imodéstia, sempre disse. Terá de reconhecer que eu enquanto presidente da Câmara de Lisboa, e antes e depois disso, sempre defendi que o aeroporto é uma mais-valia para a cidade. Isto é para lhe dar um exemplo de como é que uma balela muitas vezes repetida acaba por se tornar uma verdade incontestável. Eu lembro-me quando o Mário Lino aqui veio á Assembleia da República, quando era ministro do Sócrates, a seguir àquele célebre jamais lá do outro lado e depois o que aconteceu. Portanto, não me venham com balelas dessas, a Segurança Social claro que é sustentável. Sabe quanto é que o País já gastou de dinheiro de impostos na vergonha do que roubaram no BESA? Tanto quanto custa o Serviço Nacional de Saúde durante um ano, são seis ou sete mil milhões de euros. E o Banif. Quanto é que custou o BPN? E até o próprio Montepio, que andou a financiar compras de navios que estão todos agora aí encostados. De um tal Rui Alegre que comprou os navios todos que eram do senhor Potamianos. Está tudo encostado, a ser vendido como sucata. É com esse tipo de coisas que é preciso acabar. É preciso ter gente no Governo e a apoiar o Governo, como é o meu caso, que não tenha medo porque não tem as mãos sujas. É a isto que eu chamo de uma política anti-capitalista, a sério. Não é tentar estabelecer o comunismo. Aliás, o comunismo do ponto de vista histórico, o comunismo enquanto poder, foi um fracasso descomunal em todo o mundo, o comunismo não teve sucesso em lado nenhum, nas suas várias versões, nem na versão soviética, nem na chinesa e foi sempre terrivelmente sangrento.

Com um governo à esquerda vamos aliviar o cinto?

Eu espero que sim, mas ninguém promete coisas imediatas. A situação é complicada e sobretudo há aqui uma componente que é absolutamente decisiva, nós dependemos cada vez mais do contexto europeu em que estamos e portanto a posição subalterna em que este Governo, Passos Coelho e Portas, se pôs no plano internacional e nomeadamente nas várias instâncias da União Europeia diminuiu o nosso poder negocial. E se não fossem os gregos do Syrisa e a revolução que provocaram na Europa, com a sua componente também de racionalidade e de equilíbrio que veio a seguir à vitória no referendo e às eleições que o Tsipras provocou, que é uma posição de equilíbrio no acordo que fez com a Europa, se não fossem eles as coisas não tinham mudado. As coisas vão mudar na Europa. E um governo de esquerda em Portugal pode ajudar muito a que as coisas mudem ainda de forma mais rápida.

Mas o Tsipras não conseguiu ainda fazer quase nada do que tinha prometido.

Ah conseguiu, conseguiu e não só para a Grécia. Outra coisa que é muito importante, e aí é a tal garantia de uma política anti-capitalista, aquilo não é gerido pelos empregados dos banqueiros ladrões. Porque você vai fazer o percurso desta gente quase toda da direita e vai ver o que é que são. Quando eu digo que o Manchete é uma vergonha como ministro dos Negócios Estrangeiros, porque não toma posição no caso do Luaty Beirão e dos 15 presos políticos em Angola, quando um deles é até cidadão nacional, é porque ele tem relações de familiares com o poder cleptocrático angolano. E o Catroga que dizia que tinha muito orgulho nas selfies que tinha feito na negociação com a troika, é empregado dos chineses a ganhar quanto por mês? Eles que digam quanto ganham por mês.

Por Carlos Caldeira/OJE

Foto: Armindo Cardoso

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