O mikado

Quando se esperava mais um Verão adormecido por uma previsível silly season, os mais recentes acontecimentos no Grupo Espírito Santo, com expoente na mediática detenção de Ricardo Salgado, deixam adivinhar o exacto oposto. Sendo actualmente um tema incontornável da economia nacional, não podia deixar de tecer alguns comentários.   Com o abandono forçado da cadeira […]


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Quando se esperava mais um Verão adormecido por uma previsível silly season, os mais recentes acontecimentos no Grupo Espírito Santo, com expoente na mediática detenção de Ricardo Salgado, deixam adivinhar o exacto oposto. Sendo actualmente um tema incontornável da economia nacional, não podia deixar de tecer alguns comentários.

 

Com o abandono forçado da cadeira do poder do Banco Espírito Santo, Ricardo Salgado despoletou uma sequência de eventos cujas consequências estão ainda longe de ser totalmente conhecidas, quer a nível judicial, quer a nível financeiro e económico.

 

Se por um lado o timing da intervenção do Ministério Público não deixa de causar alguma estranheza por acontecer somente depois da saída de cena do banqueiro, por outro não deixa de ser sinal de que, mesmo tarde, a justiça vai trilhando os seus caminhos. Veremos como se desenrola este processo, mas é de sobremaneira importante que as devidas responsabilidades sejam imputadas aos verdadeiros responsáveis e que os inocentes sejam cabalmente inocentados.

 

Em termos económicos, preconizei em tempos que a melhor saída para Portugal após anos de intervenção da troika era uma saída apoiada, com mais alguns anos de influência externa, quer a nível de ajuda financeira, quer sobretudo no que concerne uma avaliação mais rigorosa dos números do Estado. Talvez fosse importante, neste preciso momento em que treme um dos maiores grupos financeiros nacionais, termos o suporte e as garantias externas para enfrentar este novo desafio.

 

Ficam no entanto algumas perguntas: onde estavam os meticulosos analistas da troika para terem deixado escapar o que agora sucede? Num momento económico periclitante, o que acontecerá à sociedade portuguesa, em todos os seus estratos, se o Banco Espírito Santo decidir ir agora bater à porta de todos a quanto emprestou e exigir, sem perdões, extensões de prazos ou refinanciamentos, tudo o que é devido?

 

A gestão de muitas empresas tem sido feita à base de empréstimos para garantir fluxos de tesouraria comum ou algum investimento mais avultado. A gestão de muitas famílias tem igualmente sido feita com recursos a créditos, nomeadamente à habitação, que por seu turno garantem a sobrevivência de muitas empresas de construção. O que acontece quando a torneira se fecha? O que acontece sobretudo quando já existem tão poucas fontes disponíveis em Portugal e as que existem exigem demasiado para quem pouco tem?

 

A queda do Grupo Espírito Santo não é somente a queda de um grupo financeiro, pode significar a machadada final para muitas empresas, muitos patrões que tentam aguentar ou salvar os seus negócios, inúmeros trabalhadores que se agarram como podem ao seu posto de trabalho e incontáveis famílias que hoje em dia quase se limitam a sobreviver.

 

Fica outra questão fundamental: o que vai fazer o Estado para proteger as famílias portuguesas de mais uma débacle financeira a que são totalmente alheias? Poderá o mesmo Estado que com zelo interveio num banco como o BPN, alegando o possível efeito de contágio para a economia nacional, olhar para o lado e recusar qualquer tipo de intervenção num banco que – este sim – é um sério interveniente em todos os sectores da economia?

 

Agora que a casa vai ser arrumada por pessoas externas à esfera da família Espírito Santo, veremos que medidas a nova equipa preconiza para dar a volta à situação actual. Como disse no meu último texto, continuo a defender que um Banco Espírito Santo forte e um Grupo Espírito Santo sólido só podem ser bons indicadores para Portugal. Por outro lado, agora liberto, é normal que mais situações irregulares venham a lume aprofundando esta já ampla crise.

 

Aludindo às palavras de Paulo Morgado, líder da Cap Gemini Portugal, veremos agora qual o jeito de Vítor Bento para jogar a este pequeno mikado que se tornou o BES dentro do grande mikado que é a banca nacional.

 

João Costa Reis

 

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