Rei morto, Rei posto

Não, não é um texto sobre a sucessão em Espanha, nem tão pouco sobre o melhor jogador do campeonato do Mundo, antes sobre a revolução em curso num dos maiores bancos e grupos nacionais: os Espírito Santo. Após 22 anos à frente dos destinos do Banco Espírito Santo, Ricardo Salgado decidiu recentemente afastar-se da liderança […]


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Não, não é um texto sobre a sucessão em Espanha, nem tão pouco sobre o melhor jogador do campeonato do Mundo, antes sobre a revolução em curso num dos maiores bancos e grupos nacionais: os Espírito Santo.

Após 22 anos à frente dos destinos do Banco Espírito Santo, Ricardo Salgado decidiu recentemente afastar-se da liderança e, ao contrário do que alguns membros da família pretendiam, acabou por escolher alguém de fora para tomar as rédeas da Comissão Executiva do Banco, Amílcar Morais Pires, actual Chief Financial Officer.

Quebra-se definitivamente um ciclo histórico de sucessões familiares à frente do Banco que, pela primeira vez desde a sua fundação, não terá um Espírito Santo a ditar o seu destino. A família ficará somente com uma posição minoritária no gigante financeiro, posição que se mantém contudo inalterada, ou saiu mesmo reforçada, em várias outras empresas do Grupo. A família garante igualmente a sua esfera de influência pela sua presença no Conselho Estratégico do Banco.

Julgo que o afastamento de Ricardo Salgado pode ser visto por dois prismas: o momento financeiro e o momento pessoal.

Num momento financeiro, o abandono pode ter sido precipitado pelas várias polémicas que envolveram recentemente algumas holdings do Grupo Espírito Santo, nomeadamente a Espírito Santo Internacional e o BES Angola.

Na ESI, a CMVM revelou recentemente números alarmantes: detectou 1,2 mil milhões de euros de dívidas não registadas nas contas de 2012 e apontou o valor dos capitais próprios negativos para 2,5 mil milhões de euros. A auditoria sublinhou várias irregularidades e a existência da “uma situação financeira grave”.

No BES Angola, suspeita-se que cerca de 4,2 mil milhões de euros de créditos, 80% do total da carteira, não apresentem qualquer tipo de garantias, desconhecendo-se mesmo quem foram os beneficiários.

Situações relevantes que começaram a preocupar os mercados e o próprio Governo.

Por outro lado, analisando o momento pessoal, penso que o timing escolhido terá permitido a Ricardo Salgado nomear o seu sucessor com mais calma e nos seus próprios termos, escolhendo um homem da sua total confiança, antecipando-se desta forma ao que seria uma autêntica batalha familiar pelas rédeas do poder.

Resta agora acompanhar o comportamento e aceitação dos mercados perante as mudanças que se avizinham no Grupo e no Banco que soube, ao longo dos tempos, tornar-se no maior banco privado português e que exerce uma influência preponderante em toda a economia nacional.

No imediato, para fazer face à forte exposição das holdings, o grupo terá agora de se fortalecer financeiramente a curto prazo, por exemplo através da venda de variadíssimas participações como foram as alienações das acções detidas na Zon, EDP, Netviagens e na dispersão de 49% do capital da Espírito Santo Saúde.

Nesse sentido, Salgado tentou também recentemente um financiamento para a reestruturação do Grupo quer junto da Caixa, falando com a Ministra das Finanças e com o próprio Primeiro-ministro, quer em Angola junto da elite daquele País: em ambos os casos a resposta foi negativa. Aparentemente, a decisão de não recorrer ao apoio do Estado na altura em que estava disponível, pode não ter sido a melhor das decisões.

Seja como for, estou certo que as melhores soluções não tardarão em aparecer e, pessoalmente, só posso desejar os maiores sucessos. Julgo que um Banco Espírito Santo forte e um Grupo Espírito Santo sólido só podem ser bons indicadores para Portugal, para os portugueses e para todos os sectores económicos do nosso País.

João Costa Reis

 

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