Joaquim de Almeida está assustado com Trump e “espera que ele se enterre de tal maneira” que mais ninguém vote nele

Joaquim de Almeida já não vive na América ideal. O ator português está assustado com o consulado do novo presidente dos EUA e espera que Trump “se enterre de tal maneira que daqui a quatro anos ninguém vote nele”. Numa longa entrevista, o ator disse, ainda, que Portugal tem cinema a menos e turismo a mais. E não se foi embora sem partilhar uma história de vida, íntima, pouco feliz, do ator que também desaba, mas nunca desiste.

O que é que o faz voltar a ser, pela quinta vez, o anfitrião do festival de storytelling Grants Stand Together?

É uma noite bem passada. São duas horas, em que o público vê seis pessoas diferentes a contar histórias. É engraçado porque as pessoas abrem-se e contam histórias pessoais. Algumas são engraçadas, outras são dramáticas e tristes. Mas são todas muito pessoais. E é engraçado porque oiço as histórias. Inspiro-me. Lembro-me de uma história minha e conto-a. Uma história, puxa outra história. As pessoas ficam atentas e gostam, porque são pessoas que conhecem da vida pública, mas não conhecem esta parte, íntima das pessoas.

Conte-me uma história sua: tão verdadeira que (eles) nem vão acreditar. Eu ajudo: qual foi o seu aniversário favorito?

Eu não sou muito de aniversários. Este ano fiz 60 anos e, infelizmente, não estava cá para celebrar. Tenho vários amigos que fizeram 60 anos. O meu amigo Fernando Pereira, do restaurante onde vou sempre em Sintra, o Rui Veloso e o meu amigo Rui Vilar. Portanto, eu acho que este ano temos que encontrar uma data para celebrarmos todos.

E os 50, celebrou? Foram um marco?

Não, não foram. A minha mãe estava a morrer. Estava muito mal, e eu tinha desistido de fazer a festa. Este meu amigo, que tem o restaurante, disse-me: convida aí meia dúzia de pessoas e fazemos um jantar. E eu comecei a fazer uma ‘listazinha’ de meia dúzia de pessoas. Apareceram 65. E como havia vários músicos, o Rui Veloso cantou, o Paulo Gonzo cantou…

Até chorou, não?

Chorei sete dias depois. A minha mãe acabou por morrer e eu não estava cá. Estava a começar um filme. Eu tinha vindo a Portugal antes, de propósito para ver a minha mãe. Eu sabia que ela estava nas últimas. Mas depois começava a filmar a 23, e fui-me embora. O meu irmão ligou-me a 22 a dizer que a minha mãe tinha morrido. E eu não podia vir para o funeral, porque começava a filmar no dia a seguir. E se eu não fosse filmar, o filme caía. O meu pai percebeu perfeitamente e os meus irmãos também. Eu já tinha vindo para dizer adeus, e isso é que era importante. São aquelas histórias desta profissão. É como se diz: o palhaço tem de fazer rir, mesmo que esteja triste. Era uma comédia, que se chamava ‘La cocina’, e tive de começar a filmar no dia a seguir.

E esse dia, como foi?

Correu tudo muito bem até à hora de almoço. Depois, fui lá para fora, comecei a pensar na minha mãe, e caíram-me as lágrimas. Fiz ali um ‘prantozinho’ sozinho, escondido lá num canto. E depois aliviei e preparei-me para a tarde. Mas acho que, de certa maneira, ajudou toda aquela mágoa. A minha mãe teve Alzheimer durante dez anos. E eu já estava preparado: um dia há-de ser. Mas nunca estamos preparados. O engraçado é que nunca estamos preparados. Agora tenho um pai com 95 anos. E com esta idade, temos que estar preparados para que possa acontecer de um dia para o outro. Mas acho que vai ser duro no dia em que acontecer. E pronto, aí tem a minha história.

Como é viver na Califórnia com Donald Trump em Washington?

O Donald Trump não é uma pessoa fácil de se conviver. Para já, não se sabe o que é que ele quer. Segundo, porque é um menino mimado e narcisista. As asneiras que o homem faz, os tweets, é cansativo. Se vir, este governo ainda não fez nada, ainda não provaram nada. Disseram que iam mudar o Obamacare. Aprovaram uma coisa, mas ainda tem que passar no Senado. E depois, não é muito presidencial. Tem atitudes que não fazem sentido. Num dia diz uma coisa, noutro diz outra. A história da influência dos russos nas eleições. As histórias do genro e dos investimentos que ele diz que não fez, quando os russos vieram salvá-lo num momento em que ele esteve mal. Dá a ideia de que é um grande business man, que não é. Um gajo que tem casinos, e que perde nos casinos, é porque não sabe o que está a fazer. Toda a gente sabe que o casino tem uma percentagem enorme de lucro. Como é que ele conseguiu perder nos casinos?

Donald Trump assusta-o?

Assusta-me. Sobretudo porque não se sabe para onde vamos. Ele está a tentar destruir tudo o que o Obama construiu, para as camadas menos privilegiadas. Pôs no governo uma série de pessoas de direita, multimilionários, que vão com certeza criar leis que protejam os negócios deles. Não é a América ideal. Eu espero é que ele se enterre de tal maneira, que daqui a quatro anos ninguém vote nele.

E vir viver para Portugal, com António Costa, em São Bento?

Com o pouco dinheiro que se investe na cultura, não dá para estar em Portugal. Cinema, não há. Há muito pouco cinema. E o pouco cinema que se faz, não paga. Televisão, há as telenovelas, mas não são sinceramente, a minha coisa preferida. Eu, se calhar, gostaria de cá vir fazer um filme, três meses.

Não têm dinheiro para lhe pagar…

Não têm. Mas o dinheiro também não é tudo. Se fosse um papel que eu gostasse de fazer, dependendo com quem o faria.

Qual é a sua perceção sobre o cinema português? Está mais internacional (e menos local) mais reconhecido e mais premiado?

Sim, como o filme que se ganhou em Veneza do Nuno Lopes, que gostava de ver. Mas como é que se vê esse filme? Os filmes portugueses passam, e depois desaparecem rapidamente. E depois, há uns jovens realizadores que me parece que têm talento, mas não têm grandes possibilidades. O cinema em Portugal está muito difícil, ou faz-se com muito pouco dinheiro. E é uma proeza estar a fazer cinema com o pouco dinheiro que se faz em Portugal.

Acredita no talento português?

Eu agora vejo lá nos Estados Unidos uma série de atores portugueses. Ainda não apareceu assim nenhum – a não ser a Daniela Ruah, que está a fazer aquela série há oito anos, que lhe está a correr muito bem – que tenha tido assim impacto.

Estão lá agora uns atores portugueses, que criaram uma produtora, em associação com outros atores americanos, que estão a escrever coisas e a tentar produzi-las. Eu aliás, investi um bocadinho de dinheiro numa dessas coisas, porque acho que eles têm talento. E vou entrar.

Vai ser investidor? 

Investi não muito dinheiro, para fazerem um piloto melhor. Investi num projeto que têm, que escreveram, e que está com muita piada. E esta é uma das soluções: criar o próprio trabalho para eles, criar uma produtora. É o que muitos atores fazem.

O que é que falta ao cinema português para ter o boom do turismo?

Há um boom no turismo, porque nós vendemos o país para o turismo, não é? Não temos indústria. Cada vez temos menos indústria. Esperemos que a justiça comece a funcionar um bocadinho melhor, para podermos ter mais investimento estrangeiro noutras áreas no país. Eu – sinceramente – acho que temos turismo a mais. Eu vivo em Sintra, e há dias em que prefiro ir para casa, porque não se consegue andar na rua. É tanto turismo, tanto turismo. Não temos capacidade. Aquilo torna-se um desespero para quem lá vive. Eu não sou grande apologista que este país seja todo vendido ao turismo, desta maneira. Eu acho que devíamos dirigir o turismo. Ter um turismo de mais qualidade, para preservar a beleza de Portugal.

O mundo está rendido a Portugal…

Ainda agora quando estava a fazer a na série que fiz, havia uma maquilhadora e uma pessoa do som, que vinham a Portugal este ano. E quando digo sou de Portugal: Ah, está na lista dos países que quero visitar. Quando aqui há uns anos era: onde é que fica Portugal? Portanto, tudo mudou nos últimos 10 anos. Sobretudo nos últimos cinco. Lisboa está cheia de turismo. Às vezes, não se consegue andar. Era como alguém me dizia, que um restaurante do Algarve dizia: ‘Habla-se’ português.

O que é que mais gozo lhe dá, na vida?

Uma das razões por que gosto de cá vir, é a comidinha portuguesa. O nosso peixinho. Gosto de me sentar à mesa com amigos, que não vejo há muito tempo, e de trocar impressões. Gosto de ler. Leio muito. Devoro livros. Leio mais em inglês. O meu filho convenceu-me a comprar o Kindle, porque eu viajava sempre com muitos livros. E de repente, li 152 livros, em três anos. Devora livros, lê mais em inglês, 152 livros em 3 anos.

Como se sente nos seus 60 anos?

Sinto-me melhor do que nunca, por acaso. Tenho tratado de ir para o ginásio e de ter uma vida mais sã. Porque comecei a ver que quando temos trabalho durante muito tempo, é preciso estar bem. Fiz um filme em que estive quatro semanas com uma ciática e aprendi logo que a coisa mais importante é a saúde. Sem saúde não vou a lado nenhum.

Quer continuar a ser ator?

Não sei. Já tive alturas em que me apeteceu desistir. Na vida, as coisas mudam. Os gostos mudam. Depois passamos um tempo em que não nos apetece trabalhar, em que só nos apetece fazer só certas coisas ou só nos dão certas coisas para fazer. E depois, aparecem trabalhos que nos dão imenso prazer e recomeça-se a ter prazer outra vez em fazer aquilo. Agora houve uma altura em que os projetos não me interessavam. E eu preferia estar sem fazer do que estar a fazer. Enquanto puder quero continuar a fazer isto.

Até quando?

Até quando? Se pudesse até aos 80 e tal. Depende. Se a memória me permitir.

E a reforma, vai ser em Sintra?

Os atores não se reformam. A reforma vem, mas depois continua-se a trabalhar. Mas acho que seis meses de Inverno, na Califórnia e o Verão em Sintra. O inverno na Califórnia é muito apetecível. A viver em frente à praia. Nunca faz muito frio. Acho que vai ser assim a minha reforma.

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