Jorge Martins: “Ainda temos muitas seguradoras com elevados custos com TI”

O setor segurador é tecnologicamente conservador, por vezes pouco eficiente e muitas vezes dependente da mediação profissional, que anseia legitimamente por uma melhor integração de sistemas informáticos entre companhias e mediadores. É assim a visão de Jorge Martins, o novo CEO da Capgemini, para quem as TI também podem fazer parte do segredo da fidelização […]

O setor segurador é tecnologicamente conservador, por vezes pouco eficiente e muitas vezes dependente da mediação profissional, que anseia legitimamente por uma melhor integração de sistemas informáticos entre companhias e mediadores. É assim a visão de Jorge Martins, o novo CEO da Capgemini, para quem as TI também podem fazer parte do segredo da fidelização de clientes


Que leitura faz da relação do setor segurador com as Tecnologias de Informação (TI)?

O setor segurador é visto tradicionalmente como um setor conservador. Faz parte da sua própria natureza ser conservador e é uma imagem que tenderá a perdurar. No entanto, é um setor que está muito consciente dos benefícios que as TI lhe podem trazer e como podem potenciar quer o aumento das vendas, quer da rentabilidade. A Capgemini, através de diversas publicações, onde se destaca o “World Insurance Report”, tem apresentado tendências de adoção tecnológica dentro do setor segurador, entre as quais esta relação entre tecnologia e negócio.

Não obstante existir esta consciência, sendo um setor baseado na alavanca preço, ou existe uma redução do custo de produção e das operações recorrendo a tecnologias, ou então é o caminho para a degradação de margem e, consequentemente, dos resultados.

 

Em que áreas o setor segurador pode beneficiar mais do potencial das TI?

Fruto da pressão sobre o preço, as prioridades das seguradoras deverão estar na melhoria da eficácia das suas forças de vendas, diretas ou indiretas, e na redução de custos com as suas operações. Neste caso, ainda temos muitas seguradoras que têm elevados custos associados às TI, sem uma tradução direta na margem libertada ou no preço final dos prémios.

A evolução para soluções “cloud based” é uma das soluções, pois tem custos de aquisição e manutenção significativamente inferiores. Há já bons exemplos de seguradoras a operar em tecnologias “cloud”, não só ao nível das infraestruturas, como também ao nível dos sistemas core ou de plataformas para canais indiretos (agentes), assentes em modelos de custo indexados ao crescimento das vendas, daqui resultando situações “win-win” para seguradoras e fabricantes de soluções.

Estas plataformas foram desenvolvidas para dar a resposta às necessidades do setor, com coberturas funcionais bastante alargadas, como sejam a subscrição, gestão de apólices, faturação e tratamento de sinistros, entre outras.

 

Considera o setor segurador resistente à interiorização da inovação tecnológica?

Sim. É um setor muito conservador, com hábitos muito vincados e onde existe muito pouca diferenciação, tirando algumas exceções, ao nível operacional, comercial e técnico.

Uma seguradora se fosse hoje criada de raiz teria menos de metade da complexidade tecnológica, comparativamente à atualmente existente, sobretudo quando analisamos a complexidade dos “backoffices”, nas áreas de simulação, subscrição, faturação, sinistros e comerciais.

 

A mediação profissional de seguros há muito que pede uma melhor integração de sistemas informáticos entre companhias e mediadores. Consegue antever as virtudes dessa eventual conquista?

Claro que sim. Para todos: seguradoras, mediadores e clientes. A mediação é imperativa na vida das seguradoras desde o desenho de ofertas à relação de proximidade com o cliente. As seguradoras têm tentado endereçar a lacuna da interoperabilidade de forma adequada a pequenos mediadores ou a mediadores que atuam de forma exclusiva. Mas a mediação sofre das mesmas dificuldades, ou melhor, até as sofre primeiro que o setor segurador. Também tem a necessidade de melhorar a sua operação e assegurar um relacionamento de excelência aos seus clientes, quer na colocação de produtos quer no tratamento de sinistros. Precisa ter a informação e mecanismos de comunicação adequados para prestarem o serviço de excelência que as seguradoras procuram e que os clientes exigem.

Numa análise recente, privada da Capgemini, a alguns agentes de seguros sobre quais os fatores que privilegiavam na colocação de produtos, a “rapidez da resposta” é o fator principal, seguido de “mecanismos de comunicação” e “facilidade em obter informação”. Neste último, incluíam-se aspetos comerciais, como comissões e carteira, mas também questões operacionais, como a aprovação de riscos, o estado de sinistros, etc.. Nesta análise, por exemplo, o valor das comissões foi dos menos valorizado.

 

Encontra atualmente no setor segurador e disponibilidade e sensibilidade suficientes para evoluir tecnologicamente e entrar verdadeiramente no mundo digital?

Correndo o risco de estar a ser injusto, com exceção dos grandes clientes ou, se quisermos, do segmento corporate, os clientes hoje não são das seguradoras, mas sim dos agentes ou corretores (obviamente depois há os outros que não pertencem a ninguém). Dito isto, ou as seguradoras encontram mecanismos de fidelização, que ultrapassem progressivamente a excessiva dependência dos agentes, ou então estarão sempre na mão destes. A eficiência e a transparência das operações é uma das formas das seguradoras fidelizarem clientes, obviamente recorrendo a uma utilização mais eficiente de recursos tecnológicos.

 

Ana Santos Gomes / OJE

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