José Sócrates e os estados de alma

É impossível não falar hoje nesta crónica em José Sócrates. Ao longo da semana, em toda a comunicação social, já quase tudo se disse sobre a sua prisão e debaixo de cada pedra surgem todos os dias novos especialistas na suposta rede de corrupção supostamente montada por Sócrates, criada alegadamente à custa dos cargos que […]

É impossível não falar hoje nesta crónica em José Sócrates. Ao longo da semana, em toda a comunicação social, já quase tudo se disse sobre a sua prisão e debaixo de cada pedra surgem todos os dias novos especialistas na suposta rede de corrupção supostamente montada por Sócrates, criada alegadamente à custa dos cargos que exerceu ao serviço do país. Todos têm opinião, basta um computador, um smartphone ou mesmo um telefone fixo ligado a um programa radiofónico de opinião pública. É a outra face da democracia.
António Costa, de imediato, soube estabelecer balizas claras no discurso socialista – “à justiça o que é da justiça e à política o que é da política”, enviando um SMS de enorme clarividência e sensatez a todos os militantes socialistas onde, apesar de tudo, também deixou transparecer um sentimento de emoção perante o sofrimento que se abateu sobre um amigo de todos nós socialistas.
Muitas vezes se alegou que na política e na justiça não há “estados de alma”, que os procedimentos, as regras e a racionalidade dos factos se sobrepõem às leituras filtradas pelos sentimentos. Discordo: a articulação entre o racional e o emocional resulta em competências acrescidas no domínio de ambas as dimensões, como de resto defende Daniel Goleman, o introdutor da teoria do Quociente Emocional na inteligência humana como sendo “o” fator determinante para a sua eficácia. Diria até mesmo que é impossível analisarmos o que está a acontecer a José Sócrates sem se ter em conta uma incontornável leitura emocional.
Desde sempre, Sócrates despoletou emoções à sua volta – daí os extremos em que se cai facilmente em torno dele – e desde há muito que parte dessas emoções se configuraram em obsessão. Lamentavelmente, parece que são as obsessões negativas e a volúpia da maledicência humana as vencedoras deste interminável “round”, cujo início data de ainda antes da sua primeira eleição como Primeiro-ministro, em 2005. Basta ler na diagonal os comentários na net para perceber a dimensão do “mal” que se esconde no anonimato e como este se regozija com a detenção de Sócrates.
Ao longo de anos, José Sócrates teve que rebater incontáveis acusações que penderam sobre ele. A sua incrível resiliência e a força da sua razão ajudaram-no a vencer essas acusações, uma após outra. Mas agora a dimensão da acusação é de outro patamar, colossal e dantesca. Só espero que não seja kafkiana, a bem da justiça, a bem da política e em nome do serviço – em muitos aspetos exemplar – que José Sócrates prestou a Portugal. Eu fui testemunha disso.
Este fim de semana o Partido Socialista organiza o seu Congresso. A sombra deste terrível episódio não deixará de pairar, mas também vai brilhar a verdadeira herança socialista que Mário Soares, Guterres, Sócrates e António Costa estão associados: a consolidação dos princípios democráticos expressos na Constituição Portuguesa, as conquistas na Educação, na Saúde, na igualdade de género, no combate à pobreza, o Simplex, a aposta nas Energias Renováveis, o reconhecimento da Ciência e da Cultura como fatores de desenvolvimento civilizacional e todos os valores que fizeram do PS a força política em que os portugueses mais confiaram nas últimas décadas.
Entre a sombra e o brilho, vencerá a luz.

Gabriela Canavilhas
Pianista, deputada e ex-ministra da Cultura

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