Kalorama. Ao terceiro dia, Nick Cave levou-nos à missa e Disclosure mataram “muitas saudades”

O MEO Kalorama chegou ao fim numa implosão que começou melancólica e acabou numa pista de dança do tamanho da Bela Vista. Nick Cave não se cansa de cá passar e Disclosure arranjam sempre tempo para “mais uma”. O mais novo festival de Lisboa encerra com nota positiva e já há datas para o próximo ano.

O mais novo dos festivais de Lisboa, o MEO Kalorama, encerrou no sábado a sua primeira edição, que ao longo de três dias trouxe ao Parque da Bela Vista nomes pesados como Arctic Monkeys, Kraftwerk e Moderat. Ao último dia, coube ao australiano Nick Cave embalar um público embebido na sua missa e confiou-se aos Disclosure a ingrata missão de encerrar um palco, uma noite e um festival, algo que fazem e fizeram tão bem quanto se podia esperar.

Se é certo que o ceticismo habitual em torno de um festival que se realiza pela primeira vez não levantava demasiado as expetativas dos fãs e dos críticos, é também certo que o Meo Kalorama não ficou a dever muito aos portugueses. A avaliação do sucesso faz-se de forma justa e há já datas para o próximo ano.

O australiano e a sua banda entraram em palco de forma pontuais – aliás, a pontualidade neste festival foi cumprida com sucesso – e se muitos esperavam um concerto requentado dos (muitos) mais recentes de Nick Cave and the Bad Seeds em Portugal, os restos nunca souberam tão bem. A tornar-se uma presença assídua nos cartazes nacionais, das duas uma: ou os portugueses gostam do sofrimento e melancolia, ou Nick Cave dá um concerto como poucos conseguem.

Foi com “Get Ready for Love” que o músico entrou pelo palco principal a dentro, e ao longo de mais de duas horas de concerto não se ficou pelo amor. Pingou na depressão, na raiva, na angústia, na tragédia, na euforia. Mas prevaleceu o amor, o bom e o mau, enquanto milhares de fãs ecoavam consigo e o abraçavam numa das frequentes vezes em que se deixou cair para os braços do público.

O alinhamento pouco fugiu àquele da sua última passagem pelos palcos nacionais, em junho, no NOS Primavera Sound, mas a letra e a voz do australiano souberam a colírio, a xarope, ora a um abraço ora a um grito, num repertório que relembrava uma experiência de missa, com o pastor Nick num púlpito a falar aos fiéis – e eles a ouvir sem perder pitada, reconhecendo êxitos atuais e outros do baú, como “Bright Horses”, “Ghosteen” e “White Elephant”.

Do alto da sua idade não dá parte fraca e quem já o viu em palco sabe que por muito que se suspeite que vem aí mais do mesmo, há sempre algo novo, uma entrega renovada, um abraço mais forte, um trovão mais estridente. Chegou a dedicar uma música a uma fã aniversariante, deu autógrafos na frontline, caiu e voltou a cair nos braços dos seus discípulos porque “é muito divertido”, apontava.

Este concerto por Lisboa deixou rugas nos cantos dos olhos, e foi até o encerrar de uma digressão de três meses, que terminou num sonho febril com Miley Cyrus – não nos perguntem – e acabou num gospel a milhares de vozes com “City of the Refuge”. O encore foi servido enquanto muitos já corriam para apanhar Chet Faker no palco secundário ao som de “Into My Arms” e “The Boatman’s Call”, dedicada à jovem Beatriz Lebre, assassinada e atirada ao Tejo há dois anos. Por fim, chuvas de agradecimentos e elogios, uns ocasionais ‘obrigados’ com sotaque australiano e uma tensão coletiva que coube mais tarde, aos irmãos Lawrence da dupla Disclosure, desconstruir, incinerar e limpar.

Guy e Howard Lawrence não tinham uma tarefa fácil em frente – depois de Peaches, à tarde, Ornatos Violeta à hora de jantar e Nick Cave para a sobremesa, com um cafezinho de Chet Faker a aconchegar tudo isto, os britânicos encaravam um público melancólico, cansado, sentimental e pronto para fechar as janelas e dormir. Tarefa ingrata essa de transformar o Parque da Bela Vista na maior pista de dança que o país já viu, mas tarefa exemplarmente cumprida.

A dupla não poupou nos apetrechos audiovisuais: lasers, fumos, flares. Tudo o que fosse necessário para sinalizar aos milhares de festivaleiros que era ali que tudo ia acabar e ninguém podia faltar. Das mais conhecidas “Latch” e “White Noise” a “When a Fire Starts to Burn”, o grupo de dança não ficou indiferente nem àqueles que não os conheciam (como é possível?). Ao lado deste jornalista, um grupo de três jovens do Porto abanava-se compulsivamente, um já em tronco nu e de sorrisos pastelado e suado. “Não sabia que ia ser assim”, grita o jovem despido para que o ouvíssemos bem. “Não conhecia nada deles”, admite. Ficou a conhecer.

De facto, quem a poucos metros do palco se ativara ao chão ao mínimo comando dos irmãos Lawrence certamente conhece os Disclosure, que pelo menos a nós nos conhecem muitíssimo bem. A dado momento, confessam: “Já tínhamos muitas saudades vossas”. Num crescendo imparável, a temperatura ia gradualmente subindo até que tudo termina em grande, numa explosão mas também num abraço. Chegava ao fim o Meo Kalorama.

A organização veio já comunicar que está confirmada uma segunda edição, no próximo ano. O festival regressa ao Parque da Bela Vista a 31 de agosto e 1 e 2 de setembro de 2023.

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