Lado turco de Chipre exige reconhecimento às forças de paz da ONU

A República Turca do Chipre do Norte, país que só a Turquia reconhece, quer que a força de paz da ONU, que está no terreno desde 1964, reconheça a existência do país. Ou então que se retire.

A República Turca do Chipre do Norte, país apenas reconhecido pela Turquia, disse esta quinta-feira que as forças de paz das Nações Unidas estacionadas na ilha devem buscar o consentimento dos dois lados na área em que operam. E que esse reconhecimento não pode ser apenas angariado na república do Chipre – reconhecida pela ONU e por todos os países do mundo menos a Turquia como a única força política da ilha.

O representante especial do presidente Ersin Tatar (da república turca), Ergun Olgun, disse em declarações públicas que “isto não é um pedido, mas um direito, queremos que esse direito seja implementado”. E reiterou que as forças de paz da ONU operam até agora sob a aprovação da República de Chipre e que o lado turco permitiu isso “com boa vontade e tolerância, permitindo que suas operações continuassem”.

“Se a ONU quiser contribuir para o estabelecimento da paz e da estabilidade em Chipre deve manter uma aproximação igual das duas partes”, destacou Ergun Olgun.

Fundada em 1964, a UNFICYP é uma das mais antigas missões de paz da ONU no ativo. A presença da UNFICYP é ditada por um mandato emitido pelo Conselho de Segurança da ONU, como sempre sucede, que é renovado a cada seis meses no final de janeiro e de julho.

“A nossa hospitalidade tem os seus limites: ou a ONU assina um acordo militar com a república turca ou vão embora”, disse aquele responsável ao jornal turco “Hurriyet”, citando o ministro dos Negócios Estrangeiros turco-cipriota, Tahsin Ertugruloglu.

“Decidimos dar-lhes mais um mês. Não é o governo cipriota grego que vai aprovar a sua missão no norte. Somos nós”, acrescentou. As forças de paz da ONU têm dois campos no norte.

Chipre está envolvido numa disputa de décadas entre os cipriotas turcos e os cipriotas gregos. E apesar de uma série de esforços diplomáticos da ONU para alcançar um acordo abrangente, tal nunca foi possível – a pontos de, depois de mais uma ronda de negociações falhada em abril do ano passado, o secretário-geral da ONU, António Guterres, ter desistido dos seus esforços. Ou antes, Guterres disse que não desistia, mas escusou-se a patrocinar nova ronda, dado ter considerado que nenhuma das partes fez qualquer esforço de aproximação.

Os primeiros ataques entre as duas partes deram-se no início da década de 1960 e forçaram os cipriotas turcos a retirarem para o norte da ilha. Em 1974, um golpe cipriota grego visando a anexação à Grécia levou à intervenção militar da Turquia para garantir a segurança dos cipriotas turcos. O país acabaria por ser fundado em 1983.

O lado cipriota grega entrou na União Europeia em 2004, no mesmo ano em que, queixam-se os cipriotas turcos, frustraram o chamado Plano Kofi Annan, na altura secretário-geral da ONU, para acabar com o diferendo de longa data. Muito mais tarde, nova iniciativa fracassada aconteceu em 2017 na Suíça sob os auspícios da Turquia, Grécia e Reino Unido.

O lado turco apoia uma solução baseada na igualdade de soberania dos dois Estados da ilha, mas o lado grego quer uma solução federal – alternativa a um regresso, que aparentemente é impossível, à existência de apenas um Estado em toda a ilha.

Recomendadas

“A Arte da Guerra”. “Os curdos são uma espinha encravada na garganta da Turquia há muito tempo”

A entrada dos exércitos da Turquia na Síria está iminente em resultado de um atentado em Istambul atribuído ao PKK, partido curdo na Turquia. Veja a análise de Francisco Seixas da Costa no programa da plataforma multimédia JE TV.

União Europeia volta a discutir entrada dos Balcãs

A região está sob fogo: os desentendimentos entre Sérvia e Kosovo, a crise institucional no Montenegro ou as grandes dificuldades vividas na Bósnia-Herzegovina. Poucos acreditam que a União possa dar resposta a tudo.

Tunísia: eleições a 17 de dezembro deixam o país indiferente

As primeiras eleições legislativas sob a nova Constituição tunisina colocam sérias dúvidas sobre o seu caráter democrático. A comunidade internacional está na expectativa e internamente o desinteresse parece ser geral.
Comentários