Lagarde põe os criptoativos na lista dos riscos para a estabilidade financeira

A presidente do Banco Central Europeu alertou esta quinta-feira que, “embora o impacto de tais episódios tenha sido contido até agora, o risco sistémico poderia facilmente surgir de crescentes interligações entre o ecossistema criptográfico e o sistema financeiro tradicional”. Deixou também alertas aos bancos.

O Presidente do BCE, Christine Lagarde, abriu a Sexta Conferência Anual do Comité Europeu do Risco Sistémico, que decorreu esta quinta-feira, e os ativos digitais foram o tema quente.

“Temos de nos defrontar com potenciais novas fontes de risco para a estabilidade financeira”, disse a presidente da instituição responsável pela estabilidade financeira e que é o supervisor do sistema financeiro europeu.

Por exemplo, citou Lagarde, “uma área em que o sistema financeiro se está a adaptar às novas tecnologias é a atividade dos criptoativos e o chamado financiamento descentralizado. Os criptoactivos são excecionalmente voláteis e representam riscos consideráveis para os consumidores”, alertou.

Lagarde lembrou que “após um pico em novembro de 2021, o preço do Bitcoin caiu quase 75% no espaço de um ano e ainda no mês passado assistimos ao caótico colapso do FTX, uma corretora [exchange] de criptoactivos que chegou a estar avaliada em 32 mil milhões de dólares”.

A presidente do Banco Central Europeu, alertou esta quinta-feira que, “embora o impacto de tais episódios tenha sido contido até agora, o risco sistémico poderia facilmente surgir de crescentes interligações entre o ecossistema criptográfico e o sistema financeiro tradicional”.

“Os decisores políticos, incluindo as autoridades macroprudenciais, devem considerar cuidadosamente se e como o ecossistema criptográfico precisa de ser regulado”, defendeu Lagarde no seu discurso.

“A Europa tem estado aqui na vanguarda com o acordo assinado sobre a Regulamentação dos Mercados em Crypto-Assets (MiCA). A sua rápida implementação é fundamental para colmatar lacunas regulamentares, com a MiCA a fornecer um quadro consistente para a emissão de criptoactivos e fornecimento de serviços na UE”, lembrou.

Mas, diz, “isto só pode ser um primeiro passo”. Da perspetiva da estabilidade financeira, a regulamentação financeira poderia ser melhorada ao longo de várias dimensões, defende Lagarde que dá como exemplo, que “a regulamentação financeira sectorial precisa de abordar o risco das interligações através da exposição das instituições financeiras aos criptoactivos”.

“A monitorização precisa de ser complementada com uma regulamentação das atividades de empréstimo e de staking e finalmente, a evolução do mercado em finanças descentralizadas deve ser tida em consideração”, defende.

Já no dia anterior, Fabio Panetta, membro da sua comissão executiva do BCE, tinha dito que “há uma necessidade urgente a nível global de regulação para proteger os consumidores dos riscos dos criptoativos, para definir requisitos mínimos para gestão de risco e governo da sociedade de empresas cripto, e reduzir os riscos de contágio das ‘stablecoins’ [criptomoedas cujo investimento está protegido por outros investimentos]. Também devemos taxá-los de acordo com os seus custos sociais”.

O membro da sua comissão executiva do BCE, o italiano Fabio Panetta, classifica como ativos de apostas com risco, que servem para jogar a dinheiro e que são, em suma, a bolha de uma geração”.

Lagarde diz que vivemos um “permacrises” e alerta bancos para reforçarem provisões

No seu discurso, a presidente do banco central lembrou que “quando os historiadores do futuro olharem para o nosso tempo, podem muito bem dizer que vivemos uma era de ‘permacrisis’, ou seja, uma série de choques poderosos – a pandemia, a invasão injustificável da Rússia à Ucrânia, e a crise energética – que atingiram a economia global numa rápida sucessão”.

“Este ambiente instável representa riscos consideráveis para a estabilidade financeira na Europa e esses riscos são ainda agravados por uma perspectiva económica em enfraquecimento. Ao mesmo tempo, a política monetária está a adaptar-se para assegurar que a inflação elevada não se torne enraizada, e que a inflação regresse a 2% a médio prazo”, voltou a frisar Christine Lagarde.

Uma mensagem chave foi “a importância crucial de assegurar a continuação da resiliência do nosso sistema financeiro. A resiliência é fundamental para ajudar o sistema financeiro a atingir o seu objetivo final de apoiar a economia real”. Lagarde considera que “há duas facetas da resiliência que são vitais. Primeiro, a capacidade de resistir a um choque imediato e em segundo lugar, a capacidade de adaptação eficaz às novas condições”.

“Isto aplica-se antes de mais aos bancos, que permanecem no coração do sistema financeiro da União Europeia. Eles fornecem cerca de três quartos do financiamento de crédito de instituições financeiras a empresas não financeiras na zona euro”, contextualiza a presidente do BCE que considera importante que os bancos constituam as provisões adequadas.

“Os bancos devem estar atentos ao risco de crédito e permanecer atentos a potenciais falhas nos seus modelos internos, à medida que o ambiente de risco evolui”, avisa a presidente do supervisor da banca europeia.

A presidente do BCE pede aos bancos que “tenham uma boa visão dos riscos de liquidez de curto prazo e planos concretos para enfrentá-los; fortes defesas cibernéticas; e a capacidade de suportar fire sales (vendas de ativos stressados) e suportar o impacto do mark-to-market dos ativos mantidos nos seus balanços. Se não forem geridos de forma adequada, estes são todos os tipos de riscos que são particularmente suscetíveis de ampliar e propagar choques através do sistema financeiro”.

Lagarde alertou ainda que os “não-bancos também desempenham um papel crescente no sistema financeiro. A percentagem de financiamento não bancário no crédito global das instituições financeiras à economia real aumentou de cerca de 15% para cerca de um quarto desde 2009. Para que tais fontes alternativas de financiamento funcionem de forma fiável, estas instituições também devem ser resistentes aos choques”. A presidente do BCE citou o caso dos fundos do mercado monetário (FMM). Os FMM estão intrinsecamente ligados ao resto do sistema financeiro, incluindo aos bancos.

O segundo elemento de resiliência, disse, é a capacidade do sistema financeiro de se ajustar a novas condições. Isto é válido tanto para o sistema como para aqueles que o supervisionam. “À medida que os bancos se adaptam a uma série de desafios tecnológicos, estruturais e ambientais, o quadro regulamentar também precisa de se adaptar”, reconheceu.

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