Líbano. Crise política não abranda: Parlamento não consegue eleger presidente

Beirute não tem um governo em funcionamento desde maio e o atual primeiro-ministro, Najib Mikati, não tem legitimidade suficiente. Acentuando a crise política – paralela à económica – não foi possível ao Parlamento eleger o presidente do país.

O presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, bem tentou, mas não conseguiu: a sessão desta quinta-feira servia para eleger um novo presidente, mas tal não foi possível: a maioria dos deputados votou em branco e alguns chegaram mesmo a sair na altura da votação.

Sob o frágil sistema sectário de artilhamento de poder, o parlamento (de 128 membros) do país devia votar num presidente, que deve ser um cristão maronita. Com o Parlamento profundamente dividido e a questão de liderança não resolvida, intensificaram-se as preocupações de paralisia do governo.

O mandato de seis anos do atual presidente Michel Aoun termina em 31 de outubro. Militar na reforma, aliado do Hezbollah, apoiado pelo Irão, foi eleito em outubro de 2016 após um impasse de dois anos.

O sucessor de Aoun, quando o houver, vai herdar uma situação explosiva: o colapso económico é uma realidade; o governo luta para implementar as reformas estruturais necessárias para um resgate do Fundo Monetário Internacional mas não o consegue; e a fragmentação das últimas eleições, já este ano, não ajuda nada.

Nos últimos meses, não surgiu nenhum candidato maioritário ou consensual no Parlamento, levantando-se perspetivas de nova paralisia política semelhante ao que sucedeu há oito anos.

Um total de 122 deputados compareceram à sessão desta quinta-feira e depositaram os seus votos no salão da Assembleia do Parlamento. Mais da metade votaram em branco, enquanto Michel Mouawad, filho de um ex-presidente e opositor ferrenho do Hezbollah, recebeu 36 votos.

Os votos restantes foram divididos entre o empresário e filantropo Salim Edde e votos de protesto, incluindo um para Mahsa Amini, a iraniana de 22 anos que terá sido assassinada pela polícia iraniana na semana passada, e que provocou fortes protestos. Dezenas de deputados saíram depois de Nabih Berri pedir uma recontagem, o que acabou por levar o Parlamento a deixar de ter quórum para proceder à eleição. A maioria dos candidatos que estavam na lista dos favoritos não recebeu nenhum voto, nomeadamente Sleiman Frangieh, aliado do Hezbollah.

Citado pela imprensa, Mohammad Raad, deputado do Hezbollah, disse que os blocos parlamentares do país atingido pela crise estão nos “estádios iniciais” de encontrarem um presidente que “traga estabilidade ao país”. “Os blocos precisam de discutir e desenvolver um entendimento sobre um possível candidato de consenso”, disse Raad. O problema é que a questão está na agenda há muito e os referidos blocos ainda não conseguiram encontrar esse nome consensual.

O deputado independente Halime Kaakour, citado pelas mesmas fontes, criticou os aseus colegas pelo que chamou de “calma negativa, sem consenso”, temendo um atraso prolongado na eleição de um novo presidente. “A Constituição diz que o presidente é eleito por uma maioria dos votos. Acho que o consenso já não é a lógica”, disse o deputado, que é um dos muitos que entraram no novo parlamento em maio e não fazem parte de qualquer dos blocos tradicionais.

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